Na minha
infância, como acontece com a maior parte das crianças, eu não pensava na morte. Ela não
existia. O tempo passava-se entre brincadeiras, correrias, leituras, conversas
nos serões, à braseira.
Entrara para o Liceu há pouco,
a novidade dos estudos interessava-me, gostava de estudar coisas novas. E entretinha-me
com as histórias que vinham da rua, trazidas pela Florinda. Essas notícias bastavam a satisfazer-nos a curiosidade.
Por vezes falava-se da morte, mas era uma ideia que não conseguia
materializar. Sentir, sim, “sentira-a” nos romances. E, neles, a morte fazia-me chorar.
Zinaida Serebriakova, Menina a ler
Um dia de manhã, a Florinda entrou pela casa dentro, espavorida: tinha morrido uma menina
que era nossa vizinha. Uma jovem já crescidinha e bonita que também estudava no Liceu, mais
velha do que nós e que vivia na rua detrás da nossa casa.
As ruas da
minha cidade eram um micro-mundo comunicante, onde tudo se trocava e tudo se sabia. As casas eram baixas, de um andar, havia menos gente - e quantas vezes se falava, de janela para janela, a contar o que se passava por ali...
Ao fundo do jardim do lavrador da Mesquita, nas traseiras da nossa cozinha, ficava uma rua paralela à nossa e que, com ela, descia também até ao Rossio. Nela, morava a jovem Sofia.
Contaram depois tudo com pormenores e fiquei a saber que morrera de leucemia, doença misteriosa ainda naqueles tempos. Sem cura, isso disseram-nos logo.
rua de Portalegre (MJF)
Ao fundo do jardim do lavrador da Mesquita, nas traseiras da nossa cozinha, ficava uma rua paralela à nossa e que, com ela, descia também até ao Rossio. Nela, morava a jovem Sofia.
a minha rua
vista do Rossio sobre a cidade (MJF)
Contaram depois tudo com pormenores e fiquei a saber que morrera de leucemia, doença misteriosa ainda naqueles tempos. Sem cura, isso disseram-nos logo.
A casa ficou silenciosa, não ligávamos o rádio nem o gira-discos, e uma tristeza
invadiu-me, misturada de espanto.
"Então ela, tão nova, morreu?"
"Então ela, tão nova, morreu?"
O que era morrer? Ouvira as histórias da tia Zezinha, irmã
da minha avó materna.
Nas noites de Inverno, à braseira, ela gostava de contar coisas que nos assustavam. Histórias de mortes e mesmo de fantasmas, de enterrados que voltavam ... Mas tudo me aparecia tão longe. Eram uma imagem tão vaga, tão irreal.
Nas noites de Inverno, à braseira, ela gostava de contar coisas que nos assustavam. Histórias de mortes e mesmo de fantasmas, de enterrados que voltavam ... Mas tudo me aparecia tão longe. Eram uma imagem tão vaga, tão irreal.
John Waterhouse, O barco
Mas esta menina, que
eu sabia nova, que tinha tanta beleza, por que morrera?
Dias mais tarde, a família veio deixar em nossa casa uma fotografia. Lembro o rosto fino, os olhos tranquilos, o
sorriso, o cabelo loiro separado ao meio.
Entristeceu-me pensar que nunca mais ia sorrir, nem brincar, nem enfeitar-se nos dias de festa...
Que a Primavera nunca mais entraria pela janela do seu quarto. Que nunca mais veria os bandos de as andorinhas chegar e partir.
John Waterhouse, Psyche
Entristeceu-me pensar que nunca mais ia sorrir, nem brincar, nem enfeitar-se nos dias de festa...
Que a Primavera nunca mais entraria pela janela do seu quarto. Que nunca mais veria os bandos de as andorinhas chegar e partir.
Chamava-se Sofia
Amélia - parece-me um nome dos romances de Camilo e a verdade
é que a recordo com uma personagem de romance.
P.S. Depois de já ter publicado o post, a minha amiga Fátima Martelo, que o leu, pôs a fotografia da Sofia Amélia no Facebook. Comoveu-me a juventude destas meninas e, outra vez, o retrato da Sofia Amélia me impressionou...
Ela está na 1ª fila, é a primeira à esquerda, "de saia aos quadrados e casaco comprido", como escreveu a Fátima...
Edward Burne-Jones, A estrela da tarde
Ela está na 1ª fila, é a primeira à esquerda, "de saia aos quadrados e casaco comprido", como escreveu a Fátima...
Era muito bonita!
ResponderEliminarNunca me detive muito a pensar sobre a morte, até à morte do meu pai, há sete anos. A vida e a morte passaram a ter outro significado.
Gostei muito de todas as pinturas que escolheu. Muito lindas!
Um beijinho e bom domingo :)
Querida Maria João,
ResponderEliminarUma história triste mas a sua narrativa transforma-a em beleza.
Com uma primavera mais curta, esta menina tem agora no texto longevidade.
Beijinho. :))
Olá Maria João, veja só que coincidência, a casa em Marvão onde é hoje a Mercearia e a Estalagem da minha filha filha Catarina, pertenceu aos pais da Sofia Amélia, a d. Benta e o sr. Garção.
ResponderEliminarPosso entender o que sentiste e te ficou gravado para sempre. Também tive várias experiências como essa, a que mais me marcou foi a de um primo da minha idade a que estava muito unida e morreu por um acidente de carro. Ao pai de um amigo matou-o uma criança com a sua própria espingarda de caça, quando estava a dormir a sesta no campo. E outro rapaz afogou-se no rio, foi ao fim da tarde, toda a vila corria rua abaixo, eu era muito miuda e fiquei sózinha em casa. Fui a acender um candeeiro que ele tinha oferecido à minha mãe, e tinha-se fundido a lâmpada. São coisas que nunca se esquecem, acompanham-nos toda a vida.
ResponderEliminarGostei das pinturas de Waterhouse, sempre sugerente.
Que tenhas um feliz domingo, beijinhos