sábado, 2 de março de 2013

Recordando os pãezinhos da Dona Severiana, em São Tomé...


Os pãezinhos da Dona Severiana
rosa de porcelana


São Tomé na Gravana (foto da internet, de JPG)

Quando cheguei a São Tomé, ficámos num dos apartamentos do Bairro dos Cooperantes e íamos comer à pensão da Dona Severiana, que ficava ali ao pé, na subida da Chácara, não muito longe do centro e do Água Grande, o rio que corria em São Tomé.
a zona do centro da cidade, ao pé do rio "Água Grande"

Era a novidade de tudo que me encantava. Ver uma mesa comprida onde, como em todas as pensões do mundo os comensais se sentavam e conversavam, distraía-me. A comida diferente, e, no fundo, sempre igual: peixe grelhado com gindungo verde e cebola, sopa de matabala ou canja e frango assado ou de churrasco.

No segundo dia, a dona Severiana passou a pôr-nos uma mesinha, separada, para estarmos mais à vontade.
O tempo correu, e aos dias de Gravana sucedeu-se a estação das chuvas. Foi por essa altura que mudámos para a vivenda bonita que durante esse tempo fora restaurada. 

eu, no jardim, mais o Zac


Nessa casa, vivi os cinco  anos de São Tomé. Uma casa branca, bem desenhada, com janelas encantadoras  e com uma risca azul que me lembrava a das casas alentejanas e que nunca se vira ali.  
a entrada da casa que eu amei!

Toda ela rodeada por um jardim enorme que, pouco a pouco, com a ajuda do jardineiro da embaixada, o “nosso” Senhor Semedo foi enchendo de lindos arbustos, de flores que eu nunca imaginara haver.

ramo de flores são tomenses

os bicos de papagaio

As chuvas torrenciais duravam oito meses e lavavam as pedras e davam brilho a todas as plantas que eu não conhecia e eram lindas e coloridas com as cores mais vivas: rosas de porcelana, "bicos de papagaio" de um vermelho vivíssimo, ou os rosados bordões de São José  ou as estrelícias azuladas...



A ave do paraíso, ou estrelícia

o meu jardim, na estação das chuvas


a perfumada flor do cafèzeiro, que havia no meu jardim

Se hoje posso recordar com grande saudade esses tempos, confesso que na altura sofri, estranhei o clima demasiado quente e com uma percentagem de humidade da ordem dos 90 graus frequentemente, e tive muitas saudades da minha terra...
interior da minha casa, em São Tomé


Sofri a falta da electricidade, senti o impossível refúgio ao calor, durante horas e horas, de dia e de noite.

E os mosquitos que me atacavam por mais sprays ou aparelhoseléctricos, de pastilhas para queimar, que pusesse à minha volta! Não havia electricidade, como poderiam funcionar?
O ar condicionado não trabalhava, pelo mesmo motivo na maioria dos dias e "eles" escondiam-se nos  cantos dos cortinados e, à noite, vinham picar-me.

O Zac à porta...

Por teimosia – ou inconsciência-  não usámos o que sei que hoje é considerada a melhor protecção: o véu mosquiteiro que cai do tecto e nos “embrulha” protegendo-nos dos anofeles.

O meu cão Zac sentia-se dono do jardim e vinha cá fora espreitar, desconfiado, sempre que o Senhor Semedo se distraía e deixava a cancela aberta.

Mas tudo isto vem a propósito dos pãezinhos da Dona Severiana!
Um dia, já na casa nova,  soubemos que a pensão tinha fechado e que a senhora viera  viver perto da nossa rua.

O aprovisionamento de pão, arroz, batatas ou leite não era como nos tempos de hoje : não havia farinha, ou mesmo açúcar e a ajuda vinha-nos de Lisboa,semanalmente, num caixote de mercearias.


eu e o meu cão Zac, em São Tomé


Custava-me muito quando o pão acabava na pequena padaria, um pão com muita mistura que nunca soube qual era. Um belo dia, porém, a Dona Severiana mandou um recado ao nosso jardim, dizendo que estava a fabricar pão e bolinhos para os amigos...


O sofrimento acabou, porque todos os dias a senhora cozia o seu pão, espécie de papo-seco pequenino, saboroso e branquinho.

duas fotografias do Miki, a brincar

Lembro-me sempre desses pãezinhos e vem-me a imagem do Miki, o filhito mais novo da Milly, na porta da cozinha, a choramingar: “ó mãe, quero pão”!

E a Milly, rabugenta  logo de manhã, respondia, áspera:
- Ai, tem fomi? Você não comeu lá em sua casa?!

uma encruzilhada, algures em São Tomé

O Miki encostava-se, ao lado da rede-mosquiteiro da porta, a olhar, com os olhos muito abertos, cheios de lágrimas. 
Eu sabia que ele vinha sempre comer, de manhãzinha, a nossa casa, porque a Milly tinha três filhos, vivia na Chácara que era um bairro pobre, e a vida custava.

Eu insistia:
- Milly, dá-lhe de comer! É uma criança... Dá-lhe lá um pãozinho com manteiga!
A Milly, na Chácara

o mercadinho "mundo já viu", no Pantufo


as traseiras da casa de São Tomé, e o meu jeep um UMM

a janela do estúdio

a janela do estúdio,na parte da frente

A Milly agitava o corpo, limpava as mãos no grande avental, e, fingindo-se contrariada, mas contente por eu insistir, ia até ao quintal, com a faca da manteiga a barrar o pão.
- Miki! Tomi lá  pão, tu minino furado!
um dos coqueiros do meu jardim

A paz do jardim envolvia-me. A minha casa de São Tomé nessas manhãs era acolhedora. Sentia-me bem.

E havia os pãezinhos da Dona Severiana!

7 comentários:

  1. Gosto de "ouvir" as suas histórias sobre S.Tomé.
    Flores tão lindas!
    Tinha saudades, mas estava rodeada de tanta beleza!
    Gostei muito de a ver naquela foto com o Zac.

    Um beijinho grande

    (Já é a terceira vez que aqui tento deixar comentário e não consigo. Apareceu-me um quadrado grande, sem as palavras "Publicar e Pré-visualizar". Agora já aparecem. )

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    1. Obrigada! não sei onde o ir buscar, mas agradeço! BEIJO

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  3. As memórias são um registo que têm o condão de me fazer sorrir.
    Gostei de todas as fotos mas houve uma que pela perspetiva me cativou particularmente: foi a da Gravana.
    Devem ter sido tempos muito bons. :))

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    1. Difícil responder que não foram... Ou que foram. Aprendi muitas coisas isso sim! O que é bom, sempre...
      A Gravana era uma estação maravilhosa. É ainda...

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  4. Venho oferecer, tal como a Margarida, um Libster Blog Award. :)
    Pode passar no (In)Cultura ou no Memórias e Imagens e trazer a imagem do Libster Blog Award.
    Bj. :)

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