quinta-feira, 21 de maio de 2009

A minha África outra vez: A Nina e a Tina







Chamavam-lhes "irmãs" por serem como duas gotas de água na maneira de ser: a mesma delicadeza, a mesma tranquilidade nos gestos, a mesma frescura do sorriso aberto. Eram o meu repouso e o meu refúgio no calor húmido de certos dias da ilha, na agitação interior, na dificuldade que tinha em respirar antes das chuvas caírem de repente.
Quando a luz "ia embora", como elas diziam, e o ar condicionado parava, a angústia pesava no meu peito, deixando-me exausta, num nervosismo incontrolado, ao acordar. Quando a água secava no poço e a minha sede era imensa. Era nesses momentos que a Nina e a Tina me amparavam: nos humildes gestos cheios de paciência, no espanto ingénuo diante das coisas da vida de todos os dias, na simplicidade de aceitar, apenas aceitar...
Chegavam de manhã cedo. A Nina no seu vestido de riscas azul-turquesa, com os cabelos pretos e brilhantes, que esticava em casa com rolos, os lôros chamava-lhes ela, e que prendia num travessão de pedrinhas coloridas. De onde eles fugiam, sempre, espetados.
Tenho saudades do sorriso tímido com que me dava os bons dias. Saudades das conversas com a Tina, na cozinha enorme do anexo da minha casa de S. Tomé, onde ela passava a ferro a roupa e, a seguir ao almoço, ficavam as duas a dormitar, com a cabeça poisada nos braços, ou encostadas para trás, no espaldar das cadeiras. Ensinavam-me a falar forro, o dialecto da terra, e riam quando eu fingia que sabia falar:
- Bonjao, Nina, como nova sa oji? É assim?...
- Sim! E, depois, a dôtôra deve responder : “oji sa levi-levi, balêladu”...
- "Balêladu"?

Era uma palavra estranha e doce... E eu continuava, a brincar:

- "Moála si sa glavi », Nina ?...
-"Eu, moála glavi?! Não, mulher feia, não, dôtôra, eu sou mulher bonita..., protestava, rindo devagarinho.
A Nina, que fora minha lavadeira anos antes, passara a trabalhar na cozinha, quando a Milly se foi embora, num dos seus ataques de fúria.
O gosto de aprender cada coisa, os gestos ritmados e vagarosos, a alegria tranquila depois de uma palavra de encorajamento, era assim a Nina. Os movimentos seguros mas suaves, o ar de gazela assustada, o sorriso, a adivinhar quando não percebia, enterneciam-me. A emoção contida aproximava-nos. Identificava-nos o mesmo pudor.
A outra irmã, a Tina, chegara nessa altura, para ser lavadeira. Mais velha, tinha uma inteligência viva, um ar sério, o equilíbrio numa forma de resignação, sem a timidez da Nina. Cada palavra sua era pensada, ia direita ao coração dos outros para os ajudar. A Tina era um filósofo, fatalista mas cheio de humanidade, um filósofo africano.
E a vida passava levi-levi. Nunca as ouvi queixarem-se, apesar de falarem da vida difícil, das doenças dos filhos, do paludismo que não largava as crianças, que as não largava a elas, que não largava a irmã mais nova da Nina, grávida, e, sempre, com paludismo.
- Como vai a vida?...
- Vai lentamente normal, dôtôra..., respondia ela.
Um dia houve um almoço com muitos convidados, e a Nina preparou tudo, atenta aos pormenores .
Estava uma tarde fresca, era a Gravana, os tons vermelhos e dourados estavam lá fora nos caroceiros junto ao mar, e a acácia do largo da igrejinha desconsagrada estava cheia de flores vermelhas, pensava eu, enquanto tomávamos o café na varanda.



Olhava, no meu jardim, a goiabeira perfumada, a papaia-flor, as caramboleiras, a cerca pintada de branco, junto à cancela da entrada. Foi nesse momento que tocaram à campainha.
A Nina atravessou a relva, no seu passo vagaroso, ficou a falar com uma rapariga da terra. De repente, desfaleceu. Tremeu, ergueu o braço sobre a cabeça, tapou os olhos com a mão e todo o corpo se agitou em soluços. Voltou a correr para a casa.
Procurei-a na cozinha. Lavava a louça, de cabeça baixa.
- Nina, o que foi?!
Olhou-me nos olhos:
- Oh! dôtôra! Nem sei como contar...A minha irmã piquinina morreu, com o bébé lá dentro... Paludismo...
Falava simplesmente, como se fosse uma coisa natural. Acontecia todos os dias, eu sabia, mas aquela resignação quase me chocava...
- Oh! Nina!
O que lhe podia dizer mais? Abracei-a com força.
- Descansa um bocadinho...Vai para casa, com a Tina, vai ver a tua mãe...
- Depois, dôtôra, depois... Tenho trabalho ainda para fazer...
Não quis descansar, não quis parar, acabou o serviço, como todos os dias, devagarinho.
- A gente sofre cá dentro, dôtôra, o que a gente sente não precisa mostrar..., ia dizendo.
A Tina, silenciosa, acenava com a cabeça.
Quando deixei S. Tomé, lembrei-me desse momento. Abraçava-a com força, como da outra vez, a despedir-me agora, e ela dizia:
- Eu vou chorar depois, dôtôra, o que a gente sente está cá dentro, dura sempre...
- Eu sei, Nina, eu sei... Não é preciso mostrar...
A outra irmã olhava-nos, a abanar a cabeça. A Nina tinha os olhos molhados e desviou a cara para eu não ver que chorava.

A casa amarela: as estrelas



Berthe Morisot,
Menina no lago


Van Gogh, Noite estrelada


Quando estávamos de férias na Serra, na quinta dos avós, gostava de ir sozinha até à pinheira à noite para mostrar que não tinha medo.
Eram magníficas essas noites de Agosto, no Alentejo da minha infância. Nunca vi um céu assim, escuro, profundo e tão carregado de estrelas. Disseram-me que, quanto mais se anda para o Sul, mais as noites são negras, e mais vivas as estrelas se vêem brilhar.
Isso não sei, sei que eram maravilhosas. Via as constelações como nunca mais consegui ver tão nítidas em nenhum lugar: a Cassiopeia, a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Andrómeda de que o meu pai me falava tanto, a Estrada da Santiago, nebulosa transparente, a esfiapar-se na noite. Mais tarde, no hemisfério Sul, em S. Tomé, fui encontrar o “Cruzeiro do Sul” e fiquei pasmada a olhar para aquelas estrelas. Só aí me lembro de ter sentido uma emoção, um fascínio tão forte perante a noite estrelada.
Passávamos o Verão inteiro na quinta. Estava situada na Serra de S. Mamede, a uma certa altitude e, talvez por isso, o céu parecia ainda mais perto. Salpicado de luzinhas, as estrelas pareciam mais brilhantes, e as estrelas cadentes, essas, mais tocáveis... Sentia o peso do céu em cima da cabeça, do peito, como se eu própria fosse prisioneira de uma qualquer forma de sentimento mágico.
E era nessas noites sem lua que eu experimentava a minha coragem, desejosa do risco e da aventura. Não queria ceder ao medo "que nos vigia a meio da ponte estreita que é a nossa vida", filosofava eu nessa altura...
Atravessava a quinta, passando pelos tanques de águas negras que, durante o dia, tinham um espelho de água azul transparente onde gostava de me sentar, a com as mãos lá dentro, a chapinhar. Atravessava junto das hortas e subia até ao pinhal. De lá, debaixo da copa do grande pinheiro manso de onde pendia o baloiço, acenava com um lenço e gritava “oh! oh!”, que era o sinal combinado para provar que tinha conseguido chegar lá sozinha.
Via as minhas irmãs agitarem os braços junto da casa iluminada, lá tão longe... Olhava em redor, parecia-me ouvir ramos a estalar, o grito da coruja, ou um coelho bravo a saltar entre as giestas e as urzes. Sentia o coração aos saltos na garganta, mas não arredava pé. Ficava ainda a gritar, a acenar.
O regresso era numa correria serra abaixo tropeçando no restolho, prendendo os pés nas raízes que me pareciam mãos de bruxas mas quando chegava aos tanques, o coaxar das rãs e o tsstss dos ralos eram uma companhia. Arranhada, vermelha e com a respiração acelerada, chegava cansada e feliz. As minhas irmãs recebiam-me com palmas e risos.
Na varanda ao cimo das escadas, coberta de glicínias e da folhagem vermelha da vinha virgem, o meu pai lia sob uma lâmpada à volta da qual giravam as borboletas entontecidas pela luz, e as grandes libélulas.
Erguia os olhos do livro, e perguntava-me:
- Então?...
- Nada...
Eu sorria.
Ele não sabia mas eu vencera o medo...
( Clair de lune, de Claude Debussy)
Renoir, Nini no campo

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Infância: a primeira separação






Lembro-me bem do dia em que me separaram da minha irmã, devia eu ter cinco anos, e ela era um ano mais velha. Adoecera com tosse convulsa e, para não ser contagiada, o meu pai achou melhor que eu fosse para casa duma tia da minha mãe.
Ela ficou, ao cimo das escadas, a ver-me partir. Queria descer, vir ter comigo e gritava. Recordo o seu bibe branco, enfeitado de folhos nos ombros, a camisola vermelha de lã angorá, as botas curtas e as meias de renda até ao joelho. Eu olhava-a, cá de baixo, e choramingava, nada me consolava de a deixar, e o grande laço de fita escocesa, que me segurava os cabelos, caía desmanchado para um lado.
Tinha sido um Inverno muito frio o desse ano. Dias antes, debruçada à janela alta da nossa casa amarela, tinha visto sair os meus pais para irem ao cinema -o velho Cine-Teatro com o seu tecto pintado de azul, céu no qual corriam figuras cheias de grinaldas de flores; com as frisas e os camarotes forrados de veludo vermelho escuro, e o rebordo suave do parapeito onde encostava a cara para espreitar para a plateia e descobrir o meu avô, que me dizia adeus com a mão.
À janela, nessa noite, vira o meu pai abrir o guarda-chuva e nele pousarem devagar pequenos flocos brancos que logo se desfaziam em gotas que escorregavam pela seda preta até ao chão brilhante, onde uma mancha esbranquiçada, da neve que já prendera, começava a formar-se.
É a única recordação de neve da minha infância.
A noite em que me levaram era fria também. Havia três primas já crescidas naquela casa estranha, que ficava ao fundo de uma rua estreita onde, ao anoitecer, passava um burro com duas bilhas de latão cheias de leite. Habituei-me a correr à janela para o ver, para me distrair, outras vezes, desinteressada, adivinhava, apenas, os cascos a escorregarem nas pedras redondas e polidas da rua.
Durante horas, as minhas primas penteavam-me, faziam e desfaziam-me as tranças, punham-me laços, vestiam-me vestidos com golas engomadas, às pintinhas de todas as cores que a minha mãe bordara. Brincavam comigo o dia inteiro para me tirarem daquela tristeza em que me deixara a ausência da minha irmã doente, dos meus pais, e da irmã pequenina que me olhara de olhos muito abertos quando me fora despedir.
Nesta casa, havia um gatinho que dormia ao fundo da minha cama e a quem eu dava leite num biberon de bonecas, das muitas bonecas de louça, velhas, com vestidos gastos e olhos de vidro parados. Havia também brinquedos de madeira que eram mesas e cadeiras e armários pintados com flores de várias cores e eu fazia casinhas com tudo aquilo.
Os dias passavam, lentos, e era à noite que eu mais pensava na minha casa onde sabia que o meu pai lia, debaixo da luz do candeeiro de vidrinhos verdes e brancos. Lia e sublinhava tudo e riscava os livros todos, deixando-me sempre espantada por ele poder riscar os livros e eu não...
À noite, lembrava-me disto tudo e ficava triste.
Não sei quantos dias passaram, perdera a noção do tempo, mas foi numa noite, depois do jantar, que ouvi tocar a campainha da porta.
Eu brincava, fazia uma “cantareira” com os brinquedos em cima de um sofá e começava a ter muito sono. Alguém foi abrir e, de repente, ao fundo do corredor, soaram uns passos rápidos que se aproximavam.
Virei-me para a porta da sala que se abria e larguei tudo: sabia que era o meu pai que me vinha buscar. Fizeram-me a mala a correr, eu não podia esperar mais.
E saímos os dois, na noite. Eu, com o meu casaco felpudo, um barrete de lã vermelha, que apertava debaixo do queixo, e as minhas botas grossas. O meu pai com um sobretudo comprido que o fazia parecer ainda mais alto, com o cachecol escuro e umas luvas de pele amarela.
Atravessámos o largo da Sé, deserto. Por detrás da igreja, a lua brilhava, linda, encoberta por nuvens cinzentas que, pouco a pouco, se desvaneceram. Eu sentia-me quentinha, com a minha mão pequenina na mão enorme do meu pai, a saltitar para poder acompanhar as suas largas passadas, feliz, a voltar para casa.

terça-feira, 19 de maio de 2009

África, ainda: a princesa tonga

Gauguin, duas mulheres taitianas





mulher africana



A princesa tonga





A minha cozinheira, a Milly, é uma tonga (*), do sul da ilha de S. Tomé. Tem o rosto redondo, a pele sedosa cor de canela, e os seus olhos doces podem ser distantes e frios. Não é alta, a sua elegância está no porte da cabeça, onde as tranças do penteado formam uma espécie de coroa. Pouco mais terá que vinte anos mas tem o corpo deformado pelo primeiro parto, que deixou tortos os ossos da bacia, fazendo-a coxear. O último filho quase a matou, ao nascer, e ficou assim, de ventre alto e inchado, como se eternamente grávida. Sorri e espalha-se no rosto redondo um ar infantil que apaga a expressão fechada. Quando se zanga com os filhos, quando a vida lhe pesa, desespera e vem ter comigo:
- Dôtôra, é dimais, eu vou matar minha vida! Tché...
Mas logo esquece tudo e, pouco depois, ouço-a cantar na cozinha. Sei que ao som da música ensaia uns passos de dança. E, no ritmo e na delicadeza dos gestos, o corpo ganha uma leveza que esconde toda a imperfeição.
A lavadeira e ela –e os filhos- costumam reunir-se no terreiro que fica ao pé do tanque, sombreado por uma latada de uvas vermelhas, junto da horta onde o senhor Semedo plantou maquêquês, mandioca e gindungo.
Ali ficam pela tarde a comer, ali descansam, conversam, encostadas sobre a palma da mão, ali penteiam os cabelos com os longos e finos pentes de madeira, antes de os entrançarem nos mais diversos modos.
Volta-me a imagem dela, pouco tempo depois de estar em minha casa. Tinha ido chamá-la porque havia uma reunião na escola do filho e já estávamos atrasadas. Abri a porta da cozinha e fiquei a olhar, surpreendida. Sentada na borda inclinada do tanque, com os pés e as pernas dentro de água, nua, tinha apenas a envolver-lhe os cabelos um turbante feito de um avental azul sabiamente enrolado. A filha e a lavadeira esfregavam-lhe as costas cheias de sabão. Riam.
Quando me viu, olhou-me com os olhos puros, e disse:
- Dôtôra, eu não podia ir “chuja”...

Pensei que era o banho de uma princesa tonga.

Não resisti a associar, na imagem acima, uma pintura de um pintor que muito amo: Gauguin. Encontro nele a mesma pureza, a mesma naturalidade da minha princesa tonga...
Paul Gauguin, duas mulheres taitianas


(*) tongas : ver no link:
sobre os tongas e os forros, em S. Tomé:
http://hdl.handle.net/10316/1584


domingo, 17 de maio de 2009

Histórias da casa amarela: as "maias"

A Primavera, de Boticelli







A Primavera tinha chegado e as flores amarelas, mais as papoilas, apareciam por toda a parte, na Serra e nos campos em redor da cidade. Nós fazíamos colares, pulseiras, enfiando as flores, uma a uma, com uma agulha larga, num fio de algodão.
As janelas estavam abertas desde manhã e a brisa entrava suave e repousante. As andorinhas começavam a voltear e a fazer os ninhos nos beirais dos telhados.
O calor do Verão ainda vinha longe.
Pela tarde, ouviam-se umas vozinhas ao fundo da rua e, logo, a Rosalina vinha chamar-nos, afogueada:
- Meninas! Vem aí a “maia”!
A “maia” era uma rapariguinha, ainda uma criança, que podia ter sete ou dez anos, enfeitada com flores, com um vestido, talvez da mãe ou duma irmã mais velha, branco e de renda, já muito lavado e gasto, por cima da sua roupinha e com a saia rodada à volta, apanhada pelas mãos das outras meninas que a rodeavam, formando uma concha aberta, cheia de pétalas de rosas e outras flores.
Trazia os cabelos enfeitados de grinaldas, colares de flores amarelas ao pescoço, grandes e pequeninos, pulseiras. Tinha as faces coradas com rouge e os lábios pintados de vermelho ressaltavam vivos no meio da mancha amarela das boninas e malmequeres.
Meninas da rua, meninas pobres, princesas de um dia de Primavera, que vinham anunciar a sua chegada, trazer a alegria das suas cantigas e pedir algum dinheiro.
Ouço as vozes desafinadas:
“Ó maia, ó maia,
Ó maia das cachopas,
Por onde vai a maia?
Vai por essas barrocas.

Ó minha senhora!
Chegue lá à janela,
Venha ver a maia
Que parece uma donzela...”

Nós debruçávamo-nos da janela, voltávamos para dentro numa excitação enorme, a buscar os trocos, guardados para os gelados e gulodices no porta-moedas da cozinha, e corríamos a deitar o dinheiro pela janela. Às vezes, juntávamos rebuçados embrulhados em papéis, amêndoas, o que tínhamos à mão.
As moedas caíam no chão, caíam no vestido e elas paravam, riam às gargalhadas quase soltando a saia da "maia" para poderem apanhá-las.
Seguia-as um grupo de garotos descalços, brincando com uns arcos de ferro ou arame que tilintavam na rua. Corriam à frente e atrás delas, procuravam agarrar primeiro as moedas mas as “maias” não os deixavam e faziam briga.
Depois iam todos, rua adiante, a cantar. Outras pessoas vinham à janela e a brincadeira continuava até ao cimo da rua.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Histórias da casa amarela: as andorinhas

Coisas que eu via da janela da minha casa amarela...






Numa Primavera as andorinhas vieram fazer o ninho no beiral alto da casa amarela, por cima da janela do nosso quarto. Foi um alvoroço em nossa casa.


Elas vieram, no azul do céu claro, voltejando, iam, vinham, agitando as negras asas elegantes e a cauda aberta como dois bicos.
Nós íamos as três, pé ante pé, espreitar o que faziam. Era um ninho! Na parede lisa, mesmo junto às telhas, começou a aparecer uma forma redonda, esbranquiçada, que parecia feita de barro branco, com um buraco circular. Nunca tinha visto um ninho assim.
Corri a perguntar ao meu pai como é que elas faziam os ninhos e ele mostrou-me um livro com desenhos de pássaros e que explicava:
“Os ninhos das andorinhas são feitos de palhas e lama. A andorinha vai transportando estes materiais no bico..."

De vez em quando ouvíamos barulho e lá vinham as duas andorinhas, ora uma ora outra, trazer coisas no bico: as palhinhas e o tal barro que ia formando uma argamassa bem forte.
Eu ia para a janela da sala de estar, ao lado, encostava a cabeça na mão e ficava, sonhadora, a ver os arabescos que faziam volteando no ar e, depois, as cabecinhas negras a espreitar lá de dentro do ninho.
Pouco a pouco, tudo acalmou e elas só voltavam ao fim da tarde, e saíam de manhã cedo, mas a maior parte do tempo ficavam por ali, parecia-me que a cantarolar. Era um pipilar lindo, com sons agudos e doces.
Um dia uma das andorinhas, desorientada, ao regressar à tardinha, entrou pela janela do quarto. Andou às voltas, às voltas e foi cair na cozinha numa bacia de água.
- E se ela morre?, gritámos.
Fomos a correr chamar a minha mãe e ela veio e, com todo o jeito, tirou-a da água, pegou-lhe e alisou as penas molhadas que tremiam.
Recordo os olhinhos assustados a fechar e a abrir, e o medo que foi passando, numa forma de aceitação, expectativa, talvez confiança -quem sabe o que pensa uma andorinha?
A minha mãe embrulhou-a num cobertor cor de rosa das nossas bonecas e pô-la numa almofada, com uma tigelinha de água e miolos de pão esfarelado, ao lado.

Estivemos um bocadinho a vê-la e a minha mãe disse para a deixarmos sozinha porque estava muito assustada.

Saímos, silenciosas, deixando-a no quarto, perto do parapeito da janela. Não sei quanto tempo passou, creio que foram alguns momentos apenas.

Da janela da sala onde me tinha posto a espreitar, via-a de repente voar, voar longe, como se precisasse de se enxugar, ganhar forças.
Respirei fundo. Não a vi voltar nessa noite, mas na manhã seguinte havia de novo o pipilar e a agitação do costume à entrada do ninho.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A andorinha e o Príncipe












"As andorinhas são um grupo de aves passariformes da família Hirundinidae. A família destaca-se dos restantes pássaros pelas adaptações desenvolvidas para a alimentação aérea. As andorinhas caçam insectos no ar e para tal desenvolveram um corpo fusiforme e asas relativamente longas e pontiagudas. Medem cerca de 13cm (comprimento) e podem viver cerca de 8 anos."
(in Dicionário)
"Dezasseis milhões de pássaros migratórios voam todos os anos da África Sub Sahariana para a Europa e das 50 espécies que o fazem a mais amada é a andorinha."
(in The Economist, Maio de 2009)
Golondrina, rondina, hirondelle, andorinha, swallow são as diversas traduções dessa pequenina ave que nos traz a Primavera. Em África outros nomes de sentidos sugestivos nos falam das andorinhas: inconjani (o pássaro que ilumina), nyamkaleme (o pássaro que nunca se cansa), giri giri (o encanto mágico).
As andorinhas vivem perto do homem, há milhares de anos, aparecem já desenhadas nos vasos gregos, e Virgílio e Ovídio referem-nas nos seus versos. Uma lenda conta que foram as andorinhas que afastaram os espinhos da testa do Cristo. Se não, como é que então se explica o vermelho que têm nas faces?
Quem não recorda a história da andorinha e do Príncipe Feliz, de Oscar Wilde?
A andorinha amiga da estátua dourada, com olhos de safiras e boca de rubi, do Príncipe, que o acompanha até o Inverno chegar e morre de frio, numa manhã gelada?
Quando se vem despedir do seu amigo porque o frio está a chegar e o bando das suas amigas vai partir para os países quentes do Sul, o Príncipe pede-lhe um favor antes de ir: quer saber como vive o seu povo desde que ele morreu.
Ela vai pela cidade e vem contar todos os dias os sofrimentos, a pobreza, o drama das pobres gentes. E, pouco a pouco, o príncipe vai-se despojando das folhas douradas que o cobrem e que a andorinha leva no bico para aliviar essa pobreza, a dor de nada ter.
A andorinha vai perguntando: Estás contente? Já posso partir para o Egipto?
Mas o Príncipe chora porque ainda há quem sofra na sua cidade. E a andorinha vai ficando...
Depois vão os olhos de safira no bico da andorinha, depois o rubi, e a estátua fica despida.
Mas o Inverno chegou, e é tarde para a andorinha voar para o Egipto.
Numa manhã de céu branco, prenunciador de neve, vem o varredor limpar o parque e varre a andorinha morta, olha para a estátua do Príncipe e lamenta vê-la despida da sua riqueza, nua, uma vergonha para a cidade.
E assim acaba a história de uma andorinha e do seu amor pelo Príncipe Feliz...




domingo, 10 de maio de 2009

Truman Capote e Harper Lee















Harper Lee e Truman Capote






Harper Lee


Truman Capote
Truman Capote, (1924-1984), escritor americano nascido em New Orleans e mundialmente conhecido. Muitas das suas obras situam-se em locais -e falam de realidades- do Sul dos Estados Unidos da América.
Apreciado pelo seu estilo directo e cuidado, foi também uma celebridade, relacionado com gente rica e famosa que vai encher a sua biografia.
Talvez o seu livro mais conhecido seja In Cold Blood (1966) IN COLD BLOOD, A Sangue Frio, que combina factos reais com ficção, para contar a história dos dois assassinos de uma família de agricultores, no Kansas, assassinos esses que ele próprio vai entrevistar na cadeia -e acabará por ser um best-seller.
Com certeza conhecem os dois filmes que recentemente saíram: "Capote", realização de Bennett Miller (2005) com um grande actor, Philip Seymour Hoffman, no papel de Capote e Katherine Keener, no de Harper Lee; e "Infame", filme de Douglas McGrath (2007), com outro grande actor, Toby Jones, e com a grande Sigourney Weaver (Harper Lee).
No entanto, para mim, os mais belos dos seus livros são, sem dúvida, o primeiro livro Other Voices, Other Rooms, (1948) -Outras Terras, Outras Gentes (havia uma edição linda, hoje esgotada, da Colecção Miniatura) - que conta a história da adolescência e do crescimento, amargo e doce, de um rapaz no Sul rural... e o poético: The Grass Harp (1951), A Harpa de Ervas.
Sempre recordei este último como um livro maravilhoso sobre a adolescência -e a adolescência neste livro estende-se a pessoas adultas como a tia Dolly, o Juiz, a criada preta, Catherine Greek, quando todos decidem que, como protesto, vão "viver" para a árvore onde Collins (o herói) tem o seu esconderijo... Levam comida, agasalhos e... Têm que ler...
Ao relê-lo, pensei: "há tanto tempo que não me sentia tão bem!"
É um livro bom, cheio de ternura pelas pessoas e pelas coisas, que fala da natureza (o som musical das ervas que se ouve, no cimo da árvore, como se fosse uma harpa) -tudo é de uma pureza fantástica e faz-nos acreditar que a vida vale a pena.
O miúdo Collins, a doce Dolly, o Juiz, a Catherine Greek (maravilhosa mulher!) agarrada ao rádio que não larga nunca e será a sua companhia no fim...
Mas queria associar esta leitura à do livro de Harper Lee, amiga e condiscípula de escola de Truman Capote, To Kill a Mockingbird (tradução difícil pois não existe o "mockingbird" em Portugal (acho eu... Se souberem, digam-me, sim?). O dicionário diz que é um pássaro que existe na América que imita o canto dos outros pássaros e o som da fala do homem...
Truman Capote e Harper Lee, dois escritores que foram amigos, e que escreveram dois livros inesquecíveis sobre a passagem da infância para a adolescência.
O livro de Harper Lee, To Kill a Mockingbird (1960) que vai ganhar o Prémio Pulitzer de ficção em 1961 e, em 1999, foi votado como "A Melhor novela do Século" pelo Library Journal.
Sobre ela direi poucas coisas, prefiro que a procurem, mas aqui vai esse pouco.
Nelle Harper Lee nasceu em Monroeville, cidade do Alabama, em 1926. Em criança foi uma "maria-rapaz" e uma precoce leitora.
A figura de Jean Louise, "Scout" (como era conhecida em casa), é autobiográfica, assim como Dill é o seu vizinho, e amigo de sempre, Truman Capote. A figura do pai Atticus Finch é inesquecível, pela coragem, honestidade, aceitando como advogado por defender uma causa que ele sabe perdida (antecipadamente perdida: um negro que é acusado de violar uma branca).
No livro surge-nos o mundo sulista, com esses dramas, visto pelos olhos da pequena Scout e do irmão, Jem: problemas do racismo, das diferenças de classe social, a grande pobreza de muitas famílias rurais nos anos da "depressão", tudo isto aparece e nos atinge, pela força da escritora. Tudo visto, porém, com um certo humor e muita ternura.
Conclusão: têm de ler a história de To Kill a Mockingbird (podem clickar aqui pra saber mais) - que foi começado no Verão de 1959 e publicado em 1960, tornando-se desde logo um best-seller.
Deixo-vos o prazer de a encontrarem e de a lerem.
Aliás, de os lerem aos dois...





sábado, 9 de maio de 2009

as ruas da minha terra


As ruas da minha terra

Recordo os cheiros de certas ruas, a miséria mesmo ali ao lado, a rapariga grávida, saída há pouco da adolescência, rodeada de filhos, nascidos uns atrás dos outros e que, candidamente, à vizinha, que, ironizando sobre o estado dela, lhe perguntava: “Ó Mariazinha, por que tens tantos filhos?”, respondia: “Minha senhora, o que hei-de fazer? A minha vocação é ter filhos...”
Todos em rancho à volta, agarrando-se-lhe às saias, ou gatinhando, ranhosos, com ar doentio, a sair da casa escura, rés do chão sem janelas, com o cheiro a mofo e a couves que vinha lá de dentro.
Sentada numa cadeira baixinha, a mãe dela, ainda nova, magra, cinzenta, resignada, a remendar, a coser, à porta para ter um pouco de sol. Falava sempre com respeito ao meu pai que muitas vezes lhes fizera análises de graça e dava remédios. Eu fazia-lhe muitos cumprimentos, sorria, porque me parecia que lhe devesse dar qualquer coisa e não sabia o quê.

Havia ruas, lá para cima, para os lados do castelo, do qual se viam só as ruínas, com casas pobres e meninos descalços, mal vestidos, sujos, com calções rotos ou vestidinhos rasgados, que brincavam a puxar latas de sardinha e jogavam com uma bola de trapos ou arcos de arame, empurrados por uma varinha que fazia um ruído estranho nas pedras da rua.
Mulheres, que me pareciam todas velhas, sentadas em bancos, às portas, catavam os piolhos às filhas, com um pente muito fino que lhes arranhava a cabeça e elas gritavam, sacudindo as tranças desfeitas e agarrando uma boneca de trapos sem olhos.
Ou olhava e o espanto abria-me os olhos ao ver aqueles meninos que não tinham os brinquedos que eu tinha e que não tinham vestidos novos nem sapatos. Alguém me puxava pelo mão e me tirava dali.

Mas havia também outras ruas, alegres e que cheiravam bem, a flores e a bolos, a rua da Mouraria, por exemplo, que recordo cheia de luzes, enfeitada com grinaldas de flores de papel de lado a lado, vasos de mangerico perfumado, bandeirinhas espetadas na terra, os altares dos santos com panos e rendas, cheios de bonecos, de rifas, a rádio a tocar toda a noite. Era Junho, o tempo dos santos populares, e o meu pai levava-nos de rua em rua a ver os altares, deixava-nos saltar as fogueiras e íamos até ao Corro ver o bailarico e a banda.

Havia, mais longe, a rua da Sé, que descia do Largo da Sé que eu achava linda, no seu estilo entre o maneirista e o barroco, com duas torres que se erguiam para o céu azul. Era na rua da Sé que moravam os meus avós, uma rua inclinada com calçada de pedras cinzentas. Lembro-me das casas brancas e das janelas, de guilhotina, com seus vasos de malvas e de hortênsias azuis.

Paralela, descia do Largo a rua da Misericórdia, atravessada por um arco a meio, perto da igrejinha da Misericórdia da qual só lembro a porta de madeira antiga. Iam dar as duas ao Largo dos Correios, onde o meu avô teve um Café, o Café Central, e, daí, confluíam na rua Direita, ainda mais íngreme, de basalto reluzente do uso, e perigosa nos dias de chuva.
Muitas vezes caí nas pedras polidas e feri os joelhos, levantando-me envergonhada, a olhar para todos os lados. E recordo os burros, a puxar as carroças carregadas de fruta e hortaliças, que, ao descê-la, escorregavam, quase caindo e viam-se saltar as chispas das ferraduras riscando nas pedras do chão.
Com lojas, casas antigas, varandas de sacada bonitas, a rua Direita. Sei que numa delas nasceu o poeta José Duro de que só conhecia nessa altura a efígie, um medalhão de bronze que me parecia enorme, com um rosto delicado, nas costas de um banco de pedra no Passeio da Corredoura.
Passava por lá todo o movimento pois era, nessa altura, o centro da cidade e do comércio. Sempre cheia de gente a subir e a descer e de luzes à noite. Lembro-a, de Inverno, em noites nevoentas, quando descíamos do Café Central de volta a casa e a minha avó parava ao fundo da rua, na esquina com a subida para a Igreja de S. Lourenço, a comprar castanhas assadas.
A mulher que vendia as castanhas, numa barraca de madeira minúscula, agitava o assador e eu via o fumozinho subir e ouvia as brasas crepitar. A avó falava um pouco com a mulher e depois levava-nos a casa por essa subida que ia dar, pelo Largo do Teatro, à rua dos Canastreiros onde ficava a casa amarela.
Lembro ainda o cheiro das castanhas e sinto o calor no corpo e nas mãos bem cobertas com umas luvinhas de lã a segurar o embrulho de jornal cheio de castanhas.


sexta-feira, 8 de maio de 2009

Histórias da casa amarela


Alegrete





Quando eu nasci, os meus pais viviam, em Alegrete, uma vila perto de Portalegre, no sopé da Serra de S. Mamede, onde o meu pai era médico.
A minha mãe veio para a cidade quando eu estava para nascer e, assim, nasci na casa dos meus avós, a que mais tarde seria a casa amarela da minha infância.
Há muitas histórias dessa passagem pela vila de Alegrete, histórias que me foram contadas por várias pessoas. Pouco tempo lá devo ter vivido e não tenho recordações a não ser talvez o perfume das flores e a imagem de uma varanda com paredes muito brancas cobertas de trepadeiras com flores coloridas, talvez malvas, rosas, muita folhagem e muito sol. Mas estas imagens podem ter sido sugestão das fotografias que vi desse tempo.
A minha mãe chegou ali, acabada de casar, e trazia no seu enxoval camisas de dormir de seda, decotadas nas costas -que copiara dos vestidos dos filmes da época das stars de Hollywood- e contava-nos como tinha frio de noite, quando o Inverno chegava. Até que um dia se decidiu a pedir à avó que lhe mandasse camisas de flanela quentinhas. Muitas dessas camisas às florinhas serviram depois para fazer vestidos às meninas da sua rua quando iam à festa.
Havia pobreza naquela terra. O meu pai não podia levar dinheiro a quem o não tinha e ia recebendo uma galinha, uns ovos, umas alfaces, uns bolinhos “para as meninas e para a senhora”, mas isso não chegava para nos fazer viver sem a ajuda dos avós.
Médico da aldeia e dos arredores, devia calcorrear os campos, e a serra, subindo as ladeiras íngremes e escalavradas, às costas de um burro ou de um macho, acompanhado pelo familiar do doente que o viera chamar à vila, até às casinhotas brancas, às vezes simples casebres no meio dos penhascos. Contava-me que ia a ler e que foi em cima de um burro, abanando o corpo ao sabor do movimento do animal, que leu toda A Montanha Mágica.
O meu pai era uma pessoa doce e adivinho-o a dar uma palavrinha à doente, a pôr-lhe a mão na testa, a segurar o pulso débil para ver a febre e, com os olhos melancólicos e revoltados, perdidos na pobreza daquelas paredes, imagino-o a suspirar. Quando voltava era noite, as ruas estavam escuras, as portas fechadas e via, ao longe, através dos vidros, brilhar a luz do candeeiro ou da vela que a minha mãe sempre deixava. Dentro, havia calor, o cheiro dos candeeiros de petróleo e do fogão de lenha que ajudava a aquecer a casa, mais o lume da lareira na cozinha.
O meu pai teve de partir um dia, triste e desiludido, porque o dinheiro não chegava e não podia manter-nos se continuasse. Deixou a vila para sempre. Ficaram para trás muitos amigos e foi-lhe doloroso partir.
Contou-nos essa despedida, anos mais tarde, a tia Zezinha, irmã da avó, porque a família do marido, o tio Mouzinho, vivia em Alegrete.
Contou também como, durante os anos em que o meu pai foi médico, ninguém morreu na vila, tal a atenção e o cuidado com que o meu pai os tratou; dizia ela, a rir-se nas suas gargalhadas sonoras, que o próprio coveiro quase não tinha trabalho...
Quando o meu pai se foi embora, veio muita gente acompanhá-lo ao carro, fez-se um grande silêncio e só se ouviam os soluços. As mulheres choravam com os filhos ao colo, e os homens tiravam os chapéus quando ele passava e enxugavam os olhos vermelhos, estendendo-lhe a mão.
- Sim, sim, até os homens choravam!
Apesar de saber que a tia Zezinha gostava de exagerar o dramatismo das suas histórias, eu gostava muito de a ouvir e tinha vontade de chorar .
Foi assim que partimos de Alegrete e viemos morar em Portalegre, na casa amarela.





A casa amarela


Na minha infância, vivi numa casa amarela, numa rua inclinada. A casa era a mais alta, cheia de escadas, de cantos, de corredores, com divisões pequenas e estranhas.
Dormíamos no segundo andar, eu e as minha irmãs, e do nosso quarto via as árvores da serra, as nuvens e as andorinhas. Tudo parecia perto daquela janela.
Quando estávamos doentes, vínhamos para um dos quartos do primeiro andar, ao lado do dos meus pais -que era o quarto azul.
Ao pé desse quarto, havia a salinha verde e a sala grande onde jantávamos nos dias de festa ou quando os amigos vinham visitar-nos. As cores davam um encanto a essas divisões simples que nada mais tinham.
O quarto azul era o quarto onde tínhamos nascido, onde vi a minha irmã acabada de nascer igual a um bébé de porcelana. O meu tio tinha vindo acordar-nos nessa manhã, vestiu-nos e levou-nos a ver a menina.


E eu ria-me e dizia: “é uma boneca...”
Esse era o quarto dos pais, amplo, pintado de azul, com uma janela que dava para um grande quintal cheio de arvoredo que pertencia a um vizinho.
O outro quarto era um pequeno quarto interior que abria directamente para a sala verde, a sala do piano, que tinha uma janela sobre a tal rua inclinada. Havia uma porta para o corredor e, mesmo ao lado dessa porta, estavam duas estantes baixas, corridas ao longo da parede, cheias de livros que cheiravam a pó e a antigo e que para mim era o cheiro mais agradável deste mundo. Quando estava doente, bastava sair da cama, abrir a porta ao lado da mesinha de cabeceira, sair para o corredor e tinha todos os livros à minha espera. Até me recordo da maneira como segurava o livro e abria as páginas com uma faca afiada. Suspirava de prazer e sorria enquanto lia.
Um ano adoeci com nefrite e fui obrigada a estar muito tempo de cama, sem me poder levantar. O único divertimento permitido era ler, li dezenas de livros: Contos Húngaros, Contos Romenos, muitos livros do Stendhal, li A Montanha Mágica, Jean Christophe, O Fio da Navalha... Tantos outros que agora não recordo mas foram uma companhia inesquecível.
A sala verde tinha uma cor suave e duas poltronas pequenas forradas de um tecido esverdeado com flores pequeninas. Era ali que estava o piano da minha mãe, encostado à parede do lado esquerdo, com o seu metrónomo e uma cópia da Vitória de Samotrácia, cuja elegância me fascinava.

O dia passava-se na sala do segundo andar, ao lado da cozinha, que tinha um fogão de lenha com gavetas para a cinza e uma torneira de cobre brilhante. Havia uma mesa redonda pequena perto da chaminé onde a Florinda e a Rosalina comiam e, depois da cozinha arrumada, tarefa para a qual contribuíamos todas, as minhas irmãs e eu, limpando os talheres e pondo-os nas gavetas, íamos jogar às cartas. A Florinda adorava jogar à bisca e ao Burro, e costumava fazer batota.
Ler, estudar, comer e conversar era na mesa grande da sala, com cadeiras à volta, e uma braseira de Inverno. No ângulo junto da janela, o móvel do rádio, moderno, de contornos elegantes e arredondados; do outro lado, a cómoda antiga de gavetas cheias de roupas, de lenços de seda, chapéus e colares de contas brilhantes.

Era nessa mesa que o meu pai tomava o seu café, lia o jornal depois do almoço e eu ficava a ouvi-lo falar.
Ao canto, outra janela e as escadas íngremes que subiam para o sótão e iam até à varanda.
Foi delas que caiu a minha irmã e veio a rebolar lá de cima, com um pedaço de cordel agarrado na mão, o cordel que ela puxava e se partira. Quando chegou cá abaixo, cheia de sangue, só dizia: “Mamã, não chore, não foi nada...”

A minha mãe tremia, ajoelhada no chão a seu lado, sem forças para a levantar. Lembro-me de as ver, da janela, a minha irmã com a cabeça embrulhada numa toalha branca onde eu via pingos de sangue, agasalhadas nos casacos de Inverno, sob a chuvinha fina, a entrarem para o carro de aluguer que as levaria ao hospital onde o meu pai as esperava.

Quando voltou, trazia uma ligadura, chorava porque lhe tinham cortado o cabelo e tinha vergonha que a vissem. Queria que lhe fossem buscar um gorro de lã angorá vermelho com orelhas de gato que era duma nossa amiga
Depois, foi a minha outra irmã, a pequenina, que caiu das escadas que desciam para o primeiro andar, quando corria atrás de mim, mas dessa vez não aconteceu nada, senão o susto. Eu tinha fugido dela, tinha ido esconder-me no andar de baixo, na sala do piano, para ir ler deitada na carpete, no chão, como era costume, e lembro-me que fiquei cheia de remorsos por o ter feito.
Era o tempo em que éramos pequenas e a nossa vida corria tranquila como um ribeirinho e tudo parecia belo e bom e os temporais não tinham chegado dentro de casa.

Lá fora, o vento podia zunir, dobrar as árvores, abanar as telhas dos telhados e a chuva podia cair...


Renoir, meninas ao piano

O piano e a chuva




E a chuva caía, devagarinho. Outras vezes arrastava tudo num vendaval, fazendo voltear as folhas caídas e as areias, em enxurrada.
A minha rua tinha um grande encanto quando chovia.
Detrás das janelas, via as cordas de chuva escorrer em ziguezagues pelas vidraças, formando bolinhas transparentes, e aquele barulho suave acompanhava-me. Abria um pouco da janela e debruçava-me, para espreitar as torrentes de água ainda límpida que desciam a correr em direcção ao fundo, onde confluíam, num refluxo colorido, enlameado, com as águas que vinham da Corredoura.
Nesses dias, às vezes, a minha mãe deixava-me ficar em casa e não ia à escola. Era um prazer ouvir a chuva bater nos vidros, ora forte, ora devagarinho e estar ao quentinho, a ler ou a pintar.

Quando chegava a Primavera e a chuva passava, a minha mãe gostava de tocar piano. A música encantava-me. Escondida detrás do cortinado, de olhos fechados com força, mãos apertadas a segurar os joelhos, os ombros tensos, ficava a ouvir a minha mãe. Ela tocava muito Chopin e Lizt. De perfil, inclinada, com os seus cabelos muito negros, ondulados, a minha mãe era bela. Com um vestido ligeiro, que me parecia ter muitas cores suaves, ela erguia um pouco os ombros, os dedos pequeninos esticados sobre as teclas pretas e brancas, acompanhando a melodia com a voz. Às vezes, repetindo uma passagem mais difícil, inclinava-se para a frente. O papel da música tremia, leve, na corrente de ar primaveril, e a minha mãe ia virando as folhas. Eu, sentada no degrau de madeira, encostado à janela, sentia o fresco nos cabelos e sentia-me feliz. Ninguém sabia que eu estava ali.
(Ouvir Beethoven e a bela sonata Clair de lune):
Beethoven, Sonata Clair de Lune
http://www.youtube.com/watch?v=zKl72bR0D4I

terça-feira, 5 de maio de 2009

Salinger: The Catcher in the rye

(imagem de New York, num dia de neve, 2009, foto de Diogo L.C.)

"If a body catch a body coming through the rye..."
("Se um corpo encontra um corpo que vem por um campo de centeio...")
Robert Burns (poeta escocês)

Acabei de escrever sobre Salinger ontem...Mas, sabe-se lá porquê, quando o "publiquei" no blog foi parar a uns dias atrás, quando o tinha começado, dia 18 de Abril... Têm de ir procurar esse dia, se quiserem, claro...
O jovem Holden Caufield, o herói de The Catcher in the rye, (a primeira tradução portuguesa sai com o título de Agulha em Palheiro e a segunda À espera no centeio), durante a sua "fuga" de três dias, lembra à irmãzinha, Phoebe, a letra de uma canção: "se um coração encontra um coração que vem através de um campo de centeio..."
São no fundo os versos de Robert Burns que acima citei, alterados por Caufield.
E sonha o que queria ser na vida:
- "Sabes o que eu queria ser, ser mesmo, se me deixassem escolher? Queria estar nesse campo de centeio a agarrar essas criancinhas todas, ali sem ninguém a tomar conta delas, quer dizer nenhum adulto -só eu. Estaria à beira daquela porcaria da falésia e apanhava-os quando correm sem olhar para onde vão... Seria um apanha-corações..."
Outra sua preocupação era:
- "Para onde vão no Inverno os patos quando gela o lago de Central Park?!..."
É uma história maravilhosa. Vão lá ver...

sábado, 2 de maio de 2009

A minha amiga Dáy




DÁY




Vinha trazer-me o pequeno almoço de manhã cedo. Abria a porta, espreitava e perguntava, baixinho:

- Posso entrar?

O tabuleiro tinha um pano bordado, que ela escolhia todos os dias de cores diferentes, e tudo nele estava disposto simetricamente.
O corpo pequenino segurava o tabuleiro de encontro ao peito magro e ela esticava os braços até o pousar devagarinho nos meus joelhos.
Abria as vidraças, afastava a rede-mosquiteiro e abria as portadas das janelas, de ripas fininhas, voltando a fechar outra vez os vidros. A luz forte entrava e com ela o colorido e os perfumes do jardim.
Sentava-se na beira da cama, ajeitava-me o lençol e ficava à espera que eu conversasse com ela. Eu, que acordava sempre estremunhada, sem vontade de falar, ia bebendo o café aos golinhos, começando devagar o meu dia. Ela tinha um nome complicado, cheio de tt e de zz, mas eu chamava-lhe Dáy, seu nome de casa, como se usava na ilha.


- Bom dia, Dáy, correu bem a manhã?

Agitava-se toda e respondia:
- Mais ou menos, dôtôrra...
Era a resposta que eu me habituara a ouvir em S. Tomé quando perguntava pela vida, pela saúde, pelo dia. Mais ou menos... ou então leve leve que soava, docemente, levi levi. E tão pouco parecia dizer tudo.

Abanava a cabeça, alisava o vestido, com as mãos espalmadas. Pela expressão do rosto, percebia como fora, se tinha havido problemas em casa, se a mãe lhe tinha batido por ter brigado com os irmãos, ou por não ter ido buscar água à fonte.
A mãe era a minha cozinheira e todos os dias se zangava com ela:
- A dona dá muita confiança, ela é minina disubidente!

Sentada na cama, a Dáy ia dizendo, arrastando as palavras:
- Sabe, dôtôrra ...

A sua voz rouca e o modo de carregar no r eram inconfundíveis...,
- Eu não gosto de ninguém no mundo!
E acentuava no mundo com mais força, inclinando-se para a frente.
- De ninguém mesmo?..., brincava eu.
Ia respondendo, distraída, enquanto contemplava pela janela aberta o meu jardim africano: a sebe de ibiscos vermelhos, o tronco rugoso da mangueira, mesmo em frente da janela, com os tufos de folhas escuras e os ramos pesados de mangas, os caules frágeis dos papiros, o colorido vítreo das rosas de porcelana.

E continuava, sem a olhar:
- E porquê, Dáy? Por que é que não gostas de ninguém?

E, rindo:
- Nem de mim?...
- Nem da dôtôrra! De ninguém mesmo!, respondia, convencida.
Fechava os olhos, de lábios apertados, voltava a abanar a cabeça. Eu tirava um livro da mesinha de cabeceira, pousava-o na cama, folheava-o, desejando apenas encostar-me nas almofadas, sem ter que a ouvir. Mas ia dizendo:

- Porquê? Diz lá, Dáy...
- Porquê? Porque ninguém gosta de mim no mundo!

Olhava-me de lado, espreitando a minha distracção:
- Oh! Oh! A dôtôrra nem está a ouvir! Eu não disse? Ninguém gosta de mim!... Nem dôtôrra!
Amuada, levantava-se. De queixo erguido, as pálpebras semicerradas, fechava a porta com força.
Durante o resto da manhã passava sem me falar, fingindo não me ver.
A mãe resmungava:
- É minina mal nascida!...
Dáy virava a cara, fechava o rostozinho, onde os olhos amendoados brilhavam orgulhosos, e fugia pela porta da cozinha. Pouco depois, ouvia as gargalhadas roucas, a brincar com os irmãos.
Quando chegava a hora da escola, vinha a correr, com os cadernos na mão, esquecida do amuo:

- Dôtôrra, esqueci os trabalhos de casa, a professora vai zangar-se bastante!
Mostrava-me as folhas sem nenhum exercício feito.
- Ai, Dáy, Dáy!...
- Esqueci, dôtôrra...

Sentávamo-nos no varandim da cozinha. No fim, corria a lavar-se e a pentear as trancinhas que enfeitava com duas ou três contas de cor. Antes de sair, vinha ver se tinha alguma coisa para ela: um doce, um chocolate?... Vinha mordendo um safu e estendia a mão cheia:

- Quer?

O gosto acidulado do fruto ficava-me na boca enquanto ela se virava para trás:
- Tchau, dôtôrra!

Era assim a minha amiga Dáy...

Certas manhãs falávamos muito: das colegas da escola, das mangas e das carambolas que havia no jardim, do pequeno sagui que aparecera a roubar as uvas amargas da latada e cuspia as grainhas para cima de nós.
E ríamos.
Outras vezes, eu ralhava-lhe porque tinha sido malcriada com a mãe, porque não queria tomar banho, ou porque não fazia os deveres. Ela encolhia os ombros estreitos, esticava o lábio inferior, abanava a cabeça como se isso não a preocupasse. Mas se eu lhe dizia, com doçura, pousando a minha mão na dela:

- Eu gosto de ti, Dáy, tens de ser boa, tens de estudar, deves ser uma menina lavadinha e bonita...

Ela respondia logo:
- E por que é que eu hei-de fazer isso tudo?! Quem é que quer saber de mim?...
Punha a cabeça de lado, olhando-me pelo canto do olho, à espera:
- Eu! Eu, Dáy, eu quero saber de ti! E quero que sejas boa, que aprendas, porque eu gosto muito de ti!
Suspirava, as pálpebras tremiam e grossas lágrimas pingavam, uma a uma, na colcha e a sua mão pequenina, de unhas pintadas de vermelho, apertava a minha com força.
- Sou a tua maior amiga, ou não sou?

Um dia, a minha cozinheira foi-se embora. A casa de madeira sobre estacas onde viviam, na subida da Chácara, aluíra com as chuvadas e foram viver para casa da irmã, longe, a muitos quilómetros da cidade. Foi-se embora e levou os filhos.
Levou a alegria da minha casa. Durante muito tempo não soube notícias deles, não vi a Dáy... Acabara-se a algaraviada de todas as manhãs, ao acordar... Não havia já quem fizesse correrias pelo jardim, quem subisse à goiabeira e trincasse os frutos ainda verdes e me trouxesse as carambolas douradas...

Uma manhã, ela voltou:
- Vim visitar dôtôrra...
Suada, com a roupa amarrotada e suja, as tranças despenteadas. Só os olhos brilhavam, como sempre, maliciosos. Abraçou-me e eu ajeitei-lhe os cabelos, limpei-lhe a cara. Sentámo-nos, como tantas vezes, no parapeito da varanda, a conversar.
- Dáy, Dáy... Onde é que vives? Vais à escola? E a tua mãe? O Nini? O Maiquel?- precipitava-me eu.
Olhou para o jardim, espreitou para dentro da cozinha, onde se ouvia o barulho de panelas e nem me respondeu.
- Tem outra cozinheira, dôtôrra? Ela tem filhos?...
E, sem esperar:

- Gosta deles?...
E acrescentou logo, sem se preocupar com a resposta, ou como se tivesse medo de a ouvir:

- Nós?...Oh! A mamã arranjou um namorado... Nós fomos viver em casa da tia, na Cova Barro. É uma casa que tem lá muita gente.
Esticava o vestido e abanava as pernas batendo com os pés na parede do varandim.
- Nós estamos a viver na Cova Barro, em casa da minha tia
- E tu, Dáy, tu estás contente?
- Eu?...

Virou a cara para mim e fechou os olhos.
- Eu tenho saudades da dôtôrra...

E as lágrimas caíram das palpebrazinhas cerradas.
Voltou muitas vezes, a visitar-me. Depois... Depois, um dia, fui eu que parti...

Passaram muitos anos e eu sei que não vou voltar à minha ilha perdida.
- Ai, Dáy, Dáy! penso eu hoje.

O que será feito da minha amiga Dáy?
( a minha amiga Dáy cresceu, teve duas filhas e vive hoje em Luanda. Telefona-me muitas vezes, quer que eu vá lá visitá-la, ou que "a chame para o pé de mim..."
Oh! Dáy, Dáy!)

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A minha ilha













A minha Ilha



Sentada no jardim, imaginava os pássaros de todas as cores que esvoaçavam pela ilha, volteando, fazendo barulho e, de repente, se calavam, misteriosamente, quando a chuva caía.

Os pássaros amarelo-e-verdes, que eu via construir os ninhos, entrelaçando fitas de andala, como pequenos cestos que depois baloiçavam nos ramos arqueados da buganvília, ou nos braços doces da goiabeira. Que num instante desfaziam o trabalho meticuloso de tantas horas para irem buscar outro poiso, deixando o ramo de onde pendiam despido e sem vida. Os que saltitam, de arbusto em arbusto, fazendo estalar a comprida cauda negra, fina e móvel: os truqui sum deçu, os passarinhos de Deus que, segundo a lenda são-tomense, vão de manhã acordar o Senhor nos céus.
Lá longe, na floresta, está o ôssobô e o seu canto mavioso que anuncia as chuvas. Perto, na praia Gamboa, na pobreza e no cinzento de tantas vidas fechadas, a poesia das garças brancas, o leve bater de asa suspenso sobre o verde-vivo do capim. E os pássaros azuis. E os vermelho-e-negros. Os infinitos pássaros sem nome que alegram a ilha.

Ao cair do dia, no meu jardim, emocionavam-me os crepúsculos rubros, o desenho fino dos coqueiros, sombras estilizadas a escurecer até ao horizonte, onde se confundiam, em linhas sobrepostas, de contornos arredondados, com a bruma da floresta montanhosa, o misterioso ôbô.
O jardim molhado cheira a terra, a ervas, a flores.
Punha-me a imaginar baía, a balaustrada branca que acompanha o Água Grande e segue, depois, à beira do mar azul-turquesa, pela estrada Marginal, onde as raízes curvas e grossas dos caroceiros rebentam as pedras dos passeios. Os caroceiros têm folhas verdes, de cetim brilhante, na estação das chuvas, e douradas e vermelhas, estriadas de roxo, no fim da Gravana.

Ao pé dos barcos ferrugentos, encalhados há muito, erguem-se as acácias vermelhas com seus ramos horizontais, abertos. E, sempre, a baía na beleza calma, eterna, parada, qual branco vidro coalhado onde pairam barcos.

E pensava que nunca esqueceria a minha ilha.
Via-me a acordar, na noite de qualquer cidade longínqua, a fixar o horizonte, de olhar perdido, à procura dos céus enevoados da minha África. Os céus de fogo, com as árvores da papaia esboçadas a tinta negra. Os coqueiros a inclinarem-se suavemente, as altivas palmeiras imperiais, agitando os ramos, loucas despenteadas.

Com a saudade, viriam as imagens o cheiro da terra molhada, cheiro a queimado e a especiarias, acre e doce, indistinto mas inconfundível, que me envolveu no primeiro dia, a meio do calor sufocante da noite, da confusão de malas, de gritos e empurrões, de risos e de cores.

Voltariam as gentes da minha casa, os gritos da Milly, as gargalhadas roucas da Dáy, o murmúrio arrastado da voz da Nina, os amuos do Sr. Semedo, as malandrices do Wildger e do Maiquel...

E surgiria, como da primeira vez, a imagem da Baía Ana de Chaves na noite, com as águas escuras, impenetráveis, cheias de reflexos coloridos dos barcos e das luzes amarelas dos velhos edifícios da Alfândega.
Ao fundo, a linha do horizonte que era um risco negro no azul-escuro do mar.






Ilhas na Bruma: o Sr. Semedo




Mais histórias de S. Tomé que me vêm à memória, sempre, num redemoinhar de pessoas, de cheiros e de cores. A minha casa com os coqueiros, a goiabeira, as mangueiras, as rosas de porcelana rosadas e brilhantes como cera, e os bicos de papagaio bem vermelhos, os papiros.
Os passeios pela ilha, para sul, até à Praia Melão (que se pronunciava Milão), com os barcos de ocá cobertos pelas redes de pesca, ir pelo Pantufo, até Santana, Praia Pomba. As idas a São João dos Angolares ver os amigos: o Sr. Fernadinho, o calulu que se fazia, o Nézò que era ainda nessa altura um miúdo e já era um bom pintor.
Ou, ainda mais longe, até à Praia das Sete Ondas com o seu coqueiral lindo, a curva doce da baía e as correntes que levavam tudo para longe.

E as pessoas do meu quintal, que eram também a minha família: a Dáy, o Wildger -que em casa se chamava Nini-, a Milly, a Nina, a Tina.
E, claro, o inesquecível Sr. Semedo, com o seu cigarrinho, a tratar do jardim, a lavar o meu jeep Umm e a mastigar um fósforo, a conversar comigo, ao fim da tarde, de tudo: do dia que findava, do mar, das ondas, das "encantadas", das marés, do jardim, das crianças que tudo pisavam...
Sim, tenho tantas saudades do Sr. Semedo que contava, contava...
Era uma vez...




O Sr. Semedo...


"Encostava-se ao ancinho de metal e começava a contar. Eu deixava-me ficar deitada na rede e balançava-me devagar, com um livro aberto no colo, que não lia.
Sorria, porque sabia o que eram as histórias sem fim do Sr. Semedo.
Depressa o crepúsculo chegaria e sobre os edifícios das oficinas velhas ia-se já esboçando o vermelho-vivo do sol poente. Os altos troncos afilados dos coqueiros imperiais desenhavam a sombra no negro da noite africana. Como todos os dias a esta hora, os mosquitos desciam do alto das mangueiras.
Fechei o livro para ouvir com mais atenção.
- A dôtôra sabe? Eu vim da Ilha do Príncipe com a minha mãe quando era pequenininho. Assim mesmo...
E com a mão mostrava a altura, quatro, cinco palmos. E continuava a falar, agarrando com força o cabo da ferramenta.
- Ainda não contei, pois não?
- Não, Sr. Semedo...
-Pois foi, vim de lá...
Mudou o ancinho para a outra mão.
- E a vida era dura sempre. Lá e cá... A minha mãe veio trabalhar numa roça na cidade capital e eu comecei a ajudar no que havia...
Interrompi-o:
- A sua infância como foi, Sr. Semedo?...
- A minha infância, dôtôra...
Hesitou e depois disse:
- Sabe, a infância, dôtôra, é quando a gente olha para trás na vida e acha que tudo foi bom... Não é assim, dôtôra?
- É, Sr. Semedo...
Mudou de assunto:
- Pois é, dôtôra, trabalhei no campo, fiz tudo, mas a minha vida principal foi de pescador! Sei tudo do mar...
E, como se achasse que isso era pouco:
-...E da terra! A dôtôra já viu a lua como está agora? Quando tem o bico a apontar para o mar é para a pesca. A lua é que traz o peixe... E quando aponta para aqui, para o lado da terra, é para semear. Eu disso sei...
Sorriu, tímido, e com a mão apoiada no peito magro, encolheu os ombros e continuou:
- Já contei à dôtôra a história do meu naufrágio? Não contei, acho que não...
Olhava com medo que eu dissesse que já conhecia a história. Tinha contado, tinha, mas eu sabia o prazer com que o faria de novo.
- Não, Sr. Semedo, não contou...
- Ah! Bem me parecia! Pois foi assim...
Olhou para o fundo do jardim, como a inspirar-se.
- Estávamos lá para os lados das costas do Gabão. Dias e dias perdidos no mar... Secos, na força do sol, e na noite fria, molhados, cheios de medo... Água quase não havia, nem arroz e a farinha era pouca...
Abanava a cabeça, tirava o cigarro da orelha e voltava a pô-lo no mesmo sítio.
- E o tabaco?! Ah! O tabaco era tão pouco que a gente dividia até um bocadinho dele. Para o fim, cada um dava uma fumada, passava aos outros e descansava até chegar outra vez o cigarrinho..
Abismava-se nos pensamentos, como se voltasse a ver a noite, o mar, o medo, e continuava:
- De repente, dôtôra, no meio daquela noite escura, apareceu a luz dum barco! Um barco muito alto, enorme, era americano acho, devia ser... Era, era!
Com a cabeça acenava, a confirmar a sua certeza.
- Nós todos a gritar e a agitar as mãos... Que tempos!
Calou-se, de olhos assustados.
- E depois, Sr. Semedo?, não resistia eu a perguntar, apesar de conhecer o fim.
- Depois? Tem razão, dôtôra, depois?...Sabe o que eles fizeram?
E sem esperar resposta:
- Gritávamos todos. Nós e eles! Era uma confusão. Então...
Eu olhava-o, ansiosa:
- Então?...
- Então, foi assim... Deitaram uma rede, que parecia assim como as nossas de apanhar peixes, cheia de comida de lata. Com tudo! E a gente agarrou-a logo!
Voltou a parar, a “ver”, com temor. Respirou fundo e continuou:
- A primeira coisa que chegou, sabe o que foi?...
-Não...
- Os cigarrinhos!
Agora ria-se, com vontade, vencera o medo.
- E as encantadas, dotôra? Não sabe o que são, pois não?
- As encantadas, Sr. Semedo? O que são as encantadas?, perguntei.
- Nunca viu..., disse, quase com pena de mim.
Não respondi, não era preciso.
- Pois é, mas eu sou pescador, eu vi!
- São as sereias?...
- É isso, parece que lhes chamam esse nome. São mulheres, são como as outras. Só que andam no mar, por isso também são peixe...
- Têm cauda de peixe?...
- Pois é, é mulher e é peixe... E chamam a gente. Querem é que um homem vá ter com elas.

- Como é que chamam, Sr. Semedo?

Olhou-me de lado a ver se eu estava interessada.

- Chamam por nós, a cantar...Uii!Uii!Uii!...
E apertava os lábios deixando sair um assobio longo, quase um uivo fino.
- Assim mesmo!..., afirmava com um ar teimoso, olhando-me de lado.
O Sr. Semedo era muito teimoso.
- Um dia um meu compadre caíu ao mar e nunca mais voltou. O mar devolve sempre o corpo à terra... Só se peixe o comeu é que não volta...
- Foram as encantadas, Sr. Semedo?
- Eu não digo que foi...Pode ser. Pode ser...
Olhava desconfiado, sem saber se eu o levava a sério.
- Pode ser... Se calhar, ouviu-as... Estão sempre a chamar por nós...
E abanava a cabeça.
- Volto já dôtôra. Criança brinca com tudo...
Ia dar uma volta pelo jardim, varrer as folhas secas, ralhar aos filhos da cozinheira que iam comer a fruta que ele tinha toda “contada” para mim. E fumar o seu cigarrinho. A noite caíra de repente, sem dar por isso. Não valia a pena abrir o livro. Esperei por ele. Voltou, passado um momento, entalando outro cigarro na orelha. Vinha a queixar-se, resmungando baixo:
- Criança não tem respeito!
Mas continuou, logo, noutro tom, a olhar para mim:
- Já tinha contado, dôtôra?
O Sr. Semedo e as suas histórias inesquecíveis, infindáveis, sempre interrompidas e retomadas no ponto exacto em que as deixara. Tinha dias bons e dias maus, estes directamente ligados à quantidade de cacharamba que bebia. Tinham-me contado que era bebida forte, perigosa, feita de cana de açúcar, cuja fermentação era muitas vezes “acelerada” com ajuda de pilhas. Ele próprio me dizia:
- Talvez sejam pilhas...Queima. Mas aquece a gente, dôtôra...
Lembro uma dessas tarde que, como tantas, corriam lentas, na luz indecisa entre o azul e o branco anunciando o crepúsculo que não vinha longe. E, de chofre, sem transição, surgiria a penumbra e a noite. Viera mais cedo para casa. Na cozinha, a rádio transmitia uma “música da terra”, arrastada, dolente, interminável, que falava de uma mulata:
-“Oh! Essa mulata vai-me matar...”
E eu cantarolava-a, quando a Adelina entrou, assustada:
- Dôtôra, venha depressa ao quintal! O “sinhor” não está bom!
- O senhor?, estranhei.
- Sinhor Semedo. Está confuso da cabeça...
Nesse dia ele chegara mais cedo e fora fechar-se na sua toca, espécie de arrecadação que fora um velho galinheiro, abandonado há muito. Pintada, arranjada, era uma minúscula divisão onde tinha a sua cadeira de braços que ele cobria com jornais por causa da humidade da noite.
- É o meu reumatismo, dôtôra!, costumava dizer.
Tinha chegado com um ar perdido. À entrada do portão dissera, aliviado, “já cá estou!” e seguira, cambaleando, até ao seu cantinho, e, quase envergonhado, adormecera.
Agora, acordado, confundira a luz do fim da tarde com o amanhecer, hora a que largava o trabalho e ia para casa.
- A gente estava-se a arranjar para ir e o senhor Semedo acordou. Acho que ele julga que é de manhãzinha, quer ir embora... Pensa que eu e a Tina chegámos agora...
A Adelina ia explicando, baixinho, a arrumar os sacos de plástico, ajudada pela irmã, na varanda da cozinha. Fui ter com ele:
- Sr. Semedo, já viu a luz esquisita que está?
- É mesmo, dôtôra...”
Ele olhava desconfiado, sem perceber por que é que eu estava ali e por que olhávamos para ele.
- Nem se sabe se é dia, se é noite, não é?... Até parece que está a nascer o dia! E são quase cinco horas da tarde! Já viu?! Daqui a nada é noite escura...
Ficámos todas à espera, caladas. Não respondeu, olhou atentamente para o céu, para o relógio, para o jardim, para nós. Tirou devagar o saco que já pusera ao ombro.
- Pois é...
Virou-se e entrou no galinheiro. Voltou logo, agasalhado para a noite, na sua roupa de guarda, a velha farda militar comprada no Mercado do Ponto.
- Faz frio, dôtôra..., disse a disfarçar.
- É a humidade da noite, Sr. Semedo...
Eu e o Sr. Semedo tínhamos muitas histórias para contar...
Como aquela vez em que eu saí à procura de um remédio para o paludismo. Caíra a noite, faltava a electricidade naquela zona e a cidade estava às escuras, como acontecia frequentemente. Levei o meu cão, segurando-o com a trela bem curta com medo que os cães vadios o atacassem. Ele saltitava, olhando para todos os lados, curioso como sempre que ia à rua. O Sr. Semedo, empoleirado no alto do portão, alumiou-me o caminho com a lanterna, e o facho de luz chegava até ao virar da esquina. Depois, acendi uma pilha pequenina para ver onde punha os pés. No regresso, vi-o a espreitar, detrás das ripas de madeira do gradeamento branco. Abriu o portão a correr.
- Não saí daqui, dôtôra! Tinha o coração na boca! Sozinha na noite de S. Tomé! Só que o “compadre” também foi... E é valente que eu sei!
E fazia festas ao cão, agradecendo.
- É é guarda, como eu... De noite fica sentado comigo, a ler e a conversar.
- A conversar, senhor Semedo?...
- Sim, parece que fala...Bem, ele quer falar, só que não pode... Mas é guarda! Tomou conta da dona! O que fazia eu, se acontecesse mal à dôtôra!?”
E dizia-me, abanando a cabeça:
- Não posso esquecer!... É minha mãe... É filha também...O que era de mim sem a minha dôtôra?
- Eu sei, Sr. Semedo, mas já cá estou! Agora pode dormir descansado...
Pus-lhe a mão no braço. Desviou a cara, comovido, encolheu os ombros.
E, na tarde seguinte, tudo recomeçava:
- Dotôra, eu já contei? Acho que não...
- Não, Sr. Semedo, ainda não contou...
Baixava os olhos, respirava fundo:
- Pois é! Bem me parecia...
E recomeçava:
- Uma vez... "

(Ilhas na Bruma, UNEAS, S.Tomé, 2006)



o acordeão

O grupo de acordeão manouche "les não sei quê. Recordar l'acordeoniste da Piaf, L'accordeon do Gainsbourg Juliette Greco etc











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