sexta-feira, 15 de julho de 2011

Perto da Lagoa Azul, com a Dáy e o Zac

Escureceu de repente e as primeiras gotas começaram a cair.


Nessa manhã tínhamos decidido ir para o Norte da ilha de S. Tomé, em direcção a Neves, mas sem chegar lá mesmo.
Neves (que se chamava Nossa Senhora das Neves) fica sobre o mar. Lembro que me pareceu uma cidade sem grande interesse, nem gente nem vida, apenas um pequeno miradouro num largo com esplanada.








No entanto, a ideia que guardo é a de uma costa acidentada e bela, com ravinas a pique e um mar esverdeado e translúcido e um rio que desaguava ali perto.


Perto, havia boas praias.


O mar formava naquela zona uma lagoa e naquela manhã estava lindo como sempre, com as suas águas tranquilas.


Passámos adiante e escolhemos a praia que ficava do outro lado do ribeirinho que corre até ao mar. Um ribeirinho transparente e cheio de seixos redondinhos e escorregadios.



Levávamos um lanche, a Dáy e o Zac foram connosco. O Zac estava sempre pronto para sair!



Quando as chuvas chegaram, inesperadas e violentas, receei que fosse uma daquelas tempestades súbitas, típicas dos trópicos, que me assustavam.



O céu fechou, cinzento, o mar perdeu a cor turquesa de momentos antes, e ficou escuro, cor de chumbo.
Recolhemos a roupa e os sacos, vestimo-nos a correr e fomos buscar o jeep.


Atravessámos de novo o tal ribeirinho, agora um rio. Enchera, sem darmos por isso, naqueles poucos minutos, e era agora um perigo.



A praia não tinha outra saída. Atrás ficavam os coqueiros em mata cerrada. O vento e a chuva dobravam-nos, o ruído assustava-nos.



Só a Dáy não tinha medo e continuava a rir, habituada a calcorrear praias e areias, ribeiros em plena cheia, ou secos e pedregosos.


Vejo-a, como se fosse hoje, decidida como sempre, alegre, a puxar pela mão do Manuel e a levá-lo, conduzindo-o pelo trilho dentro da água, procurando o caminho de pedrinhas que ela adivinhava com os pés, mais do que podia ver.

Os pézinhos dela, descalços, iam à frente, cuidadosos, os olhos dela fixos na água, e procurava apoio, tentando equilibrar-se.



Dizia-me, preocupada, na sua voz rouca que carregava um pouco os rr, espreitando para trás, para mim:
- Dôtôrra, põe o pé onde eu pus. Eu levo dôtôrr...



De facto, lá iam os dois de mão dada, avançando.



O Zac olhava-nos espantado, vendo naquela agitação minha algo de movimento estranho, causado pela precipitação da fuga...


Instintivamente, sentia o meu receio mas, ao mesmo tempo, esperava que eu decidisse, no fundo confiante porque acreditava que a sua dona podia resolver tudo.
Ele nunca conseguiria atravessar o ribeirinho com as suas patinhas, pequeno como era.



Meti-o dentro do saco onde tinha trazido as sanduíches e os sumos mais as toalhas. Pu-lo bem aconchegadinho no fundo do saco e pus as asas do saco bem seguras ao ombro.


Os pés tacteavam as pedras e os olhos seguiam o caminho dos pés da Dáy.

Ela, nos seus dez anos, orgulhosa da missão, segurava com força a mão do seu amigo mais velho.

Quando nos vimos do outro lado, virámo-nos para trás a ver a corrente do rio que se ouvia correr, mais bravia.


A chuva era torrencial agora.



Mas o jeep era um ponto seguro, esperava-nos para nos levar a casa.



Quando entrámos, nervosos pelo grande susto, desatámos a rir.



O Zac continuava espantado, mas como sempre entrou na brincadeira e pôs-se a ladrar, a ladrar, misturando o seu ladrar aos nossos risos...








***


NOTA: Neves é uma cidade em São Tomé e Príncipe, sendo capital do distrito de Lembá. Tem uma população estimada em 7392 habitantes. A cidade tem vindo a sofrer uma forte industrialização e é atravessada pelo Rio Provaz.

5 comentários:

  1. Lindo.
    Gostei de ver a Dáy, que já conhecia dos seus contos ,onde a ternura está sempre presente.

    Um beijinho
    Isabel

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  2. MJ,
    Sim, estas memórias são belas e trazem-me uma terra que gostava de conhecer. A praia faz lembrar vagamente uma das praias que conheci em Goa.
    A Dáy tem um sorriso lindo e como protectora deve ter-se sentido muito feliz. O Zac deve ter mesmo apanhado um susto com a agitação.

    As fotografias estão lindas.
    Obrigada! :)

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  3. Muito bom vir aqui, sempre, conhecer um pouquinho da chamada Felicidade e que bom que ela xiste. Muitos bjs - 5

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  4. MJoão,
    Que saudades destes textos de ser-gente-pessoa!! Obrigada, querida amiga!
    Beijinhos
    Luísa

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  5. Mais uma bela história... :)
    Gosto muito de ler as suas memórias!

    beijinho

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