sexta-feira, 17 de julho de 2009

Uma vista de olhos pela pintura russa: Zinaida Serebriakova (1884-1967)


Hoje vou falar-vos de um mundo maravilhoso, que eu desconhecia: o da pintura impressionista e post-impressionista, na Rússia.
Para começar, apresento-vos Zinaida Yevgenyevna Serebriakova nascida em 10 de Dezembro de 1884 e que morreu em 19 de Setembro de 1967 e foi a primeira mulher pintora, russa que se distinguiu.
Nasceu perto de Kharkov (hoje, Kharkiv, na Ucrânia) numa família ligada às artes, a família de artistas Benois.
O avô, Nicholas Benois, fora um grande arquitecto, director da Sociedade dos Arquitectos e membro da Academia Russa das Ciências. O tio, Alexandre Benois, foi um pintor famoso, fundador do grupo de arte Mir Iskusstva (1). O pai, Yevegeny Nicolayevitch Lanceray, foi um escultor famoso, e a mãe, que era irmã de Alexandre Benois, era uma boa desenhadora. O irmão, Nicolay Yevgenyevitch Lanceray foi um arquitacto talentoso e o outro irmão, Yevgeny Yevgenyevitch Lanceray teve um lugar importante na arte da Rússia soviética, como autor de pintura monumental, e arte gráfica.
Peter Ustinov, o grande actor, também escritor, estava ligado à família dela.

Desde a juventude, Zinaida Serebriakova lutou para mostrar o seu amor pelo mundo e revelar a sua beleza. Os seus primeiros trabalhos, (por exemplo, Country Girl 1906, Russian Museum) falam, eloquentemente da sua procura, e da sua aguda percepção, da beleza da terra e das gentes russas. Estes estudos, inspirados pela natureza, já na juventude mostram o seu extraordinário talento, confiança em si, e força.


Em 1900 acaba o curso e entra para a Escola de Arte fundada pela Princesa M. K. Tenisheva. Estuda com o grande pintor Repin in 1901, depois entre 1903 e 1905, com o retratista Braz.
De 1902–1903 estuda em Itália, e de 1905–1906 estuda em Paris. Em 1905, Zinaida Lanceray casa com o primo, Boris Serebriakov, e adopta o seu apelido.
O reconhecimento público chega exactamente com o "Auto-retrato em frente do toucador” (1909, Tretyakov Gallery), apresentado pela 1ª vez numa grande exposição organizada pela União dos Artistas Russos, em 1910.
A esse segue-se Girl Bathing (1911, Russian Museum), e um retrato de Ye.K. Lanceray (1911, colecção particular)), trabalhos já precocemente maduros e sóbrios na composição.
Juntou-se ao movimento Mir Iskusstva, em 1911, mas afasta-se dos outros membros devido à sua preferência pelos temas populares e pela harmonia e plasticidade das suas pinturas.
De 1914–1917, Zinaida Serebriakova está no apogeu. Pinta quadros baseados em temas da vida rural russa, o trabalho dos camponeses, as paisagens da Rússia: Camponeses (1914–1915, Russian Museum), ou "A Seara" que, abaixo, reproduzo.
A mais importante dessas obras de tema rural russo é, talvez, Bleaching Cloth -"A corar a roupa" (1917, Tretyakov Gallery), que revelou o seu talento como artista “monumental”. As figuras das camponesas a pôr a roupa ao sol, contra o céu baixo, têm uma enorme força.
Quando, em 1916, Alexander Benois decorou a estação de comboio Kazan Railway Station (see) em Moscow, convidou-a, entre outros artistas, para o ajudar.
Serebriakova escolheu o tema do Oriente: Índia, China, Japão, Turquia e Sião que são alegoricamente representadas por lindas figuras de mulher. Começou, por essa altura, composições baseadas em temas mitológicos, que ficaram inacabadas.

Foi o que descobri sobre esta pintora que vos quis trazer.
A mim, deslumbrou-me a força de vida, a delicadeza, a beleza das ds traços, as composições e, sobretudo, impressionou-me o tal auto-retrato que vi na Tretyakov Gallery, em Moscovo. E os retratos dos filhos, a fazer um castelo de cartas, ou a comer. E, também, muito diferente, a imponência aliada à suavidade das mulheres a estender a roupa.
De repente, não conseguia olhar para mais nada: a harmonia, as cores, a sobriedade do requinte dos enfeites, o olhar directo e puro que nos defronta, no seu retrato, com um meio sorriso irónico e doce, é fantástico.
Não vi a "Menina a ler", mas acho que é de uma simplicidade fantástica.

Aqui vos deixo uma "pista"!
Podem sempre procurar na internet (há imensos blogs e sites sobre ela, o que eu ignorava, confesso...), ou nos livros de pintura ou... em museus de Moscovo!
1. Mir Iskusstva ou, "Mundo da Arte” foi um movimento artístico que floresceu na Rússia no início do século XX. Reuniu artistas de vários campo, desde a música, à literatura, dança, teatro e artes visuais que partilhavam ideias e inspirações ligadas à "arte pela arte" que aspiravam a criar uma arte russa paralela à da Europa Ocidental.
2. Zinaida Serebriakova, "figura de mulher em arlequim"
3. Z. Serebriakova, "rapariga do campo"
4. Z. Serebriakova, "paisagem russa"
5. Serebriakova, "auto-retrato frente ao toucador"
6. Serebriakova, "A Seara"
7. Serebriakova, "retrato dos filhos, à mesa"


segunda-feira, 13 de julho de 2009

histórias policiais: "Os Olhos de Jade", de Maria João Falcão


Mary Cassatt, chá para duas


CAPÍTULO 1

Numa tarde de fim de Outono, quatro mulheres conversam, numa casa perdida na província inglesa, entre Arundel e Brighton.
-Alguma de vocês já pensou em matar?
Fora Joan, a mais nova, quem falara. Trinta anos, alta e elegante, cabelos escuros cortados à altura dos ombros, camisola de gola alta beige, saia preta que lhe descia até meio da perna e botas altas.
Estava sentada num banco de couro, baixo, ao lado do sofá forrado de linho inglês, com flores em tons de cinzento e amarelo dourado, onde as outras duas, mais velhas, a fitavam sem compreender. A quarta, quase da sua idade, aninhavava-se num maple, cruzando as pernas bem feitas, e olhava em volta com ar irónico, não parecendo levar a sério o que ela dissera. Pousado na pequena mesa redonda em frente, um tabuleiro de madeira clara com o bule de chá de prata, quatro chávenas de porcelana com flores vermelhas e um prato de scones. O lume crepitava na ampla lareira de mármore.
Helen, no seu canto do sofá, exclamou.
-Matar? Eu?! Quem?!
E continuou:
-Bem. Acho que já pensámos: “Oh! aquela peste não merece viver! Era capaz de a matar
Riu, constrangida:
-Olha, o Rudolph... Quantas vezes já me apeteceu matá-lo! Agarrado àquela estúpida da Sally! Porque ela é nova...
-Deixa-o, já tem o que merece... –disse Joan.
E, a sorrir:
-Sabemos que não eras capaz de lhe tocar num cabelo. Dos poucos que tem...
Depois, séria:
-Não, tia Helen, não brincava, falei a sério.
Helen tentou interrompê-la, mas Joan insistiu, abanando a cabeça:
-Eu dizia matar mesmo!...
Hesitou e olhou-as devagar.
-A-ssa-ssí-nio!, soletrou. Planear a morte de alguém e realizá-lo. Nos últimos dias tenho-me interrogado se seria capaz... E cheguei à conclusão que sim.
As outras entreolharam-se, pouco à vontade.
-Pensas que eras capaz de matar? Tinhas que ter uma razão muito forte, acho e...
Helen hesitava, observando-a com atenção:
-Conhecendo-te, como te conheço... Talvez para defenderes alguém...
Tinham-se reunido, naquela tarde cinzenta, depois de longa separação. Joan tinha vivido a infância em África. Quando o pai os deixara, teria uns doze anos, viera para Inglaterra com a mãe e o irmão, Michael, mais novo do que ela. Depois, estudara Antropologia em Brighton e, terminado o curso, fora para os USA. Dali, voltara a África, onde trabalhava. Regressara à casa no Sussex, dias antes, quando soube da morte da mãe, ocorrida repentinamente e em circunstâncias que considerava estranhas.
Helen e Emily eram irmãs, velhas amigas de Abigail, mãe de Joan. Alice, a terceira amiga, conhecera Abigail na Universidade, onde fora sua aluna. Tinham vindo fazer-lhe companhia.
-Se eu era capaz de matar? Para defender alguém que corresse perigo?! Num momento de raiva? Deixa-me pensar... Não sei, sinceramente não sei...
Era Alice quem falava, agora, sacudindo os cabelos louros, lisos e muito curtos que lhe davam um ar de rapaz. Pequena e magra, tinha olhos cor de avelã, curiosos e inteligentes. Abanou várias vezes a cabeça, como se estivesse a medir o que dizia, agitou a mão e a cinza do cigarro espalhou-se pela saia cinzenta de bom corte.
-Claro que “nós” todas só mataríamos por uma causa justa, não é assim? Somos pessoas normais, bem formadas...
E o seu olhar vivo interrogava-as, divertido.
-Talvez não fosse bem isso, Alice...
Joan levantou-se, pegou no bule e começou a servir o chá. Depois, pousou-o e ficou a olhar pela a janela, de olhar perdido, com a chávena na mão. Via a fileira de árvores de troncos esbranquiçados e a folhagem vermelha que começara a cair, e disse, melancólica:
-Anoitece tão cedo...
Virou-se e continuou, dura:
-Não, Alice, é diferente, se calhar não me expliquei bem. A minha mãe morreu, e se eu estou aqui a falar de assassínio com vocês não é por acaso...

Falava, acentuando com força a palavra assassínio, enquanto as olhava uma a uma.
-Sim, assassínio a frio! Como nos livros...
-Mas porquê, Joan? -perguntou Helen.
-Porquê? Porque penso que a morte dela não foi acidental.
Insistia, martelando as palavras, quase com raiva.
-Percebem?! Tinha de vos dizer isto, não podia guardar para mim os pensamentos horríveis que me têm girado na cabeça. Desabafei, finalmente...
Olhou-as, calmamente, e continuou:
-A morte dela foi premeditada! Mataram-na.
Helen interrompeu-a, bruscamente:
-Premeditada? Assassínio... O que significa esse palavreado todo? Estás doida, Joan?
Helen reagia, com veemência. Continuou, num protesto:
-Oh! meu Deus!
Emily, que estivera calada a ouvir, metia-se agora na conversa:
-Assassínio como nos livros, dizes tu, minha querida? Tu pensas que a tua mãe, que a Abigail foi...
Fisicamente era o contrário de Helen e ninguém as julgaria irmãs. No vestido de lã mohair verde-marinho, que fazia ressaltar a brancura da pele, todo o corpo pequeno, suave e cheio, se movia. Médica, escolhera viver sozinha e as suas preocupações resumiam-se aos doentes e ao hospital.
-Falas assim porque a tua mãe morreu de repente, não é?...
Os olhos faiscavam e o verde límpido escurecia, quase violeta. Inclinou-se para a mesa, pegou numa chávena e continuou, sem olhar para Joan, concentrando-se no que fazia:
-Foi uma morte inesperada, é certo. Estranha, sim, talvez por isso mesmo. Ficaste chocada, entendo-te perfeitamente! Mas pensares isso!
-Sim, Emily, é o que eu penso!
-A que propósito? E dizes que és capaz de matar, tu? Oh! Não, Joan!
As mãos brancas, cheias de anéis, tremiam, afastando o cabelo ruivo da cara.
-Então... seria melhor “caça ao assassino”! Oh! meu Deus! O que é que eu estou para aqui a dizer?...
Os olhos fixavam ansiosamente as outras duas, como se esperasse uma palavra de apoio. Foi Joan quem voltou a falar:
-Sim, tens razão, talvez fosse melhor dizer "caça ao assassino"... Porque eu sei que a minha mãe foi assassinada e vou procurá-lo... Só sei que a morte dela não foi natural!
-Intuição...? -continuou Emily.
-É mais do que isso, é suspeita! Ela era saudável. Tinha tanta vontade de viver!
-Mas isso não basta!, exclamou Emily. Morre-se...
Joan continuava, numa excitação crescente:
-Mas "ela" foi morta!
-Acaba com isso, Joan! Domina-te!
Helen interrompera-a, num tom irritado.
-Até me arrepia ouvir-te falar assim, Joan! Deixa-te de histerias!
-Foi possível! Aconteceu...
-Como é que podes pensar isso?!
Emily voltou a falar, com um ar preocupado:
-E o que tencionas fazer, Joan?...
-Cala-te, Emily! Pareces parva tu também! Fazer, fazer o quê?!
-Deixa-a falar, tia Helen, ela está a perceber-me... Fazer o quê? Nada, por enquanto. Espero que o Michael chegue... Já lhe falei na minha suspeita, ele acredita em mim, pensa que posso ter razão. Há-de saber o que vamos fazer... Soube sempre, desde miúdo!
-O teu irmão vem aí? Não nos tinhas dito nada...
Helen sentia um certo alívio por poder falar de outra coisa.
-Sim, no fim de semana está cá...
-Claro, é normal que venha... Depois do que aconteceu.
Calou-se, com o olhar carregado de melancolia. Teria gostado de ter filhos, mas Rudolph nunca quisera. No fim e ao cabo, os filhos de Abigail eram um bocadinho os seus filhos, pensava.
-Não o vejo há tantos anos... Com quem é que ele se parece?...
-Cresceu muito, emagreceu. Tem os cabelos da mãe, acho que se parece com ela.
- E onde vive? O que faz?... isso...
-É jornalista, faz reportagens para uma revista de automóveis. Viaja muito, às vezes também participa em corridas, semi-profissional, claro. Esteve no Brasil, andou pela América do Sul. Agora fixou-se em Amesterdão.
Sorria, ao lembrar-se do irmão. Quase esquecera a fúria com que antes falara.
-Tem a mania que é um duro. Mas não é, eu conheço-o bem... É, apenas, um solitário e defende-se.
-Como é que pode ser um duro? , disse Helen.
Continuava a sorrir. Joan apontou para a mesa:
-Está arrefecer o chá...
Helen era a mais velha amiga de Abigail. Tinham-se conhecido no liceu, tinham sido como irmãs. Emily era mais nova, nunca tivera a mesma relação de amizade e de cumplicidade.
-“Não se comparava!” -pensou.
Nem agora podia sentir o mesmo que ela. Ficou a olhar para a boquilha de âmbar que lhe tremia nos dedos morenos. Era uma mulher alta, usava os cabelos, negros e lisos, penteados para trás e os olhos eram escuros. Voltavam-lhe à memória tantas recordações. Sorriu e continuou, falando devagar:
-Tínhamos dezassete anos eu e a tua mãe, éramos inseparáveis. Até o David chegar, claro. Depois... Bem, depois ele chegou, levou-a e nunca mais nos vimos. Voltámos a encontrar-nos muitos anos mais tarde, a Abigail já estava sozinha e eu tinha casado com o Rudolph.
E, como se recordasse:
-A amizade tinha continuado como se nunca nos tivéssemos separado. Acho que isto só acontece com raras pessoas. Sintonia? Quando nos vimos, recomeçámos a conversa...
Apagara o cigarro. Pousou a boquilha e pegou na chávena. Mexia, maquinalmente, o chá sem tirar os olhos do movimento da colher.
Capítulo 2

-Tens razão, Joan, deixámos arrefecer o chá...
-Deixa-te disso, Helen! És uma sentimentalona! E não estejas a mudar de assunto! A Joan pediu-nos ajuda...
Alice levantara-se e protestava, impaciente, quase agressiva. Foi à janela, limpou com a mão os vidros embaciados pela humidade. Depois virou-se para elas:
-Pensam que sou rica e fútil... E insensível. Não é?
Continuou, dirigindo-se a Joan:
-Estive a ouvir-te com toda a atenção, Joan. Acho que fizeste bem em falar connosco do que pensaste - e que é terrível! E, nós, não podemos fazer como a avestruz.
-O que queres dizer com isso da avestruz? Também tu?!
Helen parecia contrariada. No fundo desejara que a conversa acabasse. Mas Alice prosseguiu, sem lhe dar atenção:
-Não podemos fingir que não percebemos e mudar de assunto! Era demasiado fácil...
Hesitou um pouco:
-A verdade é que o ambiente que se “vivia” aqui nos dias que precederam a morte da tua mãe era bastante estranho. Até aquele jantar não foi nada normal...Vocês não se lembram? Foi poucos dias antes de ela morrer...
Emily e Helen entreolharam-se mas ficaram caladas.
-Não se lembram?! Ela não estava natural. Não era a Abigail do costume, calma e controlada. Estava agitadíssima. Insinuou coisas que não entendi, nem percebi por que razão as dizia. Parecia uma ameaça velada...
-Uma ameaça? A quem?...
Joan olhava-a com atenção.
-Não sei! Havia muita gente que entrava e saía. Estávamos sempre a encontrar-nos a toda a hora, não era habitual... E, de repente, soubemos da morte dela. Assim... inesperada...
-Era o paludismo... Ao jantar, já não se sentia bem...
Emily falara, absorta.
-Paludismo? Quem disse isso? A mãe vivia com o paludismo dela há anos! Morrer de paludismo?! Que estupidez! Bastava tratar-se. Foi envenenada, pura e simplesmente! Envenenada, percebem?!
Joan levantara a voz, estridente, mas Emily respondeu-lhe, pausadamente, acentuando bem as sílabas:
-Tem calma, Joan. “Quem disse?”, perguntas tu, -foi o médico dela, o Dr. Smith! A tua mãe tinha muitas crises. Costumava falar de “sezões”... Tremores, febre alta...
Emily agarrava-se àquelas frases, palavra dita atrás de palavra, como se desse modo pudesse alterar o que Joan dissera.
-... são sintomas de paludismo, sou médica...
E acrescentou, mais baixo, hesitante:
-Mas reconheço que podem ser de outra coisa...
-Vês, Emily, até tu concordas! Alguém se aproveitou da doença da mãe para encobrir o crime... O Zurigo também não acredita!
-O Zurigo? -perguntou Helen.
-Sim. O nosso guarda, que veio connosco de África e sempre viveu aqui. Quando cheguei, abraçou-se a mim e só me disse: “A senhora tinha medo e eu deixei-a morrer sozinha.”
-Medo? O que quer ele dizer com isso?...
Helen olhava-a, espantada. Joan continuou, sem lhe responder:
-Quando lhe falo na morte da minha mãe, afasta o olhar e não diz nada. Por que é que me disse que “ela tinha medo”? E que a “deixou morrer”? Penso e torno a pensar e não percebo.
Alice, que a escutara atentamente, abanava a cabeça.
-Também não percebo...
-Tenho a certeza de que ele sabe coisas! Sente-se culpado por não ter feito nada para impedir que a mãe morresse. E não é só isso... Há também a carta!
-Qual carta? -perguntou Helen, com o mesmo ar de espanto.
-A mãe escreveu-me uma carta, antes de morrer.
-E o que é que dizia de especial?
Helen falava, agora, em sobressalto, quase a medo.
-Falava duns papéis do meu pai. Espera, vou ler, tenho-a aqui no bolso.
E tirou um papel dobrado várias vezes.
-Está toda amachucada, tenho-a trazido sempre comigo, é a última coisa que tenho dela. Aqui já no fim escreve:
“...Ando preocupada. Se ao menos estivesses ao pé de mim! Encontrei uns papéis do teu pai, antigos. Pensei muito e seria bom falarmos de tudo isto. Há coisas que preciso de vos contar, a ti e ao teu irmão, antes que seja tarde...”
-Tinha “coisas” para nos contar, percebem?!
-Isso não quer dizer que fosse assassinada! Talvez tivesse medo de estar doente e sentisse urgência em falar com vocês...
Helen procurava desdramatizar o conteúdo da carta, que, no entanto, a impressionara.
-Antes que seja tarde... Esperava quaquer coisa, não acham?...
-Sim, mas não a morte! - murmurou Emily.
-Esperem!
E leu:
“Às vezes tenho medo. Uma conversa que tive há dias, não importa com quem, trouxe-me de volta lembranças terríveis. Tremi como se alguém pudesse vir do passado e destruir-me...”
- Tinha medo e não me disse nada...", disse baixo Helen, como para si mesma.
-“Vir do passado e destruir-me”! Percebem? E isto?...
E continuou, lendo devagar, acentuando algumas palavras com mais
intensidade:
“Nos olhos de jade brilhavam todas as luzes do mundo...Enfim, tu não podes saber... Felizmente o Natal aproxima-se e tenho esperanças de nos encontrarmos nessa altura. Virás? É muito importante!...”
-O resto não interessa... Mas esta parte revela que tinha medo de alguém, temia uma coisa “terrível”. Queria falar connosco! “É importante”, diz ela...
E Joan dobrou a carta. As outras ficaram pasmadas a olhar para ela.

domingo, 12 de julho de 2009

ainda a Casa Amarela : a tia Joana e Cesário Verde




Depois da morte da minha mãe, encontrámo-nos uma vez e ela disse-me:
- Se quiseres, conto-te as histórias da nossa família... Sei muita coisa! E ainda tenho boa memória...
Eu olhei para ela e sorri: ela continuava igual, depois daqueles anos todos, e com certeza teria a memória de sempre. Continuou:
- Agora, já não somos muitos, não é?... Do lado da tua avó, claro, que era o lado da minha mãe.
Respondi:
- Claro que quero! Já não há quase ninguém, tens razão...

E lembrei com saudades os meus avós a cantarem ao desafio, as histórias sem fim da tia Zézinha, as canções do tio Mouzinho, os tempos da minha infância inesquecível.
Ela era a prima da minha mãe, de quem sempre gostei, que nos acompanhara nesses tempos de meninas, e com quem ficara longos dias, chorosa, quando me separei da minha irmã, doente com tosse convulsa, depois de o meu pai me deixar ali, triste também ele.
A casa da tia Joana...
Começou uma longa história, entremeada de gargalhadas sonoras que me lembravam as da tia Joana, a sua mãe.
A da tia Joana que protestava, vivamente, ainda muito jovem, quando as irmãs lhe falavam de casamento:
- “Casamento? Sim, mas não quero cá estudantes! Quero casar com um homem rico que me venha buscar a cavalo... Quero ter uma charrette, ser uma senhora e viver numa quinta...”
Era uma mulher alta, de cabelos claros, nariz levemente adunco e a pele muito branca que eu me lembro de ver já de cabelos brancos, sempre cheia de pó-de-arroz e perfumada, vestida de tons claros, muito azul, lilás, verde-marinho, a dar gargalhadas, franzindo os olhos pequeninos num sorriso eterno.
Casou com um homem mais velho, rico, de pele tisnada, traços duros, mas que era ao mesmo tempo uma pessoa simples e doce, que tinha quintas e carroças e andava a cavalo.
Sei que a minha mãe aprendeu a andar a cavalo nos cavalos dele, e que as festas da família eram muitas vezes na quinta, que tinha muitos olivais, campos a perder de vista e ficava nos arredores de Portalegre, onde ainda fui.

Era Páscoa e lembro a festa, as flores, os rebuçados e os folares enfeitados com ovos pintados, outros em forma delagartos com amêndoas brancas a fazer de olhos, o pão-de-ló fofinho, e o cabritinho frito mais o ensopado...
Contara-me a tia Zézinha das festas que faziam no quintal da minha avó, na velha casa, um palácio, onde primeiro viveram -e cuja venda a minha avó nunca perdoara ao meu avô e quase chorava ao falar nela- que tinha um quintal lindo, cheio de árvores de frutos, escadarias, paredes brancas em volta, rosas, hortênsias e lírios roxos; dos almoços e das brincadeiras em que todos participavam, já casados, que acabavam com lutas de cascas de melancia ou de melão, escondidos detrás dos troncos das árvores.
Eu ria dessa maneira ingénua de brincar.
Espantava-me essa euforia do divertimento, o "carpe diem" que hoje se perdeu, em tempos hoje bem menos divertidos e bem mais cheios de violento aborrecimento, vazio e solidão.
Falava-me, agora, a minha prima da patinagem, dos passeios de barco nas charcas, das “burricadas” que faziam, na estrada que vai para a estação, onde ficava a quinta da tia Joana, ou à volta da Serra de S. Mamede, e eu pensava em flores brancas nos cabelos, como recordo a minha mãe, nas velhas fotografias, e imaginava os risos, a aflição da tia Leopoldina sempre com as suas toilettes pouco práticas, as brincadeiras e as quedas da tia Zézinha.

E ao querer imaginar, via as boninas e os campos vermelhos de papoilas, que o Monet pintou de modo insuperável, tal como elas viram, e pensava na poesia de Cesário Verde, que não resisto a pôr aqui:










Naquele picnic de burguesas,
houve uma coisa simplesmente bela
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampávamos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro de papoulas!



(Lisboa, O Livro de Cesário Verde, 1887)

Ilustrações:

1. Berthe Morisot, as patinadoras

2. Monet, passeio de barco em Givérny
3. Monet, campo de papoulas

Histórias da casa amarela: "o gato"





Mesmo ali na minha rua, houve a história da vizinha do lado que nos roubou o gato...
Ela vivia ao pé de nós, numa casa baixa, e via-a muitas vezes à janela. Cumprimentava e nós também dizíamos “bom dia”.
O gato... era um gato! Um simples gato, um gato sem raça, a coisa mais vulgar deste mundo, cinzento e com malhas brancas, uma delas no focinho. Alguém o encontrou abandonado na rua e o trouxe para nossa casa.
Eu adorava animais, sobretudo os cães, mas nunca tínhamos podido ter nenhum porque o meu pai tinha medo das doenças deles, falava sempre no “quisto hepático” que eu não sabia bem o que era, mas um dia a tia Zezinha adoeceu com o tal quisto hepático, e foi o meu pai quem a salvou.
Demos-lhe leite com bolachas num pratinho e nunca mais o largámos.
Estava sempre no meio das nossas brincadeiras, mas a maior parte do tempo ia para o canto da sala, deitava-se nos degraus que subiam para a varanda e enrolava-se a olhar para nós. E adormecia.
Parecia-me que queria estar sozinho, e deixava-o em paz com o seu ronronar suave. Outras vezes, empoleirava-se no parapeito das janelas, sentado, a olhar para a rua, com o seu olhar verde, de esfinge.
Por causa dessa mania, um dia caiu da janela do primeiro andar, nunca soubemos como, e ficou com o focinho ferido guardando sempre uma cicatriz na manchinha branca que tinha ao pé da boca cor de rosa. Talvez por isso, me sentia mais presa a ele, e, quando desapareceu durante uns dias, e, depois, a filha da vizinha do lado se mostrou à janela abraçada a um gato que era igualzinho ao nosso, foi chorar e chorar.
O gato olhava-nos indiferente, lambia-se e não mostrava nenhum sentimento por nós, deixando-se abraçar por outra, uma estranha, o que me chocou.
Ninguém conseguia consolar-nos. Durante dias e dias protestámos, íamos espreitá-lo da porta da rua, umas atrás das outras, e cada uma chorava de sua vez, a pedir o gato.
Até que a minha mãe se aborreceu, vestiu o casaco, pôs a mala debaixo do braço como nas grandes ocasiões e foi bater à porta da vizinha. Nós ficámos à janela, a espreitar.
A outra protestou, que não que não era nada o nosso, que o gato era dela, que o tinham oferecido à filha e mais isto e mais aquilo!
Só que o nosso gato tinha a tal cicatriz, e o que ela dizia ser dela tinha a mesma, coisa estranha, explicou-lhe a nossa mãe, quase zangada.
Passados poucos minutos, da janela, vimos a mãe voltar vitoriosa, com o gato ao colo.
A vizinha nunca mais nos falou. Mas não me ralei porque ela era uma pessoa azeda, cinzenta e não gostava dela.
Ilustração:
Gatos e pintores
1. Mary Cassatt, Menina com o gato
2. Pierre-Auguste Renoir, Rapariga com um gato ao colo

mais histórias da casa amarela: " A mulher da Espanha"



Para nós, era “a mulher da Espanha”. Vinha da zona da raia, da fronteira que corria parte da Serra de S. Mamede- zona de contrabandistas que se estendia do Porto da Espada, S. Julião a S. António das Areias.
Lembro-me que cheirava bem, a roupa lavada e corada ao sol, usava brincos de ouro nas orelhas que espreitavam por debaixo do lenço de ramagens, com as pontas atadas no alto da cabeça.
Era alegre, desembaraçada e abria diante das crianças que nós éramos uma série de tesouros: cortes de sedas rosadas, ou tom de pele, cor de pérola, azul celeste ou rosa salmão, que formavam desenhos de folhinhas em relevo -ora baças ora acetinadas; perfumes, pós de arroz em caixas redondas com um rosto de mulher que me lembrava um Pierrot, meias de seda, um nunca acabar de maravilhas que iam saindo da trouxa de pano como do chapéu de um ilusionista.
Espalhava-se o perfume pela sala, nós queríamos cheirar tudo e ela deixava, rindo do nosso deslumbramento. Eu encostava a face nas sedas, tocava-as devagarinho com os dedos e só me apetecia envolver nelas e sentir melhor a suavidade do tecido.
Esta mulher, ainda jovem, era prima da Hermínia, nossa costureira, serrana também. Ficavam a conversar as duas, falando dos conhecidos, da família e era estranho ver o contraste entre as roupas de luto de uma e a alegria das cores vivas do vestuário da outra que, no queimado das faces vermelhas e no ar cheio de saúde, trazia o esplendor e a frescura dos pinheiros, o cheiro dos eucaliptos, enfim, a natureza e a vida.
A minha mãe pegava nas sedas, com as suas mãos muito brancas, escolhia um corte de tons suaves, dois ou três perfumes, umas meias finas.
Havia coisas que brilhavam nos seus rótulos dourados: sabonetes, garrafas de licores, e de Domecq, maços de tabaco, pulseiras, bugigangas várias.
Não sei quanto tempo durava aquela visita mas, quando a mulher da Espanha fechava a trouxa enorme, com um nó nas quatro pontas, eu suspirava, triste, por ver desfazer aquele sonho que me trouxera mundos novos, perfumes, cores.
Depois de ela se ir embora, corria ao quarto dos meus pais onde a minha mãe guardara já os perfumes, e ficava maravilhada em frente do toucador com espelho quadrado, onde via a minha mãe arranjar-se: o frasco esguio de cor amarelo-limão com uma flor de pétalas carnudas nacaradas dentro, que eu sabia que se chamava nardo, e que balançava quando eu pegava no frasco. Cheirava a lilases, a glicínias, um perfume suave e quente. O outro, cor de âmbar, com um pequeno feixe de pedacinhos de madeira atados por uma fita, tinha um cheiro intenso e chamava-se “Madeiras do Oriente”.
Oriente... Este nome sugestivo acrescentava algo de magia, cheiros de terras longínquas, mulheres com vestidos de seda e véus transparentes, a pentear os longos cabelos perfumados de óleos.
E havia um frasco mais pequeno que tinha escrito “Tabu” em letras pretas sobre verde e parecia sugerir-me a folhagem escura da selva, um feiticeiro de cabelos negros e emaranhados e colares de dentes de tigre, um derviche, imaginava eu, das histórias que andava a ler, misturadas com "A Gata Borralheira" cujos desenho adorava e imitava.
Não sabia qual escolher... Abria-os, um a um, cheirava e punha uma gotinha detrás de cada orelha como a minha mãe me tinha ensinado. Depois, não resistia e punha um pouco nos braços e ia a correr brincar, agitando-os à minha frente, sentindo-me perfumada como uma rainha.

Ilustrações:

1. Zinaida Serebryakova, diante do toucador, auto-retrato

2. Mary Cassatt, mãe e filha

3. desenho feito por mim, Cinderela

quarta-feira, 8 de julho de 2009

George Benson no Albert Hall, no passado dia 2









(Georges Benson, em concerto, Junho de 2009)
http://www.youtube.com/watch?v=HU3i6SoAxIg



(entrevistas sobre George Benson, gravações)




Georges Benson no Albert Hall, em Londres

Aqui deixo umas imagens do Concerto de George Benson em Londres, no passado dia 2 de Julho. Imagens de um bloguista que tem fotografias muito bonitas -que podem consultar http://arquivo-fotografico.blogspot.com/.
(Está na lista dos meus blogues.)













Sobre George Benson
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
George Benson
Informação geral
Data de nascimento
22 de Março de 1943 (66 anos) Pittsburgh, Pennsylvania
País
Estados Unidos
Gêneros
Jazz, Smooth Jazz, Jazz fusion, R&B, Funk
Instrumentos
Vocal, Guitarra elétrica
Período em actividade
1964 - actualmente
Gravadoras
Columbia Records, Verve, CTI, Warner Bros. Records
Afiliações
Miles DavisAl Jarreau
Página oficial
GeorgeBenson.com
George Benson (22 de Março de 1943 - EUA) è um guitarrista norte-americano de Smooth jazz.
Apesar de ter gravado seu primeiro compacto com apenas 10 anos de idade, não teve uma carreira fácil. Chegou mesmo a ser rejeitado como acompanhante pelos músicos de Jazz devido sua imagem de músico de R&B (Rhythm and Blues); e, por outro lado, a platéia de R&B não gostava quando ele tocava Jazz. Chegou a gravar para Columbia Records e A & M, com músicos diferentes. Mas foi só em 1975, quando já tinha 32 anos, que conseguiu na Warner Bros, maior liberdade para escolha de seus acompanhantes e arranjadores. Seu LP Breezin foi um sucesso, ganhando o "Grammy" em 76, além de um disco de ouro e um de platina. Desde então, a junção jazz-rock que caracteriza seu trabalho lhe trouxe fama internacional, que cresceu depois que sua versão de "On Broadway" ter sido usada na trilha sonora do filme All That Jazz.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Billie Holiday e Lester Young: já 50 anos!


http://www.youtube.com/watch?v=UJhKoFR7iD8
(ouvir a canção " A sailboat in the moonlight")


Volto hoje a falar da minha cantora preferida de jazz. Reconheço que Ella Fitzerald, Dina Washington, Sara Vaughan, Nina Simone, Diana Crall etc etc são fantásticas, mas ela "comove-me" de uma maneira única. Recordo um ballet em Israel, sobre ela, com as suas canções, maravilhoso, em que toda a sua fragilidade, dor e génio se sentia vibrar na música e no bailado em cena. No dia 17 deste mês passam 50 anos sobre a sua morte.

Billie Holiday (Eleanora Fagan) nasce em 7 de Abril de 1915 e morre no dia 17 de Julho de 1959) era uma cantora de jazz e também escritora das próprias canções.


Lester Young, seu companheiro e leal amigo, chamou-lhe Lady Day, enquanto ela lhe chamava Pres (President) e, assim, ficou Pres, para os amigos). Tinha uma voz especial, um estilo vocal diferente, que diziam ser inspirado pelos próprios instrumentos musicais de jazz e uma identificação profundamente pessoal com tudo o que cantava.
“Billie Holiday era uma cantora especial cuja voz é inesquecível. Nunca nenhuma outra cantora distilou despero naqueles tons", diz Bret Primack em artigo, na revista "Jazz Times".

Billie era, de facto, também, uma grande actriz-nata que exprimia com a voz todos os sentimentos possíveis, indo arrancá-los aos seus próprios sentimentos mais profundos, com uma grande honestidade.
Mais adiante, acrescenta Primack: "como muitos outros dos seus contemporâneos musicais sofreu de doença comum a muitos deles: ser negro naqueles tempos, na América.
Uma vez, em Detroit, fazendo um tour com Count Basie, foi obrigada a pintar a cara de escuro para cantar no famoso Fox Theatre, porque a sua tez era clara de mais e, nesses tempos, não podiam tocar músicos brancos juntamente com negros. Billie aceitou mas, mais tarde, reconheceu: "Tive de escurecer a cara para que o show pudesse ir para a frente. Não há profissão mais inglória do que o show business. Tens que sorrir para não mandares tudo ao ar!”
Na sua breve e dura vida (morre aos 44 anos, em Julho de 1959, portanto vão fazer anos) , Billie definiu um estilo e uma personalidade criando uma música sofisticada sem qualquer treino prévio, com uma dicção soulful e entoações tão especiais e tão intensas que as suas canções e a sua voz são logo reconhecíveis. E amadas... Algumas das canções mais inspiradas encontram-se no conjunto que fez com Lester Young, seu companheiro musical.
Lester Willis Young (nasce em 17 de Agosto de 1909 e morre em 15 de Março de 1959) era um cantor e músico de jazz americano, tocava também saxofone, trompete, violino e tambores. Tem um estilo que dizem sofisticado e cool. Torna-se conhecido quando toca com a banda de Count Basie. Billie entra para o grupo mais tarde.


Juntos, Pres (como ela lhe chamava)e Lady Day criaram obras-primas. Uma das preferidas de Pres era “A Sailboat in the moonlight” nas quais a voz dela e o saxofone se combinam como um só tom. O último espectáculo que deram juntos foi em 1957, com Ben Webster, Coleman Hawkins, Gerry Mulligan e Roy Eldridge –que escreveu para ela a canção “Fine and Mellow”.
Lester Young morre em 1959, poucos meses antes de Billie, já então muito doente. Por sua vez, os últimos anos da curta vida de Billie Holiday foram uma luta dramática e patética contra a dependência da droga –que deu cabo dela- e contra a perseguição da polícia.
As últimas gravações revelam uma voz devastada mas, segundo diz Roy Eldridge –que escreveu para ela a canção “Fine and Mellow” - conservam a sua técnica superior.

É uma pequena homenagem que quero deixar aqui a estas duas inesquecíveis figuras do jazz, tão perto um do outro em tantas coisas. Até na data da morte...




Ilustrações:


1. capa do duplo disco, com uma pequena "banda desenhada", de Claire Braud (Editions Nocturne, colecção "BD Jazz").

2. o saxofone de Lester Young

3. uma página da BD referida

4. Lester Young e o seu saxofone

5. capa do disco "Lady in satin"

6. Billie cantando

7. Billie e a sua banda
8. Count Basie

Agatha Christie, a Lady do Crime: Agatha, a desaparecida


















Agatha Christie desapareceu na noite do dia 3 de Dezembro de 1926, perto da meia-noite. Foi encontrada, onze dias depois, numa terrinha do Yorkshire. Harrowgate, onde esteve instalada numas termas, dizendo chamar-se Mrs. Neele.
Muita tinta correu sobre este acontecimento, várias foram as explicações, muitas as dúvidas que ficaram ...e o mistério continua.
A "Mulher-Mistério", chamaram-lhe na altura.
Amnésia? Tentativa de auto-publicidade? Ou, antes, vontade de desaparecer, num momento de desconsolo, de sentimento de abandono, de desconforto? Ou, porque não, chantagem afectiva ao marido?
Segundo a sua biógrafa Laura Thompson, os factos passaram-se do seguinte modo e as causas podem ter sido as que ela aponta.
De há uns tempos que as relações de Agatha e Archie, o grande (e único?) amor da sua vida, tinham esfriado. Porque Agatha era uma mulher demasiado independente, exigia demasiado tempo para si e para os seus livros e teria abandonado Archie? Porque Archie viera fragilizado da Guerra e dependia dela? E isolara-se, afastara-se quando a sentira distante?
Agatha Christie era uma mulher forte, auto suficiente, sem dúvida, mas Archie fora e era o seu grande amor.
Havia outra razão para esse afastamento: a mãe da escritora, Clara Miller, com quem ela tinha uma relação fortíssima -e de dependência enorme, apesar da sua força-, adoecera gravemente e Agatha, abaladíssima, pois eram as duas inseparáveis-, fora para o pé dela uns dias.
Archie, entretanto, está a trabalhar em Espanha. Quando a mãe morre, uns meses depois, Agatha inconsolável, devastada psicologicamente, volta à casa onde passara a sua juventude e não consegue separar-se da imagem da mãe, das recordações, e, quando Archie lhe pede que vá com ele para Espanha, recusa, deixando Archie para trás, sozinho.
Demasiado deprimida para sair daquela casa que amara e onde todo o passado lhe volta à memória, fica por ali, com o pretexto de arrumar a casa, separar coisas.
Quando Archie volta, prefere ficar a viver no seu clube, em Londres, e, pouco a pouco, vão-se afastando.
Por outro lado, depois da gravidez Agatha, que era linda, perdera a sua elegância, engordara nesses anos, vestia-se sem cuidado, deixara de ser a jovem bela, esguia, de cabelo loiro bem arranjado, que Archie conhecera muitos anos antes e por quem tivera uma paixão louca.
Aquele “laisser-aller” da mulher desorienta Archie, sensível à beleza. Nesse momento aparecera no horizonte uma jovem, bela morena, ágil e desportiva, sempre disponível, que o ouve atentamente. Com quem ele começa a jogar golf, primeiro, depois, a conversar e jogar bridge e cuja companhia lhe é extremamente agradável e passa a ser-lhe necessária.
Agatha, presa da sua dor, não se dá conta desse afastamento, ilude-se, pensa: “agora que voltei a estar magra como ele gostava, vai correr tudo bem”, procura Archie e começa a planear umas férias juntos.
Archie, porém, não quer voltar atrás, sente-se bem com o que tem: aquele novo conhecimento, aquela pessoa que o envolve e acompanha, e não vem sequer passar um fim de semana com Agatha e a filha, Rosalind.
Ela percebe que ele prefere ficar perto do seu golf, sem se preocupar com o desgosto ou a solidão dela, e, nesse momento, sofre com o afastamento dele. Archie volta uma noite e ela sente-o mudado, nota-lhe uma expressão ausente, é um estranho. Archie acaba por lhe confessar o seu amor por Nancy Neele e a sua vontade de se divorciar. E parte para Londres. Agatha pede-lhe que volte. Não quer acreditar no fim do amor deles, insiste para que reatem a relação, ela ama-o da mesma maneira, e há a filha que precisa dele...
Ele volta e passam três meses juntos, ela faz planos para o futuro, viajam aos Pirinéus, mas sentem que não é o que dantes era: Agatha anda deprimida, põe um ar passivo, sofredor, que o enerva. Archie sente-se culpado e reage, sendo cruel com ela.
Agatha não desiste: propõe-lhe fazerem uma viagem a Itália, no Inverno, e, apesar de ele não se mostrar interessado, combinam uma data.
O tempo vai passando. Chega a noite de 6ª feira, 3 de Dezembro. Deveriam partir, na manhã seguinte para um fim de semana no Yorkshire. Mas Archie não volta a casa nessa noite, nem lhe diz nada.
Agatha espera, com as malas feitas, desespera e decide ir-se embora quando percebe que ele não vem.
O que pensou nessa noite, o que decidiu fazer, realmente, ignora-se.
Talvez tenha pensado em suicidar-se, talvez tenha apenas encenado essa intenção: a verdade é que conduz o carro até uma ribanceira e, deixando-o destravado, deixa-o ir por ali abaixo. Antes, pusera os documentos no assento. Porquê? Para ser identificado mais depressa o seu proprietário e, assim, saberem do seu desaparecimento? Para que se preocupem com ela? Para acreditarem na sua morte? No seu assassínio? Num rapto?
Vai a pé até à estação de comboio mais próxima e apanha um comboio para Londres, compra um casaco novo e alguma roupa e volta a apanhar o comboio, para Harrowgate, onde se apeia e procura um quarto numa pensão, dizendo ser Mrs. Neele (ironia) e ter chegado da África do Sul, à espera que lhe enviem as bagagens.
Antes, escrevera uma carta ao irmão de Archie -que era o seu maior amigo, a única pessoa em quem confiava verdadeiramente. Diz-lhe que está muito cansada, deprimida, e que vai descansar para umas termas para os lados do Yorkshire.
Pretenderia que isto fosse uma pista? Que o cunhado, conhecendo-a bem, percebesse que era um pedido de socorro: que dissesse a Archie que ela estava mal e precisava dele ?
Laura Thompson é dessa opinião.
A verdade é que a mensagem é mal interpretada, a carta é rasgada porque ele se convence que Agatha a enviou como “pista falsa” para esconder os seus reais movimentos. Conclusão dele: ela não quer ser encontrada e ele não vai traí-la...
E as buscas começam, a polícia é avisada, investiga, e a suspeita cai sobre Archie, acreditam que ele a matou –um drama e um mistério! Os jornais assinalam o desaparecimento, fotos dela surgem por toda a parte.
E os dias vão passando. Na pensão, Agatha lê os jornais e aguarda que Archie chegue. Talvez ignore a sua misteriosa ausência conduziu a polícia à hipótese de um crime e Archie quase foi acusado do seu assassinato.
Sai, compra roupas, enfeita-se, faz tratamentos nas termas, fala com os outros hóspedes, dança, ouve jazz todas as noites –uma banda vem tocar à pensão-, interessa-se pelas pessoas.
Dura tudo onze dias, ao fim dos quais a polícia consegue descobrir onde ela esta. Alguém a reconhecera nas fotografias que apareciam constantemente nos jornais: Mrs. Neele é afinal Agatha Christie.
Archie vai procurá-la à pensão. Depois, no dia seguinte, a irmã de Agatha vem buscá-la. Regressam a casa, mudando várias vezes de comboio, para despistar os jornalistas e vai refugiar-se no campo, na casa onde a mãe vivera.
Durante um tempo ela e Archie ainda tentam viver juntos, até perceberem que tudo estava acabado.
E nunca se saberá, exactamente, a razão daquela fuga. Tudo o que imaginarmos não passará de simples suposição.
A Lady do crime fez do seu desaparecimento um mistério.


Ilustrações:
1. Capa da biografia de John Escott, 'Agatha Christie, Woman of Mystery '.

2. Fotografias do desaparecimento de Agatha Christie, reproduzidas no livro de Laura Thompson, 'Agatha Christie, an English Mystery'.

3. capa do último livro onde aparece Poirot, 'Curtain'

em baixo:

As "prometidas" fotos do quarto de Agatha Christie, no Pera Palace Hotel, de Istambul, onde teria escrito o "Crime no Expresso do Oriente"

1. fotografia do Hall do magnífico hotel, Pera Palace, de Istambul

2. visão "geral" do quarto de Agatha, no Pera Palace Hotel

3. fotografia do quarto de Agatha Christie, no Pera Palace Hotel, de Istambul~

4. outra fotografia do quarto, Agatha e eu...


Ela, a Mulher-mistério...,



"É, no mínimo, curioso que uma autora capaz de escrever histórias que prendem o leitor do início ao fim não seja estudada nas escolas britânicas. A maneira com Christie desafia o leitor e quase sempre o surpreende é interessante para leitores de qualquer idade. Sem falar que ela escreve sobre o vizinho inofensivo que se transforma em criminoso,algo que ainda acontece muito nos dias de hoje.” (no blog http://acasatorta.wordpress.com/ de onde "roubei" a foto do Hall do Pera Palace Hotel e a primeira foto do quarto...














segunda-feira, 6 de julho de 2009

Policiais: Resposta a uma leitora...


Pergunta-me a Margarida num "comentário" ao "post": Agatha Christie e "A Ratoeira" se há outros escritores policiais como a Agatha Christie...
Como ela, não... Ela é única no género. Mas há imensos outros (não como ela, insisto...).
Há as(os) romancistas policiais "clássicas(os)", por exemplo Dorothy Sayers, Mignon Eberhart (encontram-se todas na colecção Vampiro...), Anthony Berkeley, Hartley Howard, Harry Carmichael (um dos pseudónimos de Hartley Howard), e as(os) "modernas(os)"(para simplicar...) -estas mulheres a que me refiro agora são mais "duras", com histórias sobre realidades de hoje, às vezes chocantes mesmo, como Ruth Rendell (as histórias dela com o Inspector Wexford são as melhores, para mim...), P.D. James, Mary Higgins Clark, Patricia Cornwell -de que há traduções, para quem não lê inglês.
Depois, os fantásticos americanos, sempre: Dashiell Hammett (saíu uma tradução do "Falcão de Malta", na colecção "Os Falcões", da Editora "O Quinto Selo" -e está anunciada para breve a publicação de um outro livro de Hammett, "A Maldição dos Dain" (The Dain Curse)- e Raymond Chandler (ainda na Vampiro, nos alfarrabistas encontra-se muita coisa boa...).
Que posso dizer mais? O Simenon, claro, todos os livros do Inspector Maigret.
Nunca mais acabava!...

domingo, 5 de julho de 2009

Ler um conto: "O Anjo", de Branquinho da Fonseca
















(conto incluído em “Caminhos Magnéticos”, Guimarães Editora, Colecção Horas de Leitura)

A intriga do conto:
É madrugada. Um homem dorme e é acordado por três pancadas na porta. Uma mulher, vestida de branco, envolta num vison ou zibelina, branca e loira, atravessa o quarto, esconde um pequeno embrulho num buraco do soalho e sai pela janela que dá sobre os telhados de Lisboa.
Para esse homem estremunhado ela é o Anjo que ele esperava viesse trazer um sentido à sua vida.
A vida não tem sentido até o Anjo chegar, bater três vezes à porta, e chamá-lo para a missão que lhe competia. O Anjo vem explicar por que está vivo, dizer-lhe o que deve fazer.
A polícia aparece, procurando uma Mulher/Ela//Anjo que seria, afinal, uma ladra/a Russa.
Amorim não sabe nada e, portanto, não tem qualquer utilidade para a polícia, mas, absurdamente, o Inspector convence-se que ele esconde voluntariamente informações, e prende-o.
Num gesto incompreensível de violência, Amorim, auxiliado por um companheiro de cela, mata o carcereiro e foge.
E vai pelas ruas fora à procura do seu destino.
Voltará a encontrar o Anjo?
A Russa será apanhada?
Anatomia de um conto:
A aparição súbita e irreal de uma figura vestida de branco que irrompe de madrugada no quarto de uma pessoa normal, um homem sem particularidades, que dorme.
Aparição –irreal- lhe pareceu a ele: um Anjo? O Anjo cuja vinda desejava.
Ou figura real, de presença bem física, sensual, perfumada, com história de formas definidas: a Russa que a polícia procurava?
O que é o “real” e o “imaginário” neste conto?
É real o que nos contam?
Ou é irreal, mas tem aparência de real?
Ou aparece como irreal à personagem que vive na expectativa dessa chegada sobrenatural?
Quem é a Dama Branca? Branca, loira, envolta num vison branco, evoca uma personagem da literatura Russa.
É, apenas uma traficante de droga, uma transgressora, ao serviço de um bando? A tal Russa, como lhe chama a polícia?
Ou a morte?
Ou o Anjo que vem dar sentido à vida do herói (não-herói)?

Tudo começara, tempos antes, quando Amorim descobre “a sensação de que lhe faltava a liberdade”. É aí que desperta a consciência e, com ela, a transgressão.
Para os outros, ele está apenas a enlouquecer pouco a pouco; para ele, está apenas a ganhar lucidez e basta-lhe beber mais um copo de vinho para a ter.


Segundo o autor, quando se foge de nós próprios ou de uma situação em que nos sentimos desconfortáveis, podemos dar um salto para a frente –ou para o lado...- e aceitar uma forma de transgredir.
O que é a transgressão, afinal? Apenas a não-aceitação de uma situação pré-estabelecida, que se “choca”, em determinado momento, com a nossa interpretação da vida? E, daí, levar à re-interpretação desta, transgredindo as regras fixas.
Mas quem é a verdadeira figura da “transgressão”, no livro?
É Ela, a Russa traficante de droga? Ou Amorim, anódino cidadão que “vê” nela “outra coisa”: o Anjo esperado que daria um sentido à sua vida. E que a re-interpreta, como Anjo, e, assim, dando-lhe outra personalidade, re-inventando-a conforme a sonhou, re-inventa com ela toda a realidade.

Diz ele, quando toma consciência do absurdo:
“A vida é estar como morto até chegar o Anjo que baterá três vezes...” (pág. 11 da edição referida)
E mais adiante: “A vida é andar aos tombos, até que um dia chega o Anjo com a hora em que iremos fazer o que é preciso...” (pág.12)
E ainda: “Para que somos? Para alguma coisa há-de ser... Um dia saberei.” (pág. 11)

É o Anjo que vem dar o sentido a tudo. O sentido de nascer e de morrer. Ou de viver para morrer?
“A vida não tem sentido, é absurda...”, dizia uma personagem de Malraux, em “Les conquérants”.

Para Amorim, o Anjo que vem bater três vezes à porta do seu quarto é que dará a razão de existir, apagará o absurdo.
Escolhendo o destino que acredita que o Anjo lhe veio revelar, o herói entra na transgressão, mata, porque tem uma missão a cumprir: encobrir a fuga do Anjo/ Russa.
E, então, a “segue” e protege até sacrificar a vida por ela?
Mesmo que para isso perca a vida...
Ou, antes: dê um sentido à sua vida?

Atmosferas/zonas:
Ele: o sombrio, o turvo, o nebuloso: “o olhar a enevoar-se”/a claridade vaga/a rua silenciosa/ele, sonâmbulo/ tudo baço/ o olhar vago, parado/ as ideias desfaziam-se-lhe diante dos olhos como nuvens (pág. 12).
e, mais adiante: “sensação de vazio, de espera”/ “sobre o seu olhar enevoado e baço desce uma nuvem cinzenta” (pág.15).

Ela: a claridade, a doçura, a cor branca: o Anjo/ “presença envolvente e deslumbrante” (pág.11)/ “exala um aroma embriagador” /claridade/voz doce, suavíssima/boca em flor vermelha/doirado dos cabelos/sorriso/o vestido branco de cauda a arrastar/ o relampejar do olhar/ o lenço de seda cor de rosa.
Quando Ela/Anjo entra: “um clarão inundou o quarto”, pensa Amorim (a irrealidade).
“Acendera-se a electricidade”, explica, friamente, o autor (a realidade).
Aliás, o fantástico, para Branquinho da Fonseca, encontra-se a partir do real, do concreto.
Os planos vão-se sobrepondo, cruzando, interseccionando, numa atmosfera enevoada, em que se não distingue o real do irreal: a névoa, o indistinto das situações, o esfumado da realidade aponta para o sobrenatural?
São “sfumature” (palavra italiana difícil de traduzir) da realidade... Como na pintura “pointilliste” de Seurat, Signac. Como em certas paisagens de barcos na bruma, deTurner ou da Catedral ao nascer do sol, de Monet?
Sempre a bruma, que envolve tudo o que rodeia a aparição da Russa/Anjo e a atmosfera em que se move Amorim.
Como “zonas” diversas (não esquecer que “Zonas” é o título de um conto do autor.
Assim:
“Ela” passa a arrastar a cauda do vestido. Ele observa: “ergueu os braços no gesto de dizer adeus (a Russa) ou de abrir as asas para voar (o Anjo) (pág.14).
Ela/o Anjo abre a janela e desaparece sobre os telhados/ ou voa para o céu?, e diz: “Parece que nunca me viste”/ “bem sabes a lei... não estive aqui... não viste nada...”/ “Sou o teu Deus ou tu o meu Anjo?”
Porque ele devia saber da existência dela, da “lei do silêncio” dos traficantes de droga... A duplicidade do sentido daquela figura, pois Amorim pode interpretar, de outro modo, aceitando o sobrenatural: o Anjo vem de outro mundo que não se deve “revelar” aos outros, apenas aos eleitos....
Porque ela é uma figura –para ele- indistinta, nebulosa, aérea, pelo menos são estes os contornos que ele lhe “deu” na sua imaginação, na “criação dela/o Anjo?

Mais tarde, na esquadra da Polícia, que descobrira na fenda do soalho, um pacote de droga, abre-se outra “zona” da realidade:
A própria “identidade” de Amorim é alterada: para a polícia, ele é “o Brasileiro”, que tem contas a resolver com “os outros” e não quer “falar” (pág. 16).
Pergunta-lhe o comissário:
- “Enganaste-te nas contas?”
O seu Anjo, é aqui apenas “a Mulher”, “a Russa”, o que para ele não tem qualquer significado, nem pode reconhecer a fotografia que lhe mostram dela. E responde:
-“Qual Mulher?” e repete: “Não foi nenhuma Mulher”...
Essa Mulher não existe, não foi essa que atravessou o seu quarto. Para ele existe o Anjo, figura da qual não pode falar: “bem sabes a lei”, dissera-lhe Ela.
Ilustrações:
1. Chagall, o Anjo
2. capa de 'Caminhos Magnéticos'
3. quadro de Turner (à esquerda)
4. quadro de Monet (à direita)
5. quadro de Seurat (em baixo)

sábado, 4 de julho de 2009

A cidade e o cão

Descobri Telavive, a cidade sem repouso, com o meu cão.
Chegámos numa tarde de fins de Julho. Seguiram-se dias tórridos, abafados, em que a humidade, ao entardecer, descia sobre a cidade numa película de bruma que pesava nos ombros, ardia nos olhos e fazia respirar com dificuldade.
Vínhamos de outro continente, longa passagem por África, e fugíamos de um calor húmido e insuportável.
Eu e o meu cão, tínhamos vivido numa espécie de isolamento, fechados em casa.
Por causa do calor intenso? Por não haver mais nenhum sítio para onde ir, pequena ilha fechada por todos os lados? Pela minha incapacidade de reagir? Nem eu sabia.
Cansada, enfraquecida por sucessivas crises de paludismo, passava a maior parte do tempo num sofá a ler. Ele acompanhava-me, não podia sair fora do jardim porque lá fora havia outros cães, abandonados, perigosos, que percorriam as ruas em matilhas e uivavam nas noites de lua como velhos lobos. E preferia estar em casa ao pé de mim.
Assim, ficávamos os dois parados, à espera, dias inteiros.
Muitas vezes íamos de jeep à praia dos Tamarindos, bela, mas árida e sem sombra, com os seus coqueiros esgalgados, de copa lá no alto, e duas ou três tamarindeiras que davam o nome à praia. O imenso areal branco encandeava-nos e o sol feria os olhos e queimava o corpo, impacientava-me.
Ele não suportava que eu entrasse pelo mar dentro e ladrava angustiado até me ver sair. Depois saltava para o carro pela janela, a ladrar, a chamar-me, e ainda hoje não sei como era possível fazê-lo, tão alta a janela e tão pequeno ele, rafeirinho entre volpino e setter.
Na nova cidade, agora, olhávamos um para o outro e parecia que me sorria. De acordo os dois, sem palavras, decidimos que era a nossa cidade. Logo pela manhã saíamos do hotel, descíamos a Promenade, com o largo passeio de pedrinhas arredondadas a formar desenhos ondulados, em direcção ao Sul.
O mar, a barreira de rochas escuras que fechavam a baía e protegiam a praia, ficava do nosso lado direito. Para trás, a marina com os elegantes mastros dos barcos imóveis.
Em frente, ao fundo, a cidade branca, “Jaffa-a-bela”, encastoada no azul da baía, entre céu e mar. Parávamos a olhar a sua beleza no azul do mar e continuávamos, virando abaixo, na rehov Trumpeldor, ou, outras vezes atravessando a passagem do novo edifício, o Migdalot, inacabado, como um farol, qual Torre de Pisa em volutas inclinadas, parafuso apontando o infinito.
O importante era chegar depressa à rehov Ben Yehuda e, ali, subir e descer a rua, entrando nas lojas para apanhar o fresco dos ares condicionados e ouvir as pessoas falar uma língua nova e com sons estranhos, parando nos cafés a tomar um sumo, bebendo água fresca por aqui e por ali.
Ele virava-se e olhava-me. Sabia que pensava como eu, acenando com a cabeça: “que sim, que gostava e se sentia bem, que se divertia outra vez”... Falávamos com toda a gente, depressa tínhamos amigos, conheciam-nos na rua e era como se, depois de um longo silêncio involuntário, redescobríssemos a palavra, a convivência, o prazer do movimento, do encontro, na agitação da cidade e das gentes.
Telavive, ha-ir bli hafssakah, “a cidade sem intervalo”, sem repouso, como nos ensinaram logo. De manhã à noite, os cafés estavam abertos, cheios de gente nova, a música tocava por toda a parte, os carros giravam durante a noite. Nós sábados de manhã, havia danças de grupos de bailado, velhos e novos, no passeio junto à praia, ao som da música de um velho gira-discos.
A luz do dia era suave, brilhante, mediterrânica, e, nos cruzamentos das ruas, no seu quadriculado geométrico, chegava-nos o alívio do vento fresco do mar.
Aventurávamo-nos cada vez mais longe na cidade, agora para Norte. A descobrir as bagas redondas dos sicômoros que caíam na areia do jardim Ben Gurion, até formarem um tapete suave onde os pés se afundavam como em algodão. A ver todas as manhãs virem varrê-las e juntá-las em montes de bagas, de folhas secas e de flores caídas.
Eram duas jovens russas, loiras, pálidas, de ténis nos pés e “walkman” nos ouvidos, ausentes, silenciosas, com a música só para elas, que varriam, varriam. Depois paravam e sentavam-se, a descansar e a comer, num banco, e rir e conversar. Olhavam para nós sem nos ver e a música passava-lhes para os lábios, na doçura da língua que falavam. Encostadas à madeira dos bancos, com os fios dos auscultadores pousados nos ombros, sorriam, melancólicas, e falavam sem que ninguém as compreendesse.
O jardim ficava limpo e cheio dos riscos que as vassouras metálicas deixavam na areia. Voltávamos a sentir-se os sapatos nas pedras e a sensação de se pairar com os pés nas nuvens de algodão desaparecia. Eu e o meu cão passeávamos, melancólicos também.
Descobrimos um dia que havia árvores gigantescas na rehov Dizengoff, plantadas muitos anos antes nas dunas, entre o deserto e o mar. Árvores que tinham bagas cor de tinta negra e um cheiro adocicado que nos desagradava, quando as pessoas as pisavam na calçada.
Mais tarde, na rehov Sheikin, perto da Allenby -onde havia um lindo Museu com quadros do Rubin-, eu bebia sofregamente um sumo de romã, rimon chamavam-lhe, que saía das bagas cor de rubi faiscantes, e comia falafel, bolinhas de grão e especiarias, fritas e servidas dentro de pão ázimo, sob o olhar doce e preocupado do meu cão.
Mas um dia...
Um dia o meu cão adoeceu e eu percebi que ele me ia deixar. Uma flor negra cravara-se-lhe na boca e devorava-o pouco a pouco.
O veterinário disse:
- Tem coragem, ele vai durar pouco... Uma semana, duas?
Ele resistiu dois meses, porque queria continuar a fazer-me companhia, porque tinha pena de me deixar sozinha, porque amava tanto viver... Mas as forças iam-lhe faltando, e o entusiasmo de correr a cidade, a vontade de viver foi abrandando.
Já não vinha acordar-me de manhã para irmos passear, como dantes costumava fazer. Nessas manhãs, chegava e punha o focinhito no lençol à altura do meu rosto e ficava a respirar ao pé de mim, à espera que acordasse. Eu abria os olhos e dizia:
- Olá querido! hamud sheli, meu adorado, bom dia!
E ele abanava a cauda de raposinho e voltava a deitar-se debaixo da cama até eu me arranjar.
Agora não, agora ficava deitado no chão, o rosto pensativo sobre a almofada que lhe tinha posto debaixo da cabeça, e era eu que ia ter com ele e me deitava a seu lado e lhe dizia para o animar e me animar: “olá meu querido, kelev hamud...”
Virava os olhos para mim, sem se mexer, agitava ao de leve o rabo, triste por me ver triste.
Chorei desamparada, solucei sem consolo, abraçada a ele, no dia em que morreu.
De repente, a cidade foi-se apagando e ficou vazia, sem luz, nem cores. Fechou-se, tal como se abrira com ele.
Dorme hoje, debaixo de uma palmeira, num moshav perto de Telavive, a cidade sem repouso. A nossa cidade.


Imagens:

1 e 2- quadros de Reuven Rubin, Vista de Jaffa, a bela

3- Berthe Morisot, Mulher e cão


Tradução do hebraico:

1- "ha ir bli hafssakah" : a cidade sem repouso

2- "hamud": simpático, engraçado, querido

3- "hamud sheli" : meu querido

4- "kelev hamud": cãozinho querido

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Histórias da casa amarela: os saltimbancos





Não era só o circo que vinha no Verão à minha terra, nem as Galapitas que se passeavam, nem a campainha do homem dos gelados...
Logo que a Primavera vinha e um bocadinho de sol surgia, chegavam os saltimbancos.
De onde vinham? Como chegavam à cidade? Onde ficavam? Nunca o soube, era pequenina e nunca me interroguei sobre isso.
Hoje pergunto a mim mesma: quem eram? De que parte do mundo viria aquele grupo que surgia do nada, numa tarde morna, atravessando o pó das estradas do Alentejo, vinham dar o seu humilde espectáculo de sonho e desapareciam logo outra vez?
Uma família de nómadas, seguramente, correndo as estradas poeirentas, parando aqui e ali, acampando na sua carripana coberta com um toldo de lona, puxada por uma mula, e um cavalo ao lado pela arreata. Com a carroça cheia de tachos e de carvão, um fogareiro de lata, instalavam o seu acampamento, banhavam-se nos rios ou nas charcas, e partiam para outras terras, deixando nas vedações, ou nas árvores, sinais estranhos. Para eles, quando regressassem, ou para os outros que viriam depois deles?
Ou pertenceriam apenas a algum circo pobre, arrumado num terreiro de aldeia, que deixara de lhes poder dar trabalho? E, por isso, calcorreavam os caminhos à procura de um ganha-pão?
Perguntas, perguntas, para as quais hoje ainda não encontro resposta.
Que importa? Vinham trazer-nos um pouco de alegria, de divertimento e de cor, agitando os ares da cidade pasmada.
Desenrolavam um tapete colorido nas pedras da rua e ouvia-se o rufar de um tambor que um garoto despenteado trazia a tiracolo. Rapidamente, começavam as cambalhotas de uma pequena contorcionista, de costelas visíveis debaixo do maillot dourado e sujo. Enfeitada de colares e de aros nos pulsos finos, agitava os dedos num jeito de bailarina oriental. Descalça, fazia tinir as pulseiras dos tornozelos e parecia-me ouvir tilintar os sequins dourados que pendiam de uma fita de seda que lhe rodeava a cabeça. Recordo a pele crestada pelo sol e uns olhos verdes lindos que luziam enquanto a cabeleira revolta, de cor avermelhada, que lhe emoldurava o rosto fino, de lábios pintados, se agitava ao vento.
O pai -seria mesmo o pai?, pensava eu-, que tocava um pífaro desafinado enquanto durava a actuação, e que acabava equilibrando-se num pé e com os bracitos no ar, o pai deixava a música e era ele, agora, que fazia o pino sobre uma mão, andava à volta do tapete dando saltos e quando se punha em pé, agradecia com a mão no peito. Calças de seda, à turca, colete aberto com arabescos, ia buscar a um cesto umas bolas vermelhas que lançava por cima da cabeça, fazendo-as girar num arco, sem caírem.
Ao lado, um pequeno sagui batia numa lata e guinchava.
E, logo, o rapaz do tambor dava um grito agudo e, em cambalhotas seguidas, subia a rua, parecendo uma roda, a girar sobre si mesmo. Vejo o pequeno bigode que desenhara a carvão para se sentir um homem e o esforço que lhe avermelhava as faces e fazia sair as veias do pescoço, quando se levantava.
Afastada, uma mulher forte e bonita, um vestido largo e um lenço de cores garridas na cabeça, argolas douradas nas orelhas, olhava-o com um ar preocupado. Era ela que ia recolher as moedas e as punha numa bolsa de pano cuja alça pendurava ao ombro.
À janela, as vizinhas espreitavam, meio encobertas pelas cortinas, deitavam algum dinheiro e fechavam logo as portadas.
De janelas bem abertas, eu e as minhas irmãs, empoleiradas em cadeiras, seguras pela Rosalina e pela Florinda, éramos as grandes espectadoras da cena, rindo e aplaudindo os pequenos acrobatas e lançando moedinhas que nunca mais acabávamos de ir buscar ao porta-moedas da cozinha.
Restava-me o sonho, a poeira de estrelas que se levantava em frente dos olhos, quando partiam.
Sim, era o sonho e a magia das coisas extraordinárias que vinham agitar a nossa terra provinciana, e que continuavam, infindáveis, indo com eles por outros caminhos, sempre em frente, e nos faziam viver...