sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Agatha Christie, Tommy e Tuppence, "O Adversário Secreto" e outras histórias





The Secret Adversary ("O Adversário Secreto", título em Portugal e "O Inimigo Secreto", no Brasil) é o primeiro romance de espionagem de Agatha Christie, publicado em 1922, tendo como heróis um casal de jovens detectives que, a dada altura, Agatha inventa.

Já existia Poirot, o primeiro a surgir, em 1920, no livro The Mysterious Affair at Styles e, em 1930, iria aparecer a tremenda e simpática Miss Marple. Mais tarde ainda, criará os detectives, menos conhecidos, Mr. Quinn e Parker Pyne.

De repente, em 1922, “aparecem-lhe”, de modo natural, duas figuras novas: Tuppence (Prudence Cowley) e o seu amigo de infância, Tommy (Thomas Beresford).
A jovem Tuppence tem muito da própria Agatha: é como ela independente, sôfrega de aventuras, apaixonada...


O livro O Adversário Secreto vai ser o "campo" em que se movem, e vão lutar, pela primeira vez, estes heróis.
Ao longo da vida - e da obra- Agatha Christie irá buscá-los, juntá-los de novo: apaixonam-se, casam, entram no Serviço Secreto Inglês, investigam juntos, correm os mesmos perigos...

Em 1929, sai o segundo livro com Tommy e Tuppence, Partners in Crime (O Homem que era nº 16, na edição portuguesa e Sócios no Crime, no Brasil). Passa-se seis anos depois, quando os dois decidem trabalhar numa agência de detectives.

É curioso ver que são o único casal que a escritora usa em mais de um livro. E, enquanto Poirot ou Miss Marple se envolvem em aventuras sem nunca se dar pela passagem do tempo, como se não tivessem idade, estes dois vão sendo diferentes entre uma história e outra. Evoluem e o tempo passa por eles, fá-los mudar, crescer, ter filhos e envelhecer...
No primeiro livro citado, entram, ainda solteiros, quase por brincadeira num perigoso jogo de espionagem, para o qual não estavam preparados mas que resolvem com perícia, coragem e inteligência.
Na segunda história, os dois estão apaixonados um pelo outro e... pela intriga.

Entretanto, tinham comprado, e passam a gerir, a falida Agência Internacional de Detectives Blunt.

Desempregados e sedentos de viver grandes aventuras, envolvem-se na procura de uma miúda Jane Finn, que desaparecera após o naufrágio de um navio de passageiros, durante a I Guerra.
Jane tem na sua posse um documento secreto que pode comprometer a Inglaterra e os países aliados. O Governo procura-os. Outros grupos, porém, estão interessados também nessas informações com o fim de desestabilizar o país...

Seguem-se perseguições, raptos, assassínios, traições, uma série de peripécias que põem em acção Tommy e Tupence. Mas eles divertem-se enquanto resolvem o enigma.
Em 1941, no terceiro, "N or M?" (Tempo de Espionagem, em Portugal e "M ou N?", no Brasil) passaram já mais ou menos vinte anos.

Enquanto o filho deles, Derek, combate, na II Guerra Mundial, Tommy e Tuppence vão viver para uma pequena cidade, aparentemente tranquila, mas que esconde um perigoso elemento da chamada “quinta-coluna”, um espião alemão.
Um agente inglês (cuja missão era descobrir os nazis infiltrados no comando inglês), é morto, e as suas últimas palavras foram: "M ou N. Song Susie".
Nesse momento, Tommy e Tuppence vão colaborar com os Serviços Secretos Ingleses na investigação.

Para isso, hospedam-se em uma pensão repleta de velhinhas simpáticas e de homens de negócios, acabando por se envolverem com espiões e numa série de crimes.

No quarto livro, 1968,
By the Pricking of My Thumbs (chamado "Caminho Para a Morte", em Portugal, e "Um Pressentimento Funesto", no Brasil), Tuppence vai visitar a velha Tia Ada, que vive num lar.
Encontra lá uma velha senhora, que dizem louca, a Sra. Lancaster, que se põe a falar com ela de coisas que não fazem sentido, ligadas ao filho e a qualquer coisa que estaria atrás da lareira.

A conversa é estranha, Tuppence, curiosa porque acha que a senhora está no seu juízo perfeito, resolve investigar. O casal acaba por se envolver numa trama complexa, como sempre.
Em 1973, sai novo livro com os dois, o quinto e último, Postern of Fate ("Morte pela Porta das Traseiras", em Portugal, e "Portal do Destino", no Brasil).

Estão aposentados e decidem mudar de terra, para um local sossegado, no litoral (no fundo, a casa que Agatha comprara, à beira-mar, e que tanto amava...).
Mas o novo destino abriga mais um crime que os dois vão tentar resolver.
A casa antiga onde se instalaram tem um sótão cheio de livros velhos. Quando os começa a arrumar, Tuppence vai folheando e lendo passagens de livros que lera noutros tempos. Num deles descobre um bilhetinho misterioso, uma mensagem que alguém escrevera cinquenta anos antes
Recorrendo à memória de pessoas de idade, e de alguns velhos do asilo, consegue dar um sentido à mensagem e descobrir um crime adormecido...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Concerto de Marcus Miller no Barbican Hall em Londres "revisita" o album de Miles Davis "Tutu"





































MARCUS MILLER: TUTU REVISITED

Pois é, vi um concerto fabuloso!
No Barbican Hall (no East Side de Londres), decorreu de sexta-feira 13 de Novembro a domingo, 22 de Novembro o “London Jazz Festival” sendo o fecho do festival o Concerto de Marcus Miller a que assisti...
Não o conhecia, confesso, mas conhecia Miles Davis, claro, e este concerto “Tutu revisited” referia-se, sem dúvida, ao álbum “Tutu” –o álbum que o legendário trompetista, nos anos 86, gravou em New York e no qual Marcus Miller com pouco mais de vinte anos (guitarrista, compositor e produtor) participou.
Miller escreve a maior parte das músicas para o álbum e toca vários instrumentos (incluindo guitarra baixa, saxofone, clarinete e contrabaixo), mas o seu golpe de mestre foi o uso dos sons electrónicos dos sintetizadores, e das baterias, e com esses sofisticados “funk grooves” (batidas funky, em português) enquadrando a “execução” de Miles, ajudaram-no a redescobrir a sua “voz”, já perto do fim da carreira.
Marcus Miller foi pois o último grande colaborador de Miles Davis, "The Dark Magus".

Agora, vinte anos mais tarde, Miller trouxe de volta Tutu, um pouco de jazz fusion, prestando assim uma homenagem ao famoso álbum do grande Davis.

Traz consigo uma nova “band”: Christian Scott (clarinete), Alex Han (saxofone), Federico Gonzales (placa de som) e o fantástico Ronald Bruner (bateria).

O espectáculo pretendia também ser a “apresentação” do jovem clarinetista (26 anos), Christian Scott.
Mas foi muito mais do que isso tudo:
foi uma exibição fantástica de profissionalismo, empenho, entusiasmo, imaginação que, pouco a pouco, foi contagiando a assistência (de todas as idades!) –sentada e silenciosa com um copo de cerveja na mão e, logo, entusiasta assim que a música terminava.

No palco, lá em baixo, movia-se a figura esguia de Marcus Miller, como um duende vestido de castanho, o chapéu pequeno enfiado na cabeça, passeando devagar de um lado para o outro com os passos leves da pantera cor de rosa abraçado à guitarra eléctrica.

Ora se chega ao clarinete e a Christian Scott e é como um diálogo ou “desgarrada” entre os dois instrumentos, ora se aproxima do saxofonista e começa outro desafio –competição-conversa animada e amigável.
O baterista Ronald Bruner é um verdadeiro génio, Gonzales com a placa de som (será?), os sintetizadores, toda a parte electrónica pareceu-me um mágico...


Notas:

O jazz é uma manifestação artístico-musical originária dos Estados Unidos. Tal manifestação teria surgido por volta do início do século XX na região de Nova Orleans e nas suas proximidades, tendo na cultura popular e na criatividade das comunidades negras que ali viviam um de seus espaços de desenvolvimento mais importantes.

O Jazz desenvolveu-se com a mistura de várias tradições musicais, em particular a afro-americana. Esta nova forma de se fazer música incorporava blue notes, chamada e resposta, forma sincopada, polirritmia, improvisação e notas com swing do ragtime.


Jazz Fusion (às vezes simplesmente citado como fusion) é um género musical que consiste na mistura do jazz com outros estilos, particularmente rock 'n roll, funk, rhythm and blues, música eletrónica e world music.

O estilo começou com músicos de jazz que misturam as formas e técnicas de jazz aos instrumentos elétricos do rock aliados à estrutura rítmica da música popular afro-americana, tais como o soul music e o rhythm and blues.
Os anos
70 foram o período mais produtivo para o estilo, embora o fusion tenha prosseguido com uma produção expressiva, sobretudo no final do século XX e início do século XXI
, com reedições de álbuns clássicos de fusion e a gravação do estilo por artistas do jazz tradicional.

Ilustrações:

1. homenagem à trompete do Dark Magus....

2. foto de Miles Davis com a sua trompete

3. capa do álbum "Tutu", de Miles Davis

4. capa de outro álbum

5. foto de Marcus Miller

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Mais aventuras do meu cão em São Tomé, na Cascata de São Nicolau...











Um dia resolvemos ir ver as cascatas de São Nicolau, muito famosas na Ilha, pela beleza da estrada e paisagem que leva até lá, através da floresta virgem, o ôbó.
E pela frescura das águas que caem do alto da montanha, límpidas.


Saímos cedo de casa, levámos um pequeno farnel, e seguimos pela picada de terra lamacenta, que contornava, em curvas e contracurvas, a montanha até ao pico da serra, envolto na névoa.
O caminho era estreito e, em muitas das passagens apertadas -que coincidiam muitas vezes com curvas-, não caberiam dois jeeps...

A paisagem era única, a vegetação inigualável na sua riqueza e variedade: árvores seculares, de um lado e do outro da estrada, ramos pendentes, lianas entrelaçadas com folhas ou fetos, trepadeiras enroscadas nos troncos. Tudo de cores variadíssimas, em que predominavam os tons do verde, de uma paleta completa de verdes.
Por vezes apareciam as flores, os frutos e lá vinha o amarelo, o laranja e o roxo e o encarnado.
Havia também o castanho dos troncos das árvores, das jaqueiras e das amoreiras, das acácias; o vermelho de outros; o cinzento amarelado do amplo tronco do ocá, madeira que serve para fazer as canoas de pesca, limitando-se muitas vezes os pescadores a escavá-las no próprio tronco inteiro...

O cheiro da terra húmida, coberta de musgo brilhante e de líquenes, nos sítios onde o sol não penetra, ou o perfume entontecedor das flores, no alto das ramadas, ou, ali mesmo, ao nosso lado, dos ibiscos, das begónias coloridas, os frutos maduros, já apodrecidos, com um cheiro adoçicado, intenso, quase insuportável de tão enjoativo.

À roda, o chilreio dos pássaros pequeninos -azuis, verdes, negros- envolviam-nos, quase murmúrios; o grasnar das garças cujo adejar branco adivinhávamos; o canto do bico-de-lacre, ou de algum piriquito; os guinchos de animais que não identificávamos, talvez os pequenos saguins que apareciam e logo fugiam, chegando até aos arredores da cidade.

Imaginava o ossôbó, o rouxinol da ilha, e o seu canto mavioso. O passarinho solitário que anda por montes e vales anunciando a chuva.
Nunca o vi mas ouvi falar muito dele em São Tomé: ele que enche os versos dos poetas da ilha. Descrevem-no como um poeta, também ele, na beleza dos sons, na música que canta o seu canto solitário, sentido ou feliz.

Sentíamos a lama vermelha pegajosa que se agarrava aos pneus, sujava os pára-lamas e os sapatos, se calhava descermos do carro, para ver alguma paisagem mais de perto, ou descansar as costas. Era como cimento acabado de fazer, grude, formando uma película imediatamente seca pelo calor.
O corpo começava a estar molhado, com um fiozinho de suor correndo nas omoplatas, brilhando gotinhas na testa.
O Zac ficava logo com as patitas cor de barro e, assim que voltava para o jeep, começava, conscienciosamente, a limpá-las, a puxar aqueles picos de pelos secos, lavando-se sem cessar.

Eu levava os olhos fixos na estrada, sempre um pouco inclinada para a frente tentando adivinhar se vinha alguém em sentido contrário; se o espaço daria para passarmos; se teria de fazer uma manobra. Manobra perigosa e que eu receava pois, para nos afastarmos do outro carro, seria necessário chegarmo-nos à beira do precipício que, do lado de fora da estrada, descia para o fundo, invisível e sem fim, do mesmo ôbó... O mar via-se por espaços e desaparecia logo no verde da floresta.

Foi grande o deslumbramento quando se nos deparou a clareira junto da cascata!
Ver o laguinho que se formara, a vegetação baixa de folhas redondas e brilhantes, os troncos altíssimos de alguma árvores que pareciam trepar por ali acima, paralelos às quedas de água que descem da montanha.
Os cipós pendurados, cruzando-se com os ramos, enrolando-se quais serpentes douradas; o barulho suave das águas a cair como se fossem ribeirinhos verticais: era tudo um sonho!

O Zac, cão de caça, rafeirinho, vai e vem, a cheirar tudo em sua volta, com certeza encantado com os odores desconhecidos, os insectos, as lagartixas...
De repente, sentimos um restolhar ali por perto e o Zac desaparece da nossa vista.

Ao fundo da ribanceira, um curso de água, forte. Ouvia-se o cascalhar sobre os seixos, mas não se conseguia ver nada tão cerrada a folhagem naquela zona.
Viam-se uns caminhitos por entre ao vegetação rasteira e adivinhavam-se os pedregulhos negros junto da ribeira que ali corre. Pedras escuras que, ao longo do caminho, víramos surgir do musgo ou do capim.
O sol abrira, o calor húmido abafava, o coração batia forte, sentia-me mal.
O Zac desaparecera!
Não se ouvia nada lá em baixo, só o marulhar da água. Descendo, descendo essa ribeira ia parar ao mar, lá longe em baixo...
Afogara-se? Quem sabe como seria a ribeira que ouvíamos correr? Caíra em cima de alguma rocha? Batera com a cabeça?
A angústia apertou-me a garganta. A expectativa de poucos minutos era insuportável: queria falar, gritar e não podia.

Por fim, ouvimos um barulhito e comecei a chamá-lo baixinho, quase sem respiração. Sentiu-se um movimento e ouviram-se as patas do Zac, a raspar na terra, ou na areia.
Ouvira-nos, e fazia-nos sinais. Animara-se porque sabia que não estava abandonado, ou perdido!
O tempo passou e não dávamos por ele, mas pareceu-me uma longa espera...
Pareceram-me séculos!
Mais barulho, um restolhar mais forte e lá vemos espreitar, mesmo ao fundo, a cabeça e o pelo fulvo do meu cão...

Vai subindo, fincando as patas no terreno amolecido, avança e cai outra vez para o fundo.
Eu, entretanto, comecei a descer, sentada na terra ia escorregando e fincando bem os calcanhares nas saliências que apareciam.
O Manuel atara-me o cinto dele ao pulso, e ficou a segurar. Tudo absurdo: se eu caísse, ele viria atrás de mim pela ribanceira abaixo...
Continuámos, eu e o Zac, cada um de seu lado, um a subir o outro a descer... Mas a um ritmo tão lento que o suor me pingava da testa e encharcava a blusa.
Ele subia, eu escorregava um pouco mais, e cada vez estávamos mais próximos.
Falava-lhe sempre: “Já aqui vou, Zac! Anda, meu lindo, sobe...”

Ele não ladrava, mas continuava a vir, a resvalar e a subir, cada vez mais alto, cada vez mais perto, pelos tais caminhos.
Até que, milagre!, consegui agarrar a trela de couro que se lhe cruzava nas costas e era um apoio seguro.
Salvo?!
Puxei com força e agarrei-o ao peito. O principal estava feito, agora era voltar para a estrada, com ele bem agarrado arrastando as costas pela ladeira, em sentido inverso... Segura –e insegura- pelo cinto de couro que o Manuel agarrava, agora com as duas mãos ao mesmo tempo!
Parecia impossível!
Era como se o Zac ressuscitasse. Abraçámo-nos os três. Acho que ríamos e chorávamos. Os três, claro!
Nunca mais voltámos à Cascata de S. Nicolau!

Mas deixo-vos algumas imagens: da cascata, do Zac e do ôbó, e dois poemas do poeta são-tomense, Marcelo da Veiga, que é um grande poeta!

Ossôbó

Ossôbó é só
É só o ossôbó
Só!
Rente às nuvens, rente,
Não vê mais em volta
Que a nuvem que passa,
Corre...
Vive assim mesmo
Uma vida a esmo
Ossôbó!
Se algum senhor traça
Na voz que mal solta
No ar se perde, fica,
No ar morre!
É só o ossôbó,
Só!...

(Òmònó, 1928)

Quando a tarde desce,
Na alma a ilusão adormece.
Vale mas deixá-la assim...
Porque, se acorda, é em ais;
Vem como dum sonho ruim:
Não tem viço mais...

(Príncipe, 1944)

(Nota: O livro de Marcelo da Veiga, de onde retirei os versos, chama-se “O Canto do Ossôbó”, e foi publicado em 1989, em Lisboa, pelo editor ALAC, na colecção “Para a História das Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa”, com o patrocínio da Câmara Municipal da Amadora)




Música para o fim de semana: Johnnie Hartman e John Coltrane










Aqui têm um pouco de companhia para o fim de semana...
Não se esqueçam que amanhã já é sexta-feira!
E, como dizia o filósofo Snoopy, que o meu cão Zac admirava, "hão-de vir melhores dias: sábados...domingos!"
Bom fim de semana a ouvir oas grandes Johnnie e John...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Histórias da casa Amarela: o meu primo Marco Aurélio e Jules Verne














Trazia-me livros do Jules Verne, encadernados a vermelho, com imagens na capa e lá dentro, para eu ler.
Olhava-me por detrás dos óculos dourados, num sorriso irónico.
Como eu gostava muito de ler, ele decidira que ia ler também os livros dele. Passados uns dias voltava e queria logo saber se tinha gostado e o que pensava. E falava, falava...
Foi assim que li “Dois anos de férias”, “20.000 léguas submarinas”, “ A volta ao mundo em 80 dias” e o inesquecível “Miguel Strogoff”.
Chegava sem ninguém esperar, e começava logo a falar na cozinha com a Florinda. Trazia novidades, contava as coisas novas que tinha estudado, e queria ensinar-nos.
Uns dias depois de a nossa irmã ter nascido, ele estava lá...

Estávamos a conversar com a Florinda e, de repente, perguntámos uma coisa que nos preocupava:
- Como é que chegou a nossa irmã?
- Veio pendurada num paninho que a cegonha segurava no bico....
- Não acredito... , respondia eu. Como é que podia vir pelo céu?
- No bico da cegonha, dizia ela.
- E não caía?!, tornava eu, incrédula.
- Não, porque as cegonhas voam sempre devagarinho quando trazem os bébés.
Meio convencidas meio desconfiadas com a explicação, íamos espreitar a nossa irmã, a ver se não teria ficado magoada pelo bico da cegonha.
Ele ouvia e não dizia nada.

Uns tempos mais tarde, o meu primo Marco Aurélio explicou-nos que era tudo mentira, que os bébés vinham na barriga das mães, o que achámos desde logo impossível...
- O quê? A Florinda disse-nos que foi a cegonha...
- Era mentira...
Ria-se, divertido e um pouco cínico, dizendo que a Florinda era mentirosa.
E acrescentou:

- E o Pai Natal também não existe!
- O quê? És parvo? Tu é que és um mentiroso!
Quase nos zangámos com ele nesse dia, ofendidas.
No seu racionalismo procurado, no seu cientifismo de adolescente estudioso e solitário, com certeza infeliz, destruía-nos os mitos. Não conseguia, porém, abalar a nossa imaginação...
-Não acredito! Tu não sabes!, dizia eu.

Eu era uma rebelde e tinha a mania da contradição, e agora recusava aquela explicação que tirava poesia à vida: a cegonha com um bébé no bico, o Pai Natal no seu carro puxado por renas não eram verdade?

E as histórias de fadas: o Pássaro Azul, a Princesa Zoé, o sapatinho de cristal da Gata Borralheira e a abóbora que se transformava em coche dourado, os ratinhos... também não existiam?
A minha irmã insistia, preocupada:
-Foi uma cegonha... Nós vimos, não vimos?
E virava-se para mim, para eu confirmar.
-Não sei... Vimos uma cegonha, nesse dia...
A dúvida já se instalara, porque eu respeitava os conhecimentos do Marco. Ele era o nosso grande amigo. O seu saber, a sua conversa prendiam-nos horas a fio e eu gostava muito de o ouvir.
Não eram só os livros do Jules Verne, emprestava-me também, sempre que vinha, uma revistinha semanal, chamada O Mosquito.

Mais tarde, já depois da sua doença, deu-me uns livros de História da Grécia e de Roma, em espanhol, para preparar o 7º ano.
Era um miúdo fechado, que de vez em quando se expandia, se entusiasmava a contar coisas, a querer provar a sua verdade, tudo aquilo que estudara nos livros.

Tinha ficado órfão muito cedo, praticamente ao nascer.
Tomou conta dele a irmã do meu pai, que o criou como filho, juntamente com os seus, que foram nascendo a seguir.
Era uma mulher generosa, possessiva e com uma personalidade marcada. Em jovem tinha ido estudar escultura para o Porto, quando o meu pai lá esteve a fazer os preparatórios de Medicina.
Mas o meu avô morrera inesperadamente, ainda novo, e ela teve de voltar sem acabar o curso para junto da mãe, viúva, a ajudá-la a orientar a casa e tratar dos irmãos, todos rapazes. A sua carreira ficara assim partida ao meio, os seus sonhos e ambições cortados.
Quando a visitava, era meiga comigo.
A última vez que a vi, pouco antes de morrer, estava sentada numa poltrona confortável, rodeada de livros policiais, parecia-me as “generalas” russas dos livros de Tolstoï...
Lembro-me dela quando me enrosco no sofá, rodeada de almofadas, agarrada a um livro da colecção Vampiro, horas seguidas, esquecida do mundo...
Talvez tenha herdado também daquele lado o meu gosto pela literatura policial -que começou quase logo que aprendi a ler e ia à estante do quarto dos meus pais escolher o livrinho que às vezes lia, às escondidas, metida na cama com um candeeirinho preso ao espaldar.
A mãe do Marco era uma bonita jovem mulher, diziam, de olhos sonhadores, cheios de melancolia, verdes como os dele; o pai era o irmão mais velho do meu pai, homem que parecia bom, e que voltou a casar com uma senhora espanhola, uma das pessoas mais alegres que me lembro de ver na minha infância. Talvez só a tia Zézinha fosse tão divertida...
Quando íamos visitá-los a Espanha, lembro-me dela que ria sempre e contava histórias tão engraçadas das quais ela era a primeira a rir, com gargalhadas cristalinas que subiam e desciam e recomeçavam no meio de exclamações de espanto e de alegria.
Foi ela quem ensinou à minha mãe o primeiro gaspacho e uma sopa deliciosa de peixe e amêijoas, com imenso açafrão.


O Marco vivera alguns anos com eles e passara ali parte da Guerra Civil espanhola. Contava depois a minha mãe que, em Alegrete, onde fora passar umas férias, ainda rapazinho, olhava aterrorizado para o céu, quando passava um avião.
Perguntava:
-“Tia, os aviões deitam bombas?”
E fugia do jardim, indo esconder-se dentro de casa.
Um dia, o meu primo Marco teve uma crise de nervos, no meio da rua Direita, pouco depois de ter saído de nossa casa.
Uma crise violenta em que foi difícil dominar a sua agressividade.
Foi levado para Lisboa para ser tratado e estivemos muito tempo sem o ver. Melhorou, mas quando voltou, não me parecia o mesmo.
Como se um pouco da fagulha da sua inteligência e da sua sensibilidade se tivessem apagado.
Restava-nos o seu sorriso irónico e um pouco triste.
Lembro-me dele quando passam as cegonhas...

Aventuras do meu cão Zac, em São Tomé...












Era um aventureiro, um destemido o meu cão Zac. E um companheiro como nunca houve outro.
Já contei a história dele e da matilha selvagem e hoje estava a pensar (penso nele muitas vezes...) e lembrei-me da história da porca selvagem que amamentava as crias...


Nessa amanhã, tínhamos ido cedo –antes que o calor tornasse impossível o passeio- seguimos pela estrada que sobe pela Chácara, vai em direcção à Trindade, passa por Monte Café e continua por ali acima até à velha Pousada.

Não sei exactamente por onde andámos mas lembro-me que, a dada altura, encontrámos a D. Fausta, uma senhora mulata que tomava conta de umas hortas ali perto, e ficámos a falar com ela.
Havia um desnível ao lado, uma espécie de tanque gigantesco, lembrando um terreiro de forma rectangular, com bordos altos.
O Zac saltou logo para lá e começou as suas investigações, e, curioso como sempre foi, pôs-se a cheirar tudo e a dar ao rabo, sinal de que estava entusiasmado com qualquer coisa.
Andou, andou e afastou-se para o fundo do tanque, enquanto estávamos distraídos na conversa.
De repente, ouve-se um grunhido furioso que não percebi de onde vinha nem o que era! Um ruído assustador, porque não o esperava, virei-me e vi o Zac a fugir, ligeiro, perseguido por uma porca muito grande, correndo desalmada, a resfolegar, atrás dele.
Acho que o espanto do meu cão era tão grande que, de início, se assustou e foi perdendo terreno. Nem conseguia ladrar de medo, e eu só lhe via as orelhas atiradas para trás e o olhar ansioso, com a cabeça meio de lado, virada para o sítio onde eu estava.
Chamei-o para mostrar que estava perto, e atenta, para lhe dar alento.

De facto, deu-me a sensação que acelerou na corrida à volta do tanque, fazendo de repente uma finta inesperada, voltando logo para trás, sem parar de correr.
A porca que não esperava tal reacção, travou, e foi derrapando antes de poder mudar de direcção.

Entretanto, o Zac já se tinha aproximado de nós e parara a olhar para cima.
Puxei-o para o colo. Aliviado, ladrou, ladrou até perder o fôlego de vez.
Lambia-me a cara num agradecimento sentido, suspirando...

1. a minha casa em S. Tomé

2. estrada para o Cão Grande
3. o meu cão Zac, na varanda da casa

terça-feira, 17 de novembro de 2009

S. Tomé e o Tchiloli, um pouco de história e cultura























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Hoje gostava que vissem este video sobre um dos mais interessantes espectáculos culturais de São Tomé: o "Tchiloli".




Esta "tragédia" foi levada da Ilha da Madeira (onde chegara com os marinheiros das naus portuguesas) para São Tomé e pertence ao ciclo carolíngio e intitulada "Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno".

Fui encontrar estas indicações num livro precioso de Fernando Reis, "Povo Flogá "( o povo brinca, edição da Câmara Municipal de São Tomér, 1969). Fala dos múltiplos contributos da ilha d S. Tomé para a cultura, dos seus divertimentos de ontem que ainda existem hoje.

Vivi em São Tomé cinco anos que não esquecerei.




Assisti, em várias noites (geralmente de lua) nesses anos à representação do "Tchiloli", pelo grupo do Riboque do inesquecível Professor João que ensaiava os seus alunos (novos e antigos).




Quando havia espectáculo, o professor João mandava um aviso, por um dos mais jovens, a dizer-nos se queríamos assistir.
Íamos sempre.

Era diferente o espectáculo, os risos não batiam nos mesmos pontos. O público reunia-se em pequena assembleia num das clareiras ou pequeno largo entre as casas. Casas de tábuas de madeira construídas em palafitas para as torrentes das cheias da estação das chuvas não alagarem as casas.


O público variava, nunca era o mesmo, e as reacções variavam e conforme as reacções, os actores respondiam ou actuavam conforme.




Lembro-me de esperar que caísse o sol ( o crepúsculo desce de repente em São Tomé e ao dia sucede-se a noite em breves minutos) para nos prepararmos para a festa. De chegarmos em noite alumiados por pequenas velas em cima de bancos de madeira, na rua pobre que subia para o Riboque. Uma lâmpada no alto, ao canto no telhado de uma casa mais alta dava a luz necessária, porque a lua ajudava.

Mas aqui ali havia uma luzinha de petróleo, ou de vela, pois a maoria das casas ali naquele bairro pobre não tinham electricidade!
Vejo as folhas enormes das bananeiras, os coqueiros esguios de um lado, as acácias que davam flores cor de laranja, as mangueiras e a árvore da papaia, como décor.

Uma ou outra mulher espreitava por detrás de um pano branco nas janelas, meio escondidas. A assistência sentava-se no chão ou ficava em pé e as pessoas mais velhas tinham direito a uma cadeira.
A humidade caía, o calor era desagradável naquele sítio fechado, sem a brisa que às vezes corre na Gravana, e eu tentava embrulhar-me num lenço de seda para me proteger dos mosquitos que desciam em voo picado e nos vinham atacar. O paludismo não perdoava, mas valia a pena o risco...

O "Povo Flogá" faz referência à actuação do grupo (que foi famoso) da "Formiguinha da Boa Morte" (um bairro da cidade capital, como os meus amigos sãotomenses se referiam sempre a São Tomé). Que veio a Lisboa há muitos anos e teve grande sucesso sempre.

Porque o espectáculo da tragédia depende sempre da actuação do público e do grupo que a representa.

Diz Fernando Reis:
"O "Auto da Floripes" (ou "São Lourenço"), do Príncipe, e o "Tchiloli", de São Tomé (...) ambas do ciclo das histórias de Carlos Magno, foram levadas pelos portugueses nas suas naus até à Madeira, aos Açores, a S. Tomé e ao Brasil.




Num folheto da chamada "literatura de cordel" [porque as folhinhas vinham atadas por um coredel, nota minha...], esgotado há muito e cuja edição pertence à Livraria Lello & Irmãos do Porto, lemos este auto "A Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carloto Magno" e também o nome de Baltasar Dias, o escritor cego madeirense contemporâneo de Gil Vicente.

Este opúsculo, amarelecido e a desfazer-se pelos anos, foi-nos oferecido por um ilustre filho de São Tomé, o senhor Aureliano Aragão, descendente de uma das mais antigas famílias da ilha.
Lemos também este auto no "Romanceiro" de Garrett [III volume de uma edição revista e publicada a 1963]. Nessa edição, Garrett não cita Baltasar Dias ou porque o auto foi recolhido da tradição oral, ignorando pois Garrett essa autoria, ou porque duvidou dessa autoria. Refere Garrett: "sua nobre origem bem sabida e manifesta: francesa ou provençal. Se foi língua d' "oc" ou d' "oil" a primeira que falou não sei mas quando atravessou os Pirinéus veio para nós."

Continua Fernando Reis: "O Tchiloli representado em pequenas clareiras do mato, nos quintés (quintais) sempre na estação seca, "gravana", que corresponde ao "cacimbo" em Angola. Ali se ergue o palácio do Imperador Carlos Magno com farda flamannte, uma coroa de latão e tem o risoto escondido detras de uma máscara de rede pintada de branco com duas rosetas vermelhas, um bigode e barba de algodão colados.(...)

Do outro lado, modestamente, está a família do Marquês de Mântua, o ofendido. O respeitável Marquês usa cartola, fraque e gravata preta. (...)"

E segue-se a descrição dos outros personagens: A viúva e as filhas de Valdevinos (assassinado pelo filho de Carlos Magno, D. Carloto), vestidas de luto, que vêm pedir justiça; o heróico Reinaldos de Montalvão, as princesas; D. Roldão, a Imperatriz (um homem pois todos os personagens femininos são representados por homens).

E no meio deles um pequeno caixão onde repousaria a vítima de D. Carloto. E as peripécias, discursos, imprecações seguem-se pela noite fora...
Espero que gostem! Voltarei com mais coisas de São Tomé: porque há ainda a "Ússua" (que vi dançar na inauguração do Mercado do Ponto), o "Danço Congo" (dos guerreiros do Congo), a música, e tantas outras manifestações da riqueza cultural destas gentes de São Tomé.
(para consultarem, aqui fica o site do Património de São Tomé)

sábado, 14 de novembro de 2009

"Os Olhos de Jade": capítulo 10





No ferry que se aproxima de Newhaven, a sul da costa inglesa, um homem novo está encostado à amurada. Fuma nervosamente. Tem os cabelos ruivos, os olhos castanhos, e as olheiras fundas de quem não dorme há muitas horas.
-Que pesadelo!..., diz em voz baixa.
E continua a pensar:
“Como é possível voltar a casa e saber que está morta...!? Saber que não a volto a ver...”
Olha fixamente a costa cada vez mais perto, respira fundo.
“Pouca sorte com as ilhas. Nesta, onde nasci, vou encontrar a minha mãe, morta. Quando deixei a outra ilha, perdi a minha infância, o meu pai...”
Revia os espaços de África, o verde infindável da floresta na bruma, o mar dum azul sempre vivo, a chuva a bater no telhado da casa, as torrentes de lama vermelha descendo a rua na estação das chuvas. O jardim tropical e os frutos que lhe pareciam de todas as cores do mundo...


E a imagem da mãe vinha, no seu vestido branco com papoilas, a segurar o chapéu de palha com uma das mãos, as fitas vermelhas caídas atrás, sobre os cabelos ruivos, e os olhos azuis a brilhar, divertidos.
-Meu Deus! Como foi possível!? Ela não podia morrer! Não podia...
Voltara a falar alto, gritava sem dar por isso.
Sacode a cabeça mas as imagens não o largam. Via os pais e a irmã no jeep atolado, num caminho deserto. Eles, miúdos, com o pai e o Zurigo a tentarem tirá-lo da lama, pondo enormes folhas de palmeira debaixo das rodas...
A mãe, agarrada ao volante, a rir-se.
“Desapareceu tudo num instante...”
Esse mundo maravilhoso de espaços abertos desaparecera e, de repente, o sentimento de perda, tremendo e doloroso, quando chegara à cinzenta Inglaterra.
“O que é que eu vou fazer? Morreste... A vida parou... Separados para sempre, mãe... E calo-me? Aceitei já a tua morte?”
Uma angústia enorme invadira-o. Vinham-lhe à memória uns versos de que a mãe gostava de Hanoch Levin:
Silent…meaning you did not rise, did not rebel…”
Aceitar a morte dela?
Meaning you go this way, I go that...”
Aceitar, sem gritos, nem protestos?
“Sem me revoltar? Em silêncio, mãe?! Não é possível!” No entanto, ali estava ele, aceitando, sem se rebelar, sem gritar...
Tinhas razão quando dizias que aceitaria a tua morte em silêncio...
“Inelutável”, repetias, “todos aceitamos... Vais ver... "
Parecia-lhe ouvir a voz doce e com um pouco de tristeza: “Fica só o pensamento, a lembrança, mais nada...”
Recordava bem a sua voz, declamando, devagar:
"... you burst out crying and then were silent,
meaning you did not rise, did not rebel,
meaning you were reconciled, meaning
I go this way, you go that."

"Sim, eu por este caminho, tu por aquele..." Mais sozinho e mais vazio.
"Recomeçar tudo do princípio, sem ti? Sem o teu olhar, o teu cuidado? Habituar-me a nunca mais te ver! Ó mãe, como é possível?”
Com uma das mãos tentou pôr ordem nos cabelos, despenteados pelo vento e pela maresia. Impaciente, segurava o cigarro aceso na outra.
-Não quero! Não posso aceitar!, gritou.
Encolheu-se dentro do duffle-coat, arrepiado e sozinho.
“Mais frio que em Amesterdão! Será sugestão, pelo cinzento do céu? Acho que sou eu estou gelado por dentro...”
A costa parecia aproximar-se rapidamente, o movimento das pessoas começara. Ouviam-se os motores a aquecer.
Entrou no carro, sentou-se e ficou a olhar para o mar, à espera.
Sem ele querer, o pensamento voltava atrás. Soubera da morte da mãe pelo telefone. Joan falara-lhe de Abidjan.
-“Michael querido, vou dar-te um desgosto enorme. Desculpa, tenho de ser eu a dizer-te, só eu é que posso... Uma coisa horrível...”
A voz suspendeu-se por um instante, depois ouvira-a respirar fundo e dizer num arranque:
-“A mãe morreu...”
-“A mãe? Estás maluca?!”
-“Morreu...”
“Não é possível a mãe morrer”, pensara ele...
-“Há três dias. Só soube agora, telefonou-me o Gabriel. Já marquei o voo, parto amanhã à noite.”
Ele calara-se. Como se o coração lhe tivesse parado. Não conseguia entender.
-“Pesadelo?”
Era um sonho aquela conversa. Um pesadelo do qual iria acordar. Não era possível...
-“Michael, ouviste?...”
-“Sim, ouvi, Joan...”
-“E não dizes nada?! Protesta, meu Deus!”
-“Não quero acreditar! Não posso...”
A voz soava metálica, como se não fosse ele a falar.
- “Morreu como?” , perguntara em voz arrastada, impessoal.
Depois percebeu que ela começara a soluçar, primeiro devagarinho, a seguir convulsivamente, sem parar.
-“Oh! Joan, Joan, não chores...”
-“Michael, não sei o que hei-de fazer. Tu vais lá ter comigo?”
-“Vou. Com certeza que vou... O mais depressa que puder.
Parou e perguntou:
-“O Peter vai?”
-“Não, tem estado fora de Abidjan. E, sabes, acho que certas situações temos que as viver sozinhos...”
Engolia os soluços, queria mostrar-se forte, como sempre procurara ser.
“És uma tipa dura”, costumava dizer a mãe, a brincar.
Mas era tão difícil ser forte...
Michael continuou, no mesmo tom:
-“Como foi?! Não estava doente, não tinha nada!”
-“Não sei os pormenores. Foi de repente, disse-me o Gabriel, e confesso que nem quis ouvir mais... "
Não conseguia dizer mais nada.
-“Vou precisar da tua força, Michael. Ajuda-me, por favor! Eu telefono-te quando chegar...”
-“Eu vou depressa, querida irmã!”, tentou animá-la.
De Brighton, ela voltara a telefonar-lhe.
-“Ouve, Michael, tudo isto é esquisito. Não acredito que tenha sido morte natural. Paludismo, dizem. Não acredito.
Hesitou. E disse de repente:
-“Penso que foi envenenada! Não posso dizer porquê, nem por quem, porque não sei.”
-“Mas isso é absurdo! Porquê a mãe?”
-“Não faço ideia, mas tenho as minhas razões. Ela tinha-me escrito uma carta... Alguém a quis matar. E conseguiu!
-“Não é possível!”
-“Ouve-me, Michael: tens de acreditar em mim. Depois falamos. Quando chegas?”
-“ Espero estar aí o mais tardar no fim da semana.”

O barco abrira-se como o ventre de um animal gigantesco. O mar cinzento agitava-se, violento, as ondas batiam com força no casco.
“O Jonas devia sentir-se assim a sair de dentro da baleia...”
Tentava ironizar, mas sentia o rosto esticado no esforço de conter as lágrimas que com a água salgada lhe ardiam nos olhos e na pele.

E ali estava agora, a chegar a casa. De Newhaven seguira a estrada junto ao mar. Em menos de meia hora estaria em Brighton e dali a Arundel era perto. A casa ficava um pouco antes da pequena aldeia.
Ia olhando a paisagem: dum lado o mar, do outro, as doces colinas dos Downs. E lembrava os tempos em que ali vivera.

Não sabia o que o aguardava, qual o mistério que envolvera a morte da mãe.
Sabia só que Joan estava sozinha e precisava dele.
________
(foto do blog "arquivo fotográfico", de DLC)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Agatha Christie, Lady do Crime, e o culpado: Poirot










capa da 1ª edição inglesa de The man in the brown suit, 1924 (The Brodley Head ed.)



Para os amadores de Agatha aqui vem mais uma "achega".
Vem do blog -que vos aconselho vivamente!- bicho-carpinteiro...




Afinal o culpado de tudo é Poirot, que, com o seu ar ingénuo, tudo consegue: até a atracção completa... total!

Prender desta maneira um leitor, um muito jovem leitor...



Assim confessa o "bicho carpinteiro:

"De Agatha Christie li tudo e Poirot é o culpado. The man in the brown suit será, quase de certeza, "O" livro policial . Li-o de uma assentada, nos tempos de estudante-adolescente-inconsciente, em que fazia directas de leitura pela noite fora sem ficar intratável no dia seguinte."

De acordo, Poirot é inesquecível e esse livro também... Podem lê-lo e perceber porquê...
P.S. 1.Saíu uma edição em 2003 de "O Homem do Fato Castanho", na Editorial ASA
2. Por curiosidade, para os amigos brasileiros, o título do livro no Brasil é: O Homem do Terno Marrom.
Ilustrações:
1. capa da edição de 2003, da ASA
2. capa das Obras de Agatha Christie, colecçºao Livros do Brasil
3. capa da 1ª edição inglesa: Brodley Head editors

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Um Nobel que vale a pena ler: Le Clézio, Prémio Nobel em 2008


















Foi, sem dúvida, um Nobel inesperado o de 2008. Mas um Prémio Nobel que vale a pena ler!

Le Clézio vivia afastado das "feiras literárias" e, desde o Prémio Renaudot que recebera em 1967, com 23 anos, escrevia sem preocupações de vir a ser isto ou aquilo.
Escrevia simplesmente. Contava histórias.

Correu o mundo, viveu em sítios muito diversos e observava o que via.
A Academia Sueca sublinha, pela voz do seu secretário permanente, as razões da atribuiçao do prémio:

"As suas obras têm um carácter cosmopolita. Francês, sim, porém mais do que isso, um viajante, um cidadão do mundo, um nómada".









Cidadão do mundo, que ama esse mundo e o procura entender. Nómada que nasce em Nice em 13 de Abril de 1940, parte aos 8 anos com a família para a Nigéria, vive em Inglaterra onde estuda inglês numa universidade britânica, vai ensinar para Bangkok, depois Cidade do México, Boston, Austin e Albuquerque, por exemplo .




Le Clézio passou longos períodos no México e na América Central, e, em 1975, casou-se com uma marroquina.

Normalmente, nesse percurso de "nómada", debruçava-se sobre os problemas ligados ao homem, ao seu mal de viver. Falava dos que viviam mal, sozinhos, abandonados pela sorte, ofendidos, insultados...

Vou dizer-vos algumas coisas que sei dele.
Recorro, para a biografia, ao catálogo da "1ª Exposição dedicada em França à obra de Le Clézio, em Câteaulin, Finisterra, Bretanha" (e a outros livros, claro).
Jean-Marie Gustave Le Clézio, Prémio Nobel de Literatura em 2008, nasceu em Nice, mas as suas origens levam-no às Ilhas Maurício, onde nasceram os pais.

Formou-se em Letras e, em 1963, com 23 anos de idade, ganhou o prémio literário Renaudot –prémio de literatura francês de grande importância- atribuído ao livro Le Procès-verbal (O Interrogatório).

Escreveu contos, novelas, romances, ensaios.
Vive hoje em Albuquerque, a maior cidade do Estado Americano do Novo México, e continua a viajar frequentemente até às Ilhas Maurício e a Nice.
A família de J.M.G Le Clézio é de origem bretã, como no fundo as consonâncias do seu nome fazem adivinhar (o nome Le Clézio indicaria a “passagem vedada” do território pertencente a uma família, clã, fechada com pedras, depois com ramos e depois com uma vala: em bretão “kleuz”, em galês “Clawd” e em céltico “Klado”).
A origem da família situa-se muito provavelmente no departamento de Morbihan, perto de Neuillac e de Noyal-Pontivy onde existe um lugarejo que tem aliás o nome de Le Clézio.

Os seus antepassados atravessaram essa vedação, emigrando na sua maioria antes da Revolução Francesa.
Um deles, François Alexis, não querendo submeter-se a um decreto da Convenção que decretava que se deviam usar os cabelos curtos, exilou-se em 1798. De viagem para as Índias pára na Ilha Maurício, então chamada Ilha de França. Onde se torna comerciante-armador de barcos.
Mais tarde, um dos seus descendentes –um dos bisavós de J.G, juiz, vai à procura do ouro, em Rodrigues.
Como não sentir predisposição para escrever e contar e sonhar histórias com um passado tão aventuroso e fantástico??
Viveu fora, errou de país em país, vagueou, percorreu mundos, "viveu" várias vidas.
Contou histórias que se passavam nos bairros pobres, nas "cités" desamparadas, falou de vidas difíceis, histórias umas atrás das outras, falando da dor de viver, de estar só, de ninguém pensar em nós...

É disso tudo que fala em "La Ronde et Autres Faits Divers".
Os fait divers as rubricas que enchem as páginas dos jornais: morreu, fugiu, foi violada, roubou, deu à luz num canto duma escada ou num vagão de mercadorias, etc etc...
São estes faits divers em quem já ninguém repara -e que, apenas, se lêem distraidamente, passando a outra notícia, esperando o jornal do dia seguinte com mais desses "faits divers" -que ele desenvolve e lança à cara do leitor. Agride-nos. Para acordarmos? E vermos?
É, muitas vezes doloroso lê-lo.
Por que sofrem estas personagens?
Porque se sentem sós. Mesmo nas cidades as pessoas estão sozinhas, rodeadas de betão, de casas aparentemente vazias, com janelas cerradas, "cegas" ao que se passa lá fora, ao que acontece aos outros.
Vejam:
"À beira do rio seco, há a cité de H.L.M. (*). É uma verdadeira cité em si mesma, com dezenas de edifícios, grandes falésias de betão cinzento empoleiradas sobre espalnadas de alcatrão, no meio da paisagem de colinas de pedras, estradas, pontes com o leito do rio de seixos empoeirados, ao lado da fábrica de cremação que deixa flutuar a sua nuvem acre e pesada por cima do vale. Aqui está-se longe do mar., longe da cidade, longe da liberdade, longe mesmo dos homens pois mais parece uma cidade deserta. Talvez não haja mesmo ninguém na verdade, ninguém nos prédios cinzentos com milhares de janelas rectangulares, ninguém nas escadas, nos ascensores e ninguém ainda nos parkings onde estão arrumados os carros? "
Porque a ofensa que é feita a Catherine (no conto Ariane) não é presenciada por ninguém...
(*) H.L.M. -iniciais de "habitation à loyer moyen", isto é: casas de rendas baixas.
(**) "cité" -é o nome dado aos "bairros" que ficam nos arredores das grandes cidades, muitas vezes degradados, cheios de problemas sociais...
As suas personagens sofrem...
Por ofensas variadas, faits divers para os outros...
Alguém foi violado ou magoado, insultado...
Duas jovens fogem de casa para conhecer o mundo não sabem o que fazer da liberdade...
Uma jovem mulher dá à luz, sozinha, com um cão na moquette do seu carro-caravana...
Uma miúda de moto, tenta roubar uma mala de mão e...

Esta última história, que se intitula exactamente La Ronde é uma história de abandono, de indiferença, de jovens saídas da adolescência sem horizontes, sem marcos na vida, sem ninguém que se lembre que elas existem. Vidas banais, cinzentas, de jovens correndo à procura duma aventura qualquer com que encher as vidas vazias, correndo atrás de uma diversão cada dia diferente, sem sentido, como a vida que vivem.
Desta vez, Martine tem que vencer o que ela considera um exame, uma prova. Como se o mundo esperasse um gesto dela! Tem que acontecer qualquer coisa!, pensa, antes de se decidir. Medo?
Mas, a rua da Liberdade está tão calma...
Sim, "la rue de la Liberté est calme"...

Um dia de sol. As casas, de paredes brancas reflectem a dureza desse sol escaldante, têm as persianas fechadas, como olhos que espreitam indiferentes, hora em que a cidade está deserta e mete medo, é fria apesar do calor do sol que bate como uma pedra na calçada, nas paredes, cortante.
Os outros não vêem nada, fecham-se nas suas casas de persianas fechadas, e esperam...
Dentro dos carros fechados, outros espreitam...

São "os outros" que empurram Martine e Titi para a frente. No vazio que de repente lhes parece ameaçador: primeiro "intenso", depois "angustiante", finalmente "estridente" dentro dela.

São eles que as empurram, que as "obrigam" a enfrentar a fatalidade...

A Martine nada lhe interessa. Chegar atrasada ao curso? Que importa? E se ela e Titi forem expulsas da escola?, pensa. O coração bate-lhe no peito. Pânico. Mas, no fundo, o que importa?No fim e ao cabo, é tudo a mesma coisa... Aborrece-se. É-lhe indiferente...
Decidem ir fazer a "ronda": acelerar na motoreta, pela avenida deserta, ir até ao fundo, girar em volta da praça e voltar para trás a toda a velocidade, num velocípede gasto e sem força, velho, emprestado pelo namorado duma delas.

Tudo é preparado para o desfecho. Na cidade vazia e escaldante, ouve-se ao longe o ruído do autocarro que se aproxima. Uma velha vestida de azul e de malinha na mão hesita se há-de parar para apanhar o autocarro. Da garagem ao fundo no cruzamento um camião de mudanças avança ronceiro na subida.
Os dados estão lançados, resta-nos seguir e ficar a observar...
As outras histórias deste livro de histórias são também acontecimentos banais, tão banais que ninguém dá por eles: Moloch, L'échappé, Ariane, Villa Aurore, Le jeu d'Anne, La grande vie, Le passeur, O voleur, voleur, quelle vie est la tienne?(***), Orlamonde e David.

(***) entrevista feita pelo autor a um pescador português, nascido na Ericeira... Que, à procura de vida melhor, errou pelo mundo: Bélgica, Austrália, Canadá, Paris... E acabou ladrão...
No final, o herói lembra uma canção que o pai lhe cantava quando ele era miúdo, na Ericeira:
Ó ladrão, ladrão
que vida é a tua?
comer e beber,
ó trilintim,
passear na rua...

O voleur, voleur, quelle vie est la tienne?
Era meia-noite
quando o ladrão veio
Beateu três pancadas
à porta do meio.
(...)
E assim acaba o conto...

Le Clézio, J. M. G., La Ronde Et Autres Faits Divers, Gallimard colecção Le Chemin, Paris, 1982
********************
Outras obras:

"Le procès-verbal" ("O Interrogatório"), de 1963,
La fièvre" (1965),
"Terra Amata" (1967),
"La Guerre" (1970),
"Désert" (1980),
"Le Chercheur d'or" (1985),
"Onitsha" (1991),
"Etoile Errante" (1992),
"Le Poisson d'or" (1996),
"Voyage à Rodrigues" (1986),
"Diego et Frida" (1985),
"Révolutions" (2003),
"Ritournelle de la faim" (2008).

The Beatles: começar o dia bem com "Yesterday"




Paul MacCartney "Yesterday" & The Beatles: sempre!
Hoje, ontem e amanhã!
Divirtam-se, recordem, sorriam...
Éramos mais novos, talvez um pouco mais ingénuos, mais inconscientes... E os Beatles seguiram-nos, acompanharam-nos vida fora...
Pelo menos aqui em casa já vamos em duas gerações que amam os Beatles!
São sempre um tónico, uma água fresca que faz bem à alma...
Enjoy yourself!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Poesia: Régio e Sebastião da Gama "Quando eu nasci..."




O dia em que os poetas nasceram...























José Régio...




Quando eu nasci, Senhor! já tu lá estavas,
Crucificado, lívido, esquecido.
Não respondeste, pois, ao meu gemido,
Que há muito tempo já que não falavas.





Redemoinhavam, longe, as turbas bravas,
Alevantando ao ar fumo e alarido,

E a tua benta Cruz de Deus vencido
Quis eu erguê-la em minhas mãos, escravas!





A turba veio então, seguiu-me os rastros;
E riu-se, e eu nem sequer fui açoitado,
E dos braços da Cruz fizeram mastros...







Senhor! eis-me vencido e tolerado;
Resta-me abrir os braços a teu lado,

E apodrecer contigo à luz dos astros!











E Sebastião da Gama...






Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura
que olhava nos olhos de minha Mãe.






... Ora aqui há uns tempos, em Agosto creio, ao falar do "nascimento" de José Régio, acabei por copiar o soneto "Quando eu nasci..." de Régio ... do poema de Sebastião da Gama que começa também por "Quando eu nasci..."
Internet. Problemas de "copy" e "paste"... Culpa do computador, claro... Da máquina! Da precipitação e da rapidez também com que nos movemos... Mas indesculpável!
Peço desculpa aos leitores que induzi, involuntariamente, em erro e agradeço a Leonilda que, apreciadora e conhecedora dos dois, disso me avisou...

Aqui ficam agora atribuidos correctamente: Sim, Leonilda, tem razão: "o seu a seu dono!"

Grandes poetas que eles são os dois, não precisam de ser confundidos...

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O etnógrafo Victor Segalen, a língua perdida dos Maoris, Gauguin e a "arte de tudo ousar"







~























VICTOR SEGALEN, foi um etnógrafo, arqueólogo, escritor, poeta, explorador, teórico de arte, linguista e crítico literário francês. Tudo isto no curto espaço de vida de 41 anos...

Nasceu em Brest em 14 de Janeiro de 1878. Estudou medicina naval em Bordeaux. Viajou, e viveu na Polinésia(1903-1905) e na China (de 1909-1914 e em 1917).
Morreu, acidentalmente, em circunstâncias misteriosas e de causas desconhecidas, em 21 de Maio de 1919.

Foi, de facto, encontrado morto, dois dias depois do seu desaparecimento durante o que deveria ter sido um passeio normal, na floresta de Huelgoat, França.

Apresentava apenas uma ferida no calcanhar.

Dizem que, aberto em cima do peito, tinha um exemplar do “Hamlet” de Shakespeare .

Depois da morte, deram o seu nome à “Universidade Victor Segalen II, de Literatura e Ciências Sociais”, de Bordeaux.















Algumas obras:
- “Les immémoriaux” do qual existe uma tradução portuguesa, intitulada “Maoris”, na Editorial Estampa.
(Um mundo que morre. Os tahitianos atraiçoaram os seus deuses e costumes depois da chegada dos Europeus. O drama desenvolve-se nesse momento. A história passa-se pois no século XVIII, depois da conquista das ilhas, e fala da tentativa desesperada do último pagão que vai à procura da escrita capaz de salvar da morte a língua sagrada dos Maoris, salvar “as palavras que não devem morrer”).

- "Stèlles", livro de poemas

- “Hommage à Gauguin, l’insurrecte des îles” -do qual existe também uma tradução portuguesa, “Homenagem a Gauguin”, seguido da obra de Paul Gauguin, “Noa Noa”;

- “René Leys” – que em português se intitula: “A Cidade Proibida (René Leys)”, publicado na Assírio & Alvim


















À procura de Gauguin e da “arte de ousar”
Quem terá falado a Segalen de Paul Gauguin, o exilado dos mares do Sul?
Em 1903, Vicor Segalen parte para o Tahiti, numa missão médica. Tem 25 anos, e a cabeça cheia de literatura, mas nunca tinha visto uma pintura ou uma cerâmica do grande Gauguin.

Jovem médico, saído de fresco da Escola de saúde naval de Bordeaux, vai encontrar involuntariamente um "mestre de arte -e também “um mestre de pensar”- nesse revoltado que foi Gauguin.

É encarregado de verificar o legado de Gauguin, após a sua morte, e nada sabia dele...

Parti para o Tahiti mal conhecendo o seu nome...”, confessará mais tarde.

E o que lhe disseram, quando chegou, desembarcado do navio La Touraine, desta personagem “odiada pela colónia” francesa, deve-lhe ter esfriado o entusiasmo:


Gauguin? Um doido que pinta cavalos cor de rosa!”, disseram-lhe.
Gauguin pertence, com Manet e outros, à família dos pintores malditos”, diz lacònicamente André Breton no seu Journal des Iles, em 1903.

Quando Segalen desembarca em Papeete, Gauguin morrera três meses antes, em Hiva-Oa, depois de ter estado na prisão três meses por causa duma discussão com um gendarme francês. Morre com uma overdose de morfina, num estado de grande debilidade, com sífilis.
Participa no leilão das obras do pintor -onde todos os haveres daquele "louco que pintava os cavalos de cor de rosa" são vendidos a preços irrisórios- e compra alguns quadros (entre eles, "Paisagem de neve em Pont-Aven " (1883), algumas tábuas pintadas que faziam parte da "casa" de Gauguin, e a paleta do pintor ainda suja de tinta, que guardará como um talismã precioso.
Segalen recolhe em Nuku-Iva a pasta dos papéis de Gauguin e, deslumbrado com o que vê e lê, parte em peregrinação à procura dessa personagem.
Aproxima-se da figura do grande pintor depois de ver o “legado” estético por ele deixado e ficar seduzido com a grandeza do pintor e da sua alma completamente livre.

Aí, nessa obra, compreende o génio selvagem do revoltado, “verdadeiramente artista, exilado e solitário...”

No relatório que envia para França, arrisca-se a tomar posição quando evoca "os tristes restos de um povo com uma vida híbrida de selvagens em vias de perversão civilizada"...
É com Gauguin que aprendera já “o direito de tudo ousar”?
Gauguin fora um "monstro", reconhece Victor Segalen, sem outras palavras para o definir, porque ele não “entrava em nenhuma das categorias conhecidas que bastam para definir a maior parte dos indivíduos".

O artista colossal e frágil, solar e cheio de desespero, o artista diverso, e em tudo excessivo. É esse excesso que dará força à sua obra altiva, dolorosa.


Gauguin, ex-marinheiro, ex-agente de câmbios, ex-marido, ex-chefe de família, Gauguin que deixou tudo para trás e tudo queimou na sua vida. Mas se tudo queimava era porque ele também era fogo e ardia.

E é desse Gauguin "ardente" que Segalen vai à procura, ou parte à conquista, numa espécie de peregrinação às raízes, aprendendo com ele o significado de "tudo ousar", quer dizer tudo ter a coragem de dizer, pintar, interpretar, simbolizar, imaginar...



Escrevia Segalen ao pintor e amigo Georges Daniel de Monfreid: " Posso dizer que nada tinha percebido do país e dos seus Maoris, antes de ter visto e quase vivido os desenhos e croquis de Gauguin..."

É em Hiva-Oa que encontra o fiel amigo de Gauguin, que o acompanhara até à morte, o velho maori Tioka, e dele recebe as últimas recordações do pintor. Fala com Sara, uma das mulheres que vivera com ele e guarda as cartas que ele lhe escrevera.
Diz-se no Prefácio (de Marie Dollé e Christian Doumet) a Les Immémoriaux (Classiques de Poche):

"O que Segalen deve acima de tudo a Gauguin é "um certo olhar" sobre o universo polínésio. Tal como ele, o pintor era um estranho na Oceania; mas, sem renegar essa diferença essencial, nunca deixou de marcar a sua distância em relação aos outros Brancos vindos incarnar e assegurar, entre os autóctones, a soberania europeia!"


(Peço desculpa da letra em que aparecem as citações acima: fugiram em liberdade, em roda livre! Não saem! O tal "direito de ousar" preconizado por Gauguin apanhou-as completamente!!!)

Como súmula dessa aprendizagem, desse conhecimento, dessa semelhança de "olhares" é a homenagem da qual vos aconselho a leitura (“Homenagem a Gauguin, o insurrecto das ilhas"). Assim como também a leitura dos outros livros dele que citei...
Deixo-vos alguns "links" úteis (que me ajudaram...)

René Leys (1922)
Polynesia (1903-1905)
China (1909-1914 and 1917).
Huelgoat, France - a floresta onde morre em circumstâncias misteriosas talvez com um exemplar do Hamlet ao lado...
Victor Segalen Bordeaux 2 University, de literatura e ciências sociais, em Bordeaux.
Ilustrações:
1. floresta na Polinésia
2. retrato de Victor Segalen
3. Paul Gauguin, "mulheres"
4. a cidade de Brest onde Segalen nasceu
5. a Universidade Victor Segalen II
6. Gauguin, "o mar está perto"
7. vista aérea de Papeete
8. o quadro "paisagem de neve em Pont-Aven"
9. Gauguin, "duas mulheres tahitianas"
10. Gauguin, "o feiticeiro"