domingo, 21 de novembro de 2010

Hakima e o "Café Maure" de Rabat

o "Café Maure", debruçado sobre o rio Bou Regreg


vista sobre o Bou Regreg e Rabat. Em baixo, as muralhas da Kasbah

O “Café Maure” ficava na parte mais antiga de Rabat, debruçado sobre o Bou Regreg, o rio, junto ao bairro da Kasbah des Oudaïas.
o rio Bou Regreg e Salé
Na outra margem do Bou Regreg, está Salé, a velha cidade fundada pelos andaluzes, os muçulmanos expulsos da Espanha, depois da Reconquista Cristã.
os jardins dentro da Kasbah

Chegaram por volta de 1600 e instalaram-se em Salé. Em tempos idos, Salé fora uma república –chamada República do Bou Regreg. Tivera a sua capital na Kasbah des Oudaïas. Mausoléo Mohamed V

Rabat aparecia-me sobretudo como uma cidade colonial, sobretudo na parte nova das avenidas modernas, que, numa atitude inteligente e de respeito, os franceses e Liautey quiseram construir afastada do centro.
a Avenida Mohamed V, à noite...

Ao entrar na Medina, ou na Kasbah, tudo mudava imediatamente.

velha fotografia da Medina de Rabat

As lojas, protegidas por toldos e, lá no alto, por um telhado envidraçado, espécie de vitral, com belos desenhos, logo à entrada da Medina, vendiam um pouco de tudo.


entrada principal da Medina, espécie de "galerias" cobertas por vidro

Os vendedores começavam a conversa do seu negócio, enquanto serviam aos clientes copos de chá de hortelã escaldante e bolinhos.
O prazer do vendedor era também o da discussão do preço. Lembro-me de ler em Canetti, n’ “As vozes de Maraquexe”, que “era impossível saber, nas medinas de Marrocos, “o preço justo” fosse do que fosse”.


Tudo se vendia, num cálculo minucioso de uns e de outros, conforme a oferta...

Desde os artigos folclóricos destinados aos turistas, aos objectos de madeira bem trabalhada, às tigelas de barro em branco e azul, ou às jóias de prata finamente trabalhada, na zona onde fora a judiaria, indo até às roupas de todos os tipos, sapatos, chinelos bordados ou de couro fino, brincos de filigranas coloridas, e colares.

Ou as especiarias perfumadas, de cheiros exóticos e apetecíveis, onde predominava a curcuma amarela, os cominhos, a canela, as paprikas de todos os tipos, as pimentas coloridas, e as caixinhas de verdadeiro açafrão em fios vermelhos, que diziam vir directamente do Irão.

A Hakima vivia no centro da Medina, numa casa modestíssima, apenas um quarto e uma cozinha, sem mobílias, enriquecida pelos panos coloridos e pelas almofadas espalhadas no chão.

Foi aí que um dia a Hassnaâ, com o seu sorriso aberto e orgulhoso, nos acompanhou, de visita.
Ia vestida com um tailleur simples, lenço azul ao pescoço e botas altas. O que era já uma sua atitude escolhida, num Marrocos que começara a mudar um pouco. A tentar, lentamente, modernizar-se, permitindo uma certa liberdade às jovens mulheres da classe média ou, mais dificilmente, das classes mais baixas.
Lembro Rabat muitos anos antes, onde as mulheres andavam veladas e com djellabas até aos pés...

Hassnaâ incarnava essa mudança, na classe dela.

A Hakima era umas das irmãs mais velhas da Hassnaâ. Muito diferente dela, ajuizada, calma, procurava ajudá-la a equilibrar. Como se isso fosse possível com a loucura e a teimosia da Hassnaâ. Os seus excessos, entusiasmos, ou os modos de vestir exagerados, modernos.

Às vezes passávamos as três no “Café Maure”, sentávamo-nos nas mesinhas quadradas com tampo de azulejos ou nos bancos corridos, junto do parapeito de pedra e olhávamos o rio que corria lá em baixo, ou o areal seco das margens do Regreg, quando o calor apertava, no Verão.

jardins da Kasbah, onde se encontra o "Café Maure"


Andávamos pelas áleas de flores do jardim, que está à entrada da Kasbah.

Depois, passeávamos pela Medina, sem destino, parando aqui e ali, perguntando o preço, discutindo um pouco sem vontade.

Íamos até ao fundo, onde começava outro bairro, com ruas menos movimentadas, onde ficava a casa da Hakima.

Em casa dela, um dia, encontrei a irmã gémea de Hassnaâ, a silenciosa e doce Hassaniah. A bela e religiosa Hassaniah que, ao fim da tarde, rezava, de joelhos numa serapilheira que desembrulhara no chão, virada para Meca.


Nós as três íamos bebendo o chã de hortelã, sentadas nas almofadas baixas enquanto, com gestos quase invisíveis, Hassaniah rezava ao seu Deus, como a Hassnaâ costumava dizer...

Hakima olhava-a séria, de sobrancelhas franzidas como era seu costume, interrogando-se, talvez, sobre o sentido daquela oração. Hassnaâ sorria, irónica.
Os olhos dela observavam-me, iam de mim para a figura curvada da irmã e dela para mim outra vez, querendo ver a minha reacção de europeia a essas orações.

A Hakima era uma mulher inteligente, habilidosa, não muito bonita. Trabalhava num restaurante de Rabat onde, à noite, enquanto decorria o jantar, havia um espectáculo de dança do ventre.

Um dia fomos assistir ao espectáculo da dança do ventre.

Depois dos kebabs, a tagine de borrego com ameixas e passas de uva sultana, e as sobremesas variadas de doces de amêndoa, e chás, chegou a bailarina.


A bailarina e o seu corpo ondulante que parecia ter perdido a ossatura e o peso, contorcendo-se elegantemente, quebrado pela cintura, como um boneco desarticulado.
As mãos e os dedos com minúsculas campainhas agitavam-se, acompanhando o jeito do corpo e da cabeça. Num movimento contínuo que nos prendia a atenção, dando-nos vontade de agitar o próprio corpo, fascinados.

A Hakima deslizava, atenciosa, entre as mesas, de sapatos rasos, com um vestidinho de cetim negro que lhe ficava bem, servindo com cuidado toda a gente.

No outro dia, a Hassnaâ contou lá em casa que ia muitas vezes ajudar a irmã a servir às mesas do restaurante.

Quando chega a hora da dança do ventre”, dizia ela, “já estou cansada e tenho sono”.

Encostava a cabeça numa mesa e adormecia, contava ela... E dormia ali toda a noite, se fosse possível, até acabar o espectáculo.

"Por vezes acordo..." -contava.
Imagino-a abrindo os olhos negros e brilhantes, animando-se e cantando alto, a bater as palmas.
Era fácil de imaginar, porque ela era assim impulsiva e incontrolável, na sua alegria sincera, ou espalhafatosa.

A Hakima vinha dizer-lhe que fazia barulho, e mandava-a calar para não incomodar os clientes. Tratava-a um pouco como uma criança a quem se quer proteger.

A Hassnaâ calava-se e ia deitar-se lá atrás, enrolada como um gato, num sofá de almofadas de cores berrantes, ao pé de mesinhas de latão com arabescos gravados, um pouco distante das outras mesas.

Voltava a adormecer ao som da música e só acordava quando a irmã, acabado o serviço, vinha fechar as luzes da sala e a chamava.

Seguiam as duas, noite cerrada, amparando-se uma à outra no seu cansaço, pelas ruas da Medina sombria, caladas.

Do outro lado viam-se as portas fechadas da Kasbah e, lá dentro, o “Café Maure” tinha adormecido também.

Longe, penso nelas: as duas irmãs, Hakima, Hassnaâ.

E na beleza do “Café Maure”, mais os seus azulejos azuis e amarelos, nos jardins de laranjais e limoeiros com flores de todos os tons, no interior da Kasbah.

Lembro a cor do céu e do mar um pouco mais longe, espraiando-se num longo areal recortado.

E o azul barrento do Bou Regreg, com Salé, vila de piratas, na outra margem...

E tenho saudades da Hakima, da Hassnaâ e do “Café Maure”.


4 comentários:

  1. Tanta saudade! Porquê? Porque tenho saudade de tudo quanto vivi...

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  2. Nao temos mais o Chatwin, mas sim temos MJ! :-)) Porque isso post parece como saido dum romance dele, mas porem ha tuda a sensibilidade duma mulher falando e describendo outras mulheres. Gostei muchissimo disto conto.
    Bye&besos

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  3. Grazie! Tenho que ler o Chatwin! Uma pessoa que muito admirei -Luciana Stegagno- Picchio- que conheci (bem pois trabalhei com ela), gostava dele também...
    tutto bene?
    bacioni

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  4. Chatwin pra mim era o emblema de como uma pessoa tem que viajar. Nao foi o solo, habia outros, claro...
    Tou bem sim como espero de ti. Bacioni

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