terça-feira, 7 de setembro de 2010

Viagens: Essaouira, as gaivotas e os observadores de horizonte...




Descendo a costa, recortada e cheia de precipícios, seguindo de El-Jadida para Safi encontra-se lá bem em baixo, Essaouira, ou Mogadoro, ou a terra que é o “lugar de todos os ventos”, aparentemente o sentido que a palavra tem em árabe.

Há quem refira também o significado: "a bem defendida" (amogdul), que viria do berbere.

Qualquer das hipóteses tem razão de ser... Basta lá ir e observar.

De facto os ventos giram num corropio de ruído nos ouvidos, de areias levantadas, cabelos a voar...

E a cidade fica rodeada de muralhas...


Do outro lado, está o porto e a bela Porta da Marina.


Uma cidade de mar, branca e linda, recortada num céu azul, é a recordação que tenho. Onde ia sempre com enorme prazer.

O torreão, as ruínas da antiga fortaleza portuguesa -e os escolhos logo ali- estão perto de um passeio que um parapeito alto acompanha.

Ali, passam nos céus as gaivotas e baixam em voos picados, circulares, em busca do peixe. E as pessoas devagar passam ao lado do mar e do velho torreão abandonado.
Terra de mar, de pescadores, de barcos, de porto, de azul, de peixe e de gaivotas. Gaivotas enormes que parecem sair de uma estampa.Pairam nos ares e descem pousando as patinhas no parapeito, olhando-nos de igual para igual, sem medo, quase com prepotência, como se fossem donas do lugar.

E ficam, no lusco-fusco, a olhar longamente para o mar.
Como aqueles que vinham ao entardecer e se encostavam ao muro, apoiados no parapeito. Todos os fins de tarde, os “observadores de horizonte”, como gostava de lhes chamar, paravam a olhar para longe.

Ficavam a ver cair a noite, de olhos fixos no mar ao longe e nos céus de fogo onde o sol se punha.

Os marroquinos são contemplativos. Vi a mesma ânsia de olhar para os longes para lá do Mar Mediterrâneo, em Tânger. Ou, igualmente, em Rabat, frente aos jardins que abrem as suas portas sobre as ruínas romanas, onde passam as cegonhas devagar.

Terra de pescadores, que vêm de longe, nos barcos, aproam no porto, e descarregam caixotes e caixotes de peixe. A lota é ali mesmo. No porto há os estaleiros onde barcos grandes formigam de gente à roda, de cães, de cordames, cheiro a tintas e a pez.
E a maresia.

Entre os barcos a calafetar, e os barquinhos azuis e brancos, de linhas elegantes, com barras vermelhas ou laranja atravessadas no casco, que chegaram do mar, há pouco espaço.

A agitação do porto comunica-se-nos, os olhos ficam presos nas cores, na madeira brilhante, no peixe seco ou frito que ali é vendido sobre bocadinhos de pão.

Pouco depois, já encontramos o peixe nas bancadas no tal passeio junto ao mar e, ao almoço, abrem tendas que logo apresentam espetadas de peixes variados grelhados.

Essaouira é também aquela ponta da cidade que se recorta sobre as águas, empoleirada nos rochedos, com vistas impossíveis de encontrar noutros lugares.

Ou a cidade dentro de portas, e cercada de muralhas brancas.

A entrada pelas “três portas” era extraordinária. Ali perto, na rua Lattarine, 34, havia um restaurante-pizzeria, a "Pizzeria Les Trois Portes", que tinha a particularidade de ser gerido por três jovens mulheres: Mouna, Amal e Assia, todas primas.

Espaço pequeno mas confortável e um atendimento igual. As três mulheres eram muito simpáticas, conversadoras, risonhas.

Como tantas jovens marroquinas que conheci, queriam partir, sonhavam com a Europa. Tinham estudado, não encontravam saída para as vidas.

Dizia Aïssa, a mais velha: "Eu vou para Londres, tenho lá um namorado. Caso com ele e pronto!"

Tempos depois quando voltámos, a Aïssa já não vivia ali. Casara com o tal namorado e estava em Londres. A Mouna entretinha-se a jogar às cartas dentro da gaveta do armário onde guardavam os talheres. A Amal sorria.

Dentro da cidade, havia a kasbah, as lojas de madeiras maravilhosamente trabalhadas, como a madeira de tuya e a raiz de tuya, mais fina e preciosa. As caixas de segredo, com várias portas, cofres para guardar as jóias, com uma fechadura minúscula e a sua chave trabalhada.

Em redor de Essaouira, plantações de tuya coloram de verde escuro os campos.

O comércio é muito variado, a comida é boa e os sorrisos vêm facilmente aos lábios.

Havia uma Galeria de Arte, a Galerie Marea Arte, numa rua grande, a Youssef El Fassi, onde dois amigos italianos recebiam os visitantes com uma conversa interessante e alguns aperitivos.Na praça ao lado, ficava o Ryad Desdémone, construção mista, entre o colonial francês e o estilo árabe.

Em baixo, era um clássico café-restaurant francês. Os quartos pertenciam, no entanto, já ao mundo das mil-e-uma-noites, com aspectos de esconderijo que me lembravam os subterrâneos do Ali Babá...

Uma espécie de caverna de luxo, caiada de um branco impecável, mas fechada, claustrofóbica, com a cama enorme no fundo, dossel de véus que tudo cerravam, e a humidade que se entranhava nos ossos.

Na manhã seguinte saímos à procura de um hotel normal porque eu me sentia morrer de claustrofobia...Escolhemos um hotel na entrada da cidade, perto do mar.

Nas noites quentes de Verão cheias de scirocco e de areia por toda a parte, havia em Essaouira os Festivais de Música.


Nuns meses, o Festival de Música Gnawa (geralmente em Junho), noutros, talvez em Agosto, o Festival de Música Andaluza.

Vinha gente de todo o Marrocos e de fora... A cidade agitava-se, os hotéis e Ryads não tinham lugar.

Era um acontecimento para a cidade do sul!

Mas a Essaouira azul, sem ninguém -só os da terra-, poucas pessoas, com os barcos e o cheiro a mar, as praças batidas pelo vento, era outra coisa...

Era o repouso, a calma, a contemplação dos horizontes...O vento girava, girava no seu corropio, como pequenos ciclones com cheiro a mar.

Podem ouvir um pouco de música Gnawa e dar uma olhadela ao festival...

http://www.festival-gnaoua.net/festival_essaouira/pages/index.php


3 comentários:

  1. Que bonito tudo, João!Dizem que a beleza está nos olhos de quem a sabe contemplar,e tu sabes ver, sentir e contar depois.É um prazer ler-te,apetece mais...Beijinhos

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  2. Obrigada, minha amiga! Mas os sítios é que ajudam...
    beijos

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