quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Kazuo Ishiguro e a solidão das pessoas "especiais"? Ou de todas?...

Há uns anos, pelo Natal, o meu filho ofereceu-me um livro que me impressionou. Hoje escolhi falar-vos dele..
Chamava-se “Don’t let me go” e o autor era um escritor japonês, Kazuo Ishiguro. Tinha sido publicado em português pela Gradiva e a tradução de Rui Pires Cabral era excepcionalmente boa.

Conhecia o nome do autor, por ter visto o filme tirado de outro livro seu: Os despojos do dia (1), filme com dois actores extraordinários, Emma Thompson e Anthony Hopkins.
A verdade é que li o livro em três ou quatro dias. Livro inesperado, tema estranho, quase de ficção científica, confesso que comecei a lê-lo com certa desconfiança.

Pensei que o autor não precisava de ter ido buscar ao tema estranho do livro a angústia e o sem-sentido da vida dos personagens, porque, no fundo, andam todos eles no livro à procura do sentido da vida (deles, estranhos) como qualquer ser humano (nós todos, normais).
Não digo mais porque acho que é o leitor que tem de ir descobrindo, pouco a pouco, o enredo.

Encontrar um sentido para a vida num mundo agressivo onde tantas vezes nos sentimos solitários, diferentes, postos de lado, sem saber qual é o nosso lugar nesse mundo.
De hoje ou de sempre?
Qual o sentido da vida, se vamos morrer?, já perguntavam os existencialistas e, antes deles, outros.

O próprio Gauguin se interrogava no belíssimo “painel”: Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?
Também Kathy, Ruth, Tom e os outros se interrogam...
Personagens vivas, bem conseguidas que nos “arrastam” nas suas dificuldades, angústia, solidão.

Acompanhadas pela canção Don’t let me go que nos (me) obsessiona.
O livro começa simplesmente, de modo directo:

Chamo-me Kathy H. Tenho 31 anos e trabalho há mais de onze como ajudante. Parece muito temp, bem sei, mas a verdade é que me pediram que continuasse por mais oito meses, até ao final deste ano. O facto de ser ajudante há tanto tempo bão significa necessariamente que me considerem uma profissional excelente”.
(...)
Os dadores a meu cargo sempre se saíram melhor do que o esperado, com períodos de recuperação surpreendentemente curtos. Raramente foram considerados de “agitados”, mesmo antes da quarta doação.”
(...)
"Além disso, sou uma antiga aluna de Hailsham – o que por vezes é suficiente para pôr as pessoas de pé atrás comigo. ‘A Kathy H. escolhe sempre à vontade dela’, diz-se por aí à boca pequena. ‘E escolhe sempre gente como ela: gente de Hailsham ou de uma das outras escolas privilegiadas. Por isso é que tem tão bom currículo’.”
a verdadeira Hailsham hoje

E, a partir destas duas primeiras páginas já nos move a curiosidade e entrámos em contacto com os principais pontos do drama: ajudantes, dadores, Hailsham...
O que significa Hailsham?
Universidade de St. Andrews (Melville), escolhida pelo realizador para "representar" Hailsham

Kathy, a narradora, vai então "voltar atrás" e contar as suas recordações de infância e adolescência.
A acção situa-se numa Inglaterra bela mas “distópica” (decidi “manter” a palavra porque acho que é sempre útil enriquecer a língua, que tão mal tratada tem sido, adulterada, etc.), onde não vai haver um lugar seguro para aqueles adolescentes super-preparados, especiais.
É nesta maravilhosa paisagem da Escócia (Weston) que Mark Romanek ambienta o filme
Pouco a pouco, com eles, vamo-nos apercebendo da “anormalidade” da situação, naquele ambiente onde nada falta.
Nada?
Há a canção Don’t let me go -de Judy Bridgewater-, que nos segue desde o início, com a pequenina Kathy.

“Ouvia-a” dentro de mim, pensava que existia, queria ir procurar o CD, saber quem era acantora...
Até ao fim do livro ouvi a canção. Só depois descobri que era uma canção inventada, cantada por uma cantora que nunca existiu.

A atmosfera do colégio-orfanato de Hailsham –o lugar seguro, o sítio onde os alunos se podem considerar “iguais aos outros”, encontrar protecção - e fora do qual ignoram o que poderá acontecer-lhes.

Ignoram que espécie de “existência” os espera “lá fora”. Sabem no entanto que os aguarda um destino invulgar.
Naquele estranho colégio interno são criados e educados, sem família. Os professores empurram-nos para a criação de obras de arte, sob diferentes formas.
A misteriosa Madame, espécie de directora, escolherá os melhores e vai mais tarde reuni-los numa Galeria.
Miss Emily, a professora que está “mais próxima” de Kath, ajuda-a, entusiasma-a.

Criar é importante. Manter a saúde também é importante. Resguardarem-se do que se passa fora dos muros do colégio também.

Vai-se criando um certo suspense aos olhos do leitor.
Qual o por quê de tudo isto?
Mas teremos de acompanhar até ao fim as personagens, para saber...
O título da novela vem da canção que Kathy ouve: Don’t let me go. Foi gravada por ela, numa cassete, intitulada Songs After Dark e é cantada pela cantora (que depois descobrimos fictícia) Judy Bridgewater...
Kath costuma dançar, na sua solidão, abraçada a uma almofada, entoando o refrão: baby, never let me go.
Uma vez, a misteriosa Madame vê-a dançar, e chora.
Mais tarde, num encontro decisivo da história, Kathy pergunta-lhe por que chorou ao ouvi-la.
Iludindo a pergunta, Madame responde que foi a imagem daquela criança desprotegida frente a um mundo desconhecido, um novo mundo eficiente mas cruel que a chocara. Pensa que essa criança chora, pedindo ao velho mundo “seguro” para não a abandonar.

No livro, tudo é bem recriado, verdadeiro: os adolescentes, os professores, a escola, os recreios, os grupos.
Verdadeira a figura da narradora, Kathy, e dos amigos mais íntimos, Tommy, Ruth, Laura.
E devagarinho são levados - e nós com eles - a descobrir a verdade da aparente felicidade da infância e perceber o futuro que os espera.

Romance que emociona. Carregado de sentimentos, de melancolia e do sentido da fragilidade e da efemeridade das (nossas) vidas.

Infelizes e abandonados...
Pobres ursinhos!

Algumas notas sobre o autor e o livro:

Kazuo Ishiguro nasceu em Nakasaki, Japão, em 8 de Novembro de 1954. Veio para Inglaterra em 1960, quando o pai, cientista oceanógrafo, veio fazer um trabalho de pesquisa no National Institute of Oceanography.

Foi educado numa escola para rapazes, no Surrey.
Estudou Creative Writing na University of East Anglia.
Escreveu vários livros:

A Pale View of Hills (1982),

An Artist of the Floating World (1986)
The Remains of the Day (1989)
When We Were Orphans (2000) e outros...
Posso dizer-vos que a editora portuguesa Gradiva traduziu quatro dos seis romances de Kazuo Ishiguro:

Os Despojos do Dia (1989, vencedor do Booker Prize), Os Inconsolados (1995, vencedor do Cheltenham Prize), Quando Éramos Órfãos (2000, nomeado para o Booker Prize) e Nunca me deixes (2005, vencedor do Booker Prize).
O romance Never Let Me Go (Nunca me deixes) é de 2005 e foi uma obra muito premiado na altura em que saiu.
De facto, em 2005, recebeu o Booker Prize (prémio que Kazuo Ishiguro vencera já em 1989 com o livro The Remains of the Day).
Escolhido também para os Prémios Arthur C. Clarke Award e National Book Critics Circle Award desse ano.
O Time magazine considerou-o o melhor romance de 2005, e incluíu-o na sua lista dos melhores 100 novelas.
Recebeu o Prémio da
American Library Association (ALA) e o Alex Award, em 2006.
Em 2009 escreve "Nocturnes", a primeira colectânea de contos, depois de seis romances. Traduzida e publicada em Portugal (Nocturnos), em 2009.

No ano de 2009- 2010, Mark Romanek realizou um filme sobre Never let me go, que tem, nos principais papéis, Keira Knightley, Carey Mulligan and Andrew Garfield.


Apresentado este ano no Festival Internacional do Filme de Toronto, vai abrir agora em Outubro o 54º London Film Festival (BFI 54th London Film Festival) que se realiza de 13 a 28 de Outubro de 2010. Romanek e Garfield em Toronto

a actriz Keyra Knightley, em 2008

O filme será apresentado nos USA em 15 de Setembro deste ano.
Em Inglaterra, sairá nas salas em 14 de Janeiro de 2011.

(1) The Remains of the Day , Os Despojos do Dia, (título em Portugal) e Vestígios do Dia (título no Brasil) é uma co-produção dos Estados Unidos e do Reino Unido, filme dramático, realizado por James Ivory em 1993, com um guião baseado no livro homónimo de Kazuo Ishiguro.

(2) “A utopia e o seu contrário, a distopia, são géneros de literatura que exploram estruturas sociais e politícas. A ficção Utópica é a criação de um mundo ideal (Paradise Lost), ou utopia, como fundo para uma novela. A ficção Distópica é o oposto: criação de um mundo de pesadelo, ou distopia.
Muitas novelas combinam as duas, às vezes como uma metáfora para as diferentes direcções que a humanidade pode seguir, pelas suas escolhas e acabando com um de dois possíveis futuros.
Ambas, utopias e distopias são vulgarmente escolhidas na ficção científica e noutros géneros de ficção especulativa.

2 comentários:

  1. Metade de mim é noite fria e perdida na solidão. A outra metade e lua palida no eu das estrelas, brilhando como noiva pura a beija meu rosto de sonhador.
    SAUDAÇÕES NOBRE AMIGA E UMA VEZ MAIS FICA NA PAZ.NAMASTÊ.
    Mr. Butterly

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  2. Todo leitor é traido pela memória. Há várias maneiras indireitas de conhecer um livro: Pela crítica, por resumo ou pela fala dos amigos. Opiniões sobre literatura são sempre um tanto arbitrária. Fale bem ou mal de um livro mas fale vom convicção - e ninguém desconfiara que você não leu. Oscar Wilde ensina que a crítica litéraria é uma forma de autobriografia. Fale do significado especial que o livro tem para você - mesmo que não tenha lido. Saudações e fica na paz.
    Mr. Butterfly

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