domingo, 2 de janeiro de 2011

Um livro para começar o ano: "O Milagre de Sao Francisco", de Steinbeck

Neste ano que começa, todo novo, quase em branco (o mal foi o que alguns já lá “escreveram”, deixando-nos com o peso dos problemas de 2010 –que eles arranjaram- para resolver... ou, pelo menos, viver "avec"), queria escolher um livro bom, um livro que “abra” espaços, que nos faça rir, sonhar ainda uma vez mais.

A escolha era difícil, porque há -felizmente- muitos livros “bons”!

Decidi-me por um que reli há pouco: Tortilla Flat -que tem, entre nós, um belo título: O Milagre de São Francisco (1)-, de John Steinbeck.


Steinbeck foi um dos meus escritores preferidos na adolescência. Ainda hoje lembro o momento da primeira leitura de A pérola, livro que muito me impressionou e que adorei logo.

Depois, veio a leitura d' O potro vermelho (capa da edição da Lisboa Editora, 2007), outra história amada.


Mais tarde, vieram As Vinhas da Ira, Ratos e Homens e outros.

Um dia o meu filho, grande leitor de Steinbeck, falou-me de Monterrey -e as fotografias de que me vou servir foi ele que as "escolheu" e mandou o link sobre a zona Carmel-Monterrey.

Falava-me por vezes de Tortilla Flat (que eu não conseguia "identificar") e de Cannery Row (publicado em 1945, fala dos habitantes de uma rua de Monterrey, onde se vendem sardinha e peixe, e das suas vidas difíceis, durante a Grande Depressão).

Escrevia-me : "É perto de Monterrey, do livro do Steinbeck -"Cannery Row". Tem um ar latino a cidade e os arredores."


Não me lembrava já nada do assunto d' O Milagre de São Francisco, e gostei muito de o reler!

Fala de uns amigos que vão vida fora, sem rei nem roque, encontram um tecto sabe-se lá bem porquê nem como (coisas do acaso e da sorte: têm que ler...) e seguem unidos.

Três amigos que, durante a II Guerra, se vão alistar no exército, numa madrugada de ressaca de uma grande bebedeira.

E lá vão passar o tempo da guerra em todos os sítios possíveis (sobretudo na cadeia) menos no campo de batalha.
Os três, Danny, Pilón e Pablo, vão-se reencontrar depois e aí começam as aventuras no livro.
Tortilla Flat é a terrinha onde vão parar, a mesma onde tinham vivido. Em baixo, ao pé do mar, fica Monterrey. No alto da colina, empoleirada, fica Tortilla Flat.
Ali se instalam, sem um tostão, sem casa, sem tecto, quase só com o céu por tecto, vivendo do (pouco) trabalho a cortar lulas no chinês da terra, ou a pilhar, levar emprestado, trocar e vender para arranjar sempre o inefável garrafão de cinco litros... pouco antes das leis proibicionistas na América.

Comparados logo no início aos cavaleiros da Távola Redonda e ao ciclo do Rei Artur, numa demanda, não do Graal mas da vida livre, da bondade e da entrega aos amigos, rejeitam completamente os valores da sociedade Americana, vivendo como outsiders, vagabundeando, numa forma de liberdade absoluta.

Diz o autor, no Prefácio:

"É que nem entre a casa de Danny e a Távola Redonda havia diferença nem os amigos de Danny eram diferentes dos cavaleiros.

Esta é história de como esse grupo se constituiu, de como floresceu e se transformou numa bela e sábia organização. Esta história trata das aventuras dos amigos de Danny, do bem que fizeram, dos seus pensamentos e dos seus esforços. No fim conta-se como se perdeu o talismã e como o grupo se dissolveu."

Passa-se tudo, pois, em Tortilla Flat, na colina, perto de Monterrey, onde Steinbeck viveu longamente, com a sua população de paisanos, mestiços de tudo o que se possa imaginar, vivendo do que podem, expedientes vários, poucos são os ricos, todos vivem mais ou menos mal.

Lembro o Pirata e os seus cinco cães, que vivem num galinheiro, e que vão parar um dia ao pé dos outros...

A generosidade em dividir o que têm, o tal tecto que lhes aparece do céu, a comida que o pirata vai buscar de restaurante em restaurante todas as manhãs, a generosidade de Pilón que vai buscar o Pirata e os cães ao galinheiro, a generosidade de Danny que os acolhe a todos...

Enfim, deixo-vos o livro fechado para o poderem abrir à vossa vontade, aos poucos...

(1) reeditado pela Editora Livros do Brasil, em 2008 (tradução de Gervásio Álvaro)

Outras obras traduzidas:

A um deus desconhecido
Homens e Ratos

As Vinhas da Ira

A Pérola (há várias edições) , não consegui pôr a fotografia em pé!

Notícia biográfica sobre o autor:

John Ernst Steinbeck, Jr. (nasce em Salinas, condado de Monterrey em 27 de Fevereiro de 1902 e morre em Nova Iorque, em 20 de Dezembro de 1968) foi um escritor americano.

casa-museu John Steinbeck, em Monterrey

Ainda muito jovem, por influência dos pais, Steinbeck leu Dostoievski, Milton, Flaubert e George Eliot. Terminou o curso secundário no Salinas High School, em 1919.
No ano seguinte, ingressou na Universidade de Stanford, exercendo várias profissões para custear os estudos.
Escreveu o romance As Vinhas da Ira que foi o Prémio Pulitzer (
The Grapes of Wrath) em 1939.
Antes, Steinbeck conseguira o seu sucesso da crítica com o primeiro livros,
Tortilla Flat (1935), com o qual ganhou a Medalha de Ouro do Commonwealth Club, da Califórnia.

Em 1937, escrevera o romance Ratos e Homens ( Of Mice and Men ) e em 1952 publica A leste do Paraíso ( East of Eden ).

Escreveu no total uns 27 livros incluindo 16 romances, seis livros de non-fiction e 5 "colectâneas" de short stories.
Em 1962, Steinbeck recebeu o Prémio Nobel de Literatura..

O livro "O Milagre de São Francisco" (Tortilla Flat) retrata as aventuras de um grupo de jovens sem poiso, sem classificações, que vivem perto de Monterey, depois da II Guerra Mundial, pouco antes das leis proibicionistas. (wikipedia)

Em 1942 surge o filme tirado dessa história, realizado por Victor Fleming, com os actores Spencer Tracy, Hedy Lamarr e John Garfield, que era amigo de Steinbeck, e Akim Tamiroff.

4 comentários:

  1. Vou tentar encontrar este livro.
    Dele lembro-me de ter lidos dois dos livros referidos (As Vinhas da Ira e A Um Deus desconhecido) mas já foi há tanto tempo que seria uma boa ideia ir lê-los de novo.

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  2. Um dos desejos de 2011, arranjar mais tempo para ler.
    Excelentes fotos!
    Um abraço!

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  3. Este livro vale realmente a pena. Tinha-o perdido (emprestado?) e consegui encontrá-lo na papelaria-correios-livraria de Porto Côvo!
    Como é reedição recente deve ser fácil.
    Boa leitura!

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  4. De facto, não conheço este livro. Como talvez saibam, estou em Belo Horizonte, neste maravilhoso Estado de Minas Gerais, há mais de um mês... regressarei a portugal em 11 de Janeiro. Vou procurar encontrá-lo.
    Um abraço de amizade AS

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