terça-feira, 9 de agosto de 2011

Passeando com Corto Maltese e Hugo Pratt por Veneza...



Vittore Carpaccio, Chegada dos Embaixadores a Veneza




Ofereceram-me um livro maravilhoso: “Veneza, Percursos com Corto Maltese” da autoria de Hugo Pratt, Guido Fuga e Lele Vianello (1). Aconselho-o já a todos os amantes de Corto Maltese.











E da eterna Sereníssima, claro, de Veneza...



Desde 1967, ano em que Hugo Pratt escreve Una Ballata del Mare Salato e criou esta sua personagem de aventureiro de todos os mares - mas que partiu de Veneza para todas as aventuras- que os seus leitores se habituaram a partir e a viajar com ele.
Na apresentação dizem: "os itinerários deste guia irão revelar a Veneza oculta, aquela que o desenhador amava e na qual deambulava, longe dos percursos balizados”.


E é verdade, porque esta é a Veneza que os turistas não vêem, arrastando-se em massa pelos "percursos balizados" e diria mesmo "banalizados" que os Guias indicam.


Belos sempre, mas incompletos.


Sempre será incompleta a visita de uma cidade como Veneza, mas pelo menos com Corto Maltese será mais viva, mais interessante porque rodeada do halo que o envolve...


E esta é a Veneza dos seus habitantes mais simples, das pequenas osterie, das vielas e dos seus gatos, do Ghetto e dos boémios.
O livro tem, além do mais, o interesse dos desenhos de Hugo Pratt, sempre ele-mesmo, smpre diferentes e poéticos.
Pelas “calle” e "rughe", "campielli" e "piazze", pelas pontes e ponticelli seguimos atrás da aventura, na peugada do marinheiro aventureiro, e do seu autor. Rondando sempre por perto a Laguna e o seu feitiço.À procura do sonho, como tantos outros viajantes.



Os capítulos chamam-se justamente Porta da Aventura, Porta do Mar, Porta do Oriente, Porta do Ouro, Porta do Amor, Porta da Cor, Porta da Viagem.

As portas do Sonho e da Viagem...


E de viagens se trata acima de tudo: Veneza porto em ligação com o Oriente, Veneza misteriosa, Veneza secreta, a República Sereníssima do tempo dos Doges, a Veneza dos piratas e de Marco Polo, do comércio com o Oriente, do mistério.

Por vezes, Corto volta a Veneza, vagueia, contempla... Mas a sede de aventura depressa o chama a outros países longínquos, à procura de outros mares, outras estrelas, outra lua...



Uma vez passei em Veneza o mês de Novembro. Lembro-me que ficámos na pensão "Isaak Dinesen" que nem sabia que era um dos nomes da escritora Karen Blixen e se chamava assim porque ela vivera naquela casa uns tempos.


Era um Novembro cinzento e chuvoso mas, de quando em quando, abria o sol fosco sobre a acqua alta que invadira a cidade.


Levei umas botas altas que comprara em Roma, botas ensebadas com óleo de baleia, para durararem mais, que depois daquele mês dentro da salinidade da acqua alta de Veneza chegaram destruídas a Roma...



De facto, andávamos a maior parte do tempo sobre (talvez melhor, dentro) das águas turvas, batendo com força no chão com os tacões para não escorregar nos sítios onde estava menos alta, ou arrastando atrás pequenas ondas ao avançar quando a água chegava quase aos joelhos.


Nunca vi uma Veneza assim, nunca foi tão bela, tão misteriosa e tão de sonho.


A Piazza San Marco tinha, de lado a lado, uma ponte de banquinhos de madeira formando passagens possíveis, porque não bastavam as botas... O sol na água, o reflexo da Basilica, ou do Palazzo Ducale tornava tudo irreal, um mundo onde nos movíamos devagar, maravilhados.


O Florian, o Quadri estavam "invisitáveis", na cheia. Tínhamos de ir para outros lados, para as Le Zattere talvez, não me lembro bem já, à procura de um café.


Recordo chegar à Riva degli Schiavone e ficar pasmada a ver a Laguna, as gôndolas que quase entravam pela praça adentro, baloiçando negras e loucas, atadas com cordas aos postes coloridos que as sustinham.
Carpaccio, uma caçada de patos na Laguna



La Salute de um lado, com a enorme bola de oiro, e a ilha de San Giorggio. Ficava a imaginar: La Giudecca, Cannareggio, o Castello, Le Zattere por onde costumávamos andar e de que tão bem fala Hugo Pratt .


A adivinhar as ilhas e os mundos passados, nos quadros de Carpaccio...



Onde me lembro de tomarmos café a olhar para San Giorgio Maggiore, ao lado do Aldo Zari.


Ou ver as palafitas, que aguentam a cidade, cobertas pelas águas esverdeadas e cinzentas, e tremendo como parafusos aos riscos negros, até onde se podia enxergar, na suave luz do sol dourado do Outono.


Foi o meu momento de oiro de Veneza!

Muitas vezes lá fora antes e muitas lá voltei depois, mas é esta a imagem que guardo de Veneza.


No livro tocou-me a descrição pormenorizada de certos lugares que conheci bem, o amor com que Vianello, Pratt e Fuga falam da sua Veneza.


Sei que a amaram e conheceram bem, pelo modo como dela falam. De dentro, da Veneza desconhecida e pobre, da Veneza rica dos palácios do Canal Grande, da Veneza renascimental e gótica.



Da gloriosa Signoria di Venezia de que a Regata Histórica (que vi uma vez) é um exemplo inesquecível a recordar a grandeza e o poder da Sereníssima, impressionante ainda nos tempos de hoje.



Que Vittore Carpaccio soube pintar como poucos! Carpaccio de que fala Hugo Pratt e que adorava sempre ver. Como fala de Giorgione, de Gentile Bellini, de Tiziano, no capítulo Porta da Cor.


Quadros de dimensões enormes e que é preciso observar nos mais pequenos pormenores, dado o rigor da composição, o ttraço fino, a beleza das cores, dos matizes aveludados, da cor da laguna tão bem pintada, das gôndolas elegantes, dos rostos pensativos, da delicadeza de cada traço.


Daí o meu entusiasmo por este livro belo, delicado e cheio de belas imagens.


De Hugo Pratt já tínhamos todos ouvido falar. E há ainda tanto a descobrir...


Dos outros dois autores, Lele Vianello e Guido Fuga dizem as badanas do livro: "colaboraram com Hugo Pratt desde 1968, tanto nos seus álbuns como nos seus projectos publicitários. Aliando um conhecimento invulgar da cidade e da vida de Corto Maltese, os dois cúmplices são os mais indicados para nos revelar todos os locais preferidos do marinheiro e do seu criador".


Livro cuja compra e leitura vos aconselho ...e o ratinho também!



Obrigada, Isabel!


(1) publicado pela ASA em colaboração com o Público, na colecção "Rotas e Percursos".


Para uma amiga, em Portalegre, que gosta de Banda Desenhada e não conhece Corto Maltese, dou uma pista:






(2) O pintor Vittore Carpaccio (ou Scarpazza)



"Nasce em Veneza (ou Capodistria) cerca de 1465 e morre em 1525 ou 1526.


Foi um dos protagonistas da produção de teleri em Veneza, a cavalo entre o século XV e XVI, tornando-se talvez um dos melhores testemunhas da vida, dos costumes e do aspecto extraordinário da Serenissima naqueles anos."


11 comentários:

  1. Que post tão maravilhoso, deves ter disfrutado muito com tão belas recordações.
    Tens detrás uma vida linda,eu gostava de ter uma igual!
    Lembro-me bem do que disseste do Corto Maltese, já levo uns tempinhos seguindo-te fielmente...
    Beijos

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  2. Tenho que arranjar este livro deve ser delicioso passear por Veneza.

    Beijinhos! :)

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  3. É um livro cheio de coisas bonitas, tente comprar Ana.
    Minha Maria, sei que és das minhas mais antigas e fiéis seguidoras!
    Um beijo grande para as duas
    o falcão

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  4. De nada.
    Ainda bem que gostou.
    Fico muito feliz que tenha gostado e que esse livrinho tenha dado origem a tão belo post!

    Um abraço forte

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  5. Muito bom ver veneza assim, pelos olhos desse escritor que não conhecemos e dos teus.

    5 grandes bjs

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  6. Sou das tuas mais antigas e fiéis amigas, e por isso seguidora, minha Jana.
    Beijinhos da Maria

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Só agora cheguei a este blog, mas em boa hora o fiz, porque foi através de dois personagens,se considerarmos que o Blade Runner é igualmente um personagem, neste caso um "matador" de andróides, que sempre me fascinaram, por tudo o que acrescentam às nossas emoções.

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  9. silvaeaguiar@hotmail.com9 de agosto de 2013 às 15:20

    Tenho esse livro e ainda um outro que aconselho:Secret Venice-Thomas Jonglez

    http://www.amazon.com/Secret-Venice-Thomas-Jonglez/dp/2915807698

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  10. Obrigada pela informação, já fui ver ma Amazon. Veneza é uma cidade de sonho para os que têm um pouco de poetas dentro de si... Um abraço e Obrigada!

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