segunda-feira, 4 de abril de 2011

Entre a ironia e o real: a crise mundial, em BD: "As aventuras do Homem Desempregado"...

Gan Golan


Eric Origen

As Aventuras de um Homem Desempregado, aparecem em BD! Entre a ironia e a desgraça (“Adventures of Unemployed man”) saíu nos USA em 2011 (Editions Little, Brown & Company), onde teve grande sucesso.

Neste momento, faz furor na Inglaterra onde o jornal The Guardian lhe concede grande espaço.

















Em França, acaba de sair um artigo no Nouvel Observateur, mas ainda não foi traduzido.


Entre nós, já está publicado pela Bertrand.


Nos anos 30, depois da "Grande Depressão" de 1929, na América, aparecem pela primeira vez as aventuras do Superman, o super-herói da capa azul, que vinha trazer a esperança de uma mudança.


Era o herói anti-depressor, de capa azul e "S" no peito, que vinha distrair os americanos do pesadelo económico em que tinham caído.


Assim chegam Superman (1938) e mais tarde Batman (1939) que opunham ao mundo real um mundo imaginário em que um justiceiro punha as coisas no lugar, castigando os culpados...


Hoje, 2011, a meio de uma crise semelhante para a qual não se vê ainda nenhuma saída, aparece, como nesses anos, criado por Gan Golan e Eric Origen, a saga do Homem Desempregado.


Um herói, de capa a esvoaçar, e com o "U" de unemployed no peito!!


Sátira política? Sim, mas demasiado real, no fundo da América desorientada.

Sátira sobre a economia, as causas da crise, a hipocrisia.


E sobre os heróis também.

Com uma vaga ironia, e um humor cortante, surgem outros super-heróis, numa tentativa de sublimar ou esconder, no mais profundo dos espíritos, o horror financeiro que os devora.

Assim, surge o herói, o Homem Desempregado, às voltas com a crise.


No bidonville onde se "aloja", ou empoleirado pelos telhados, encontra outros desempregados, outros personagens ligados à mesma temática catastrófica.

Assim, em vez da antiga "Wonder Woman" (Mulher Biónica), aparece a Wonder-Mother... A mãe-biónica, ou "super-mãe," que por acaso até foi despedida por estar a dar de mamar ao bebé, no escritório.E o jovem Master of Degrees (Mestre em Licenciaturas?), estudante supergraduado que não consegue pagar o empréstio que fez parae estudar...

Aparece também "Plan B" (Plano B...), o desempregado mais velho, cuja poupança-reforma foi engolida pelo sistema desencadeado pelas subprimes, etc.

O Homem Desempregado luta corajosamente contra a situação de injustiça criada pelos vilões – os egoístas- que vivem no “ Hall of Just Us” (Só Nós).


Como?


Um dia, o desempregado (e com contas para pagar) arregaça as mangas para lutar contra a crise económica!

O mau aqui não é o Joker, mas o Broker (o corretor) e o Superlotto cujos bilhetes, numa América onde o “ascensor social” parou, são hoje os únicos meios de "progredir na sociedade".

Paralelamente, aparecem outras comparsas, demasiado “presentes” nos dias de hoje: a sedutora The Human Resource (Recursos Humanos)Os falsos Nickel & Dime (Moedas e Tostões?) – parelha de silenciosos traidores- a Mão Invisível, a White Rage, etc.

Contra tantos, quem poderá ajudar o Homem Desempregado nas suas desventuras? Um deles é, como já vimos, o tal homem de cabelos brancos, o Plano B, que não arranja emprego por causa da idade... O tal que já não sabe se tem reforma.

Há ainda o herói-chefe, que, com o seu capacete de oiro, alado, de deus Hermes, se sente impotente, nada consegue fazer, porque os seus super-poderes não funcionam, boicotados por vários agentes, por correntes várias, pelos agentes da "crise".



Este super-chefe tem os traços de Obama e, como ele, está de mãos atadas...

De modo irónico, a verdade é que os autores da BD falam de um problema demasiado real nos Usa – e em toda a Europa: a situação desesperada de tantos desempregados mundo fora.
Hopper, "Nighthawks" (para mim, a imagem dos solitários da noite, quantos deles desempregados)


Será que o herói consegue arranjar trabalho? Ou vencerá a Liga Só Nós?

Um dos autores, Eric Origen (37 anos), confessa que “quiseram tomar uma atitude perante o desemprego galopante”.

Ele próprio, escritor/artista da Califórnia, como tantos, de vez em quando, está desempregado...

Mas precisávamos de encontrar alguma coisa que tivesse uma boa parte de vocabulário visual que ao mesmo tempo divertisse.”

Foi o super-herói original...

Encontrar os maus da fita não foi difícil, diz ele.

Na primeira semana encontrámos logo uns 100. Nem sequer cabiam no livro…”


Para ele, "esta novela gráfica vai empurrar os leitores para o mundo real".

Põem, no seu herói, "o exagero necessário para que as pessoas se confrontem com a verdade e percebam, sem escapes, a situação desesperante de milhares de famílias no mundo inteiro".

O co-autor da BD, Gan Golan, de 36 anos, considera-se "outro artista/escritor da Califórnia, desempregado”.


Insiste que esta banda desenhada –ilustrada por mais de doze mestres do “comic”- apesar do ar divertido e do humor, tem uma mensagem séria.

Falando de um fantástico super-herói, a verdade é que falamos de uma realidade que acontece no país agora. Enquanto o país tiver saída, a banda desenhada terá saída...”

Afinal, esta é como as outras uma história fantástica do bem contra o mal.

O Bem está representado pelo homem desempregado e pelo respectivo ajudante, "Plan B" (Plano B), e o Mal - os vilões, pois- são as instituições que ameaçam a sobrevivência de todos em geral.

Aqui os maus são os patrões, os impostos, a segurança social, o governo e os bancos, resumidos no inimigo número um do protagonista, "The Outsourcer" (O Contratante).

Para contrariar esta força diz Eric Origen “podemos formar um grupo: “The Un-Great Society” ( a Sociedade dos Pequenos).


Há sempre saídas políticas que nos podem levar a algum lado! Sejamos pois optimistas, como os autores!


Por que não ler uma BD que nos venha falar "de outro modo" daquilo que nos preocupa e angustia???

Esta pode ser uma maneira de “ensinar” o que se passa, as causas de um acontecimento que atinge o mundo: é uma contribuição valiosa para entender o que é, de facto, a justiça económico-social.

Ou a injustiça...


5 comentários:

  1. Boa noite

    e fora da banda desenhada, na verdade são verdadeiros heróis tantos que sobrevivem com tão pouco.

    Um beijinho
    Isabel

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  2. Gostei da abordagem. A esperança é cada vez menor, um túnel negro é o que vislumbro.
    Bjs.

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  3. Parafraseando a Salinger, digo que "há verdades que só se podem contar nos comics"... Beijinhos

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